Algumas Reflexões sobre os Carismáticos na Politica Brasileira, por Marcos V. de Freitas Reis

Os escolhidos para o processo eleitoral são os que já são lideranças em nível nacional, estadual ou regional, e que já exerciam cargos de liderança na burocracia da estrutura da Igreja.

Religião e Sociedade na Atualidade

Algumas Reflexões sobre os Carismáticos na Politica Brasileira

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

A cada eleição, a Renovação Carismática Católica tem incentivado os seus membros a participarem das eleições para cargos no executivo e legislativo e, em alguns pleitos, vem obtendo votações expressivas. A inserção dos carismáticos católicos na arena política brasileira teve início no começo da década de 1990, logo após a redemocratização e a formulação da Constituição de 1988, com a eleição do ex-Deputado Federal Osmânio Pereira (PSDB/MG).

Com a diminuição da censura, a volta do multipartidarismo, a garantia do exercício das diversas formas de liberdade, a garantia, por lei, de tratamento isonômico para todos os grupos sociais e, enfim, a conquista de direitos para o cidadão brasileiro, vários grupos sociais viam, na participação política partidária, uma maneira de garantir seus interesses na política e,  assim, legitimar o seu grupo. Podemos observar isto com os evangélicos, sobretudo os pentecostais. Esse setor foi obtendo constante crescimento no número de fiéis, procurando a expansão de suas Igrejas e combatendo a influência do catolicismo na esfera pública, porque vê, no sistema político, um meio para conseguir tais objetivos.

No tocante à Igreja Católica, em toda a história política brasileira, os católicos sempre se mantiveram em uma situação confortável. Até a Constituição de 1891, no advento da república, eles gozavam de  privilégios previstos por lei, constituindo, assim, quase  o monopólio religioso e evitando a concorrência com outras Igrejas.

Ao longo do século XX, com o processo de secularização, modernização, democratização, expansão do ideário comunista, o ateísmo e a conquista do exercício da liberdade de expressão e religiosa pelos grupos sociais, as pessoas começaram a romper com o catolicismo e procurar outros credos religiosos que se adequassem aos seus interesses.

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Para combater a expansão dos seus concorrentes religiosos, a Igreja Católica se viu na obrigação de mudar a sua forma de se relacionar com a sociedade. O ápice disso foi o Concilio Vaticano II (1962-1965), no qual os bispos do mundo inteiro definiram que a Igreja deveria dar mais espaço para a participação das pessoas nas atividades promovidas pelos clérigos e incentivaram os trabalhos com as camadas mais pobres.

A partir disso, vários movimentos conservadores e progressistas surgiram, com a iniciativa dos membros católicos, e começaram a ganhar espaço na sociedade e a simpatia de muitos padres e bispos, sobretudo, na América Latina. Podemos citar o exemplo da Teologia da Libertação, nascida na década de 1960 e tendo como principal líder Leonardo Boff. Tal corrente de atuação, influenciada por pressupostos marxistas, tinha como objetivo diminuir as desigualdades sociais surgidas com o sistema capitalista.

Com o início do Pontificado do Papa João Paulo II (1978-2005), a ala conservadora ganha destaque e todas as iniciativas progressistas são desencorajadas ou, inclusive, proibidas; vários documentos foram publicados pelo Vaticano proibindo ou reorientando os grupos ligados à Teologia da Libertação que parassem suas atividades ou mudassem a forma de trabalhar. Neste contexto, a Renovação Carismática Católica, movimento de cunho conservador, ganha incentivo por parte de algumas alas do clero católico e torna-se a aposta para combater a ala progressista e o crescimento de outros grupos religiosos. A RCC chega, no Brasil, na década de 1970 e, nos dias atuais, já conta com milhões de participantes.

A RCC constitui, hoje, uma das poucas iniciativas católicas que conseguem realizar eventos que reúnem milhares de pessoas, detém a propriedade de diversos meios de comunicação (como a TV Canção Nova e a TV Século XXI) e, para aumentar o seu poderio, no Brasil, insere seus integrantes nos diversos cargos políticos, com o intuito de expandir suas atividades e propor projetos de lei ligados à moralidade católica, atividade semelhante à de alguns grupos evangélicos.

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Podemos perceber que, além de interesses internos dos carismáticos na participação política, isto traz benefícios para toda a Igreja Católica. Seus representantes nos cargos do executivo e legislativo conseguem manter a presença católica na política nacional e ainda buscam recuperar a supremacia católica na sociedade ameaçada pelos religiosos pentecostais.

No capítulo 2 foi possível perceber o perfil desses políticos. A maioria dos mandatários é constituída de homens que são eleitos para cargos no legislativo, sobretudo, para o nível local (vereador); a alta escolaridade é registrada pela posse de diploma universitário; a profissão está ligada ao trabalho liberal, especialmente à docência e ao empresarial. A região Sudeste concentra a maioria dos políticos eleitos, o que, ao menos, em parte, pode ser explicado pela maior concentração dos carismáticos nessa região, pelo maior número de dioceses e católicos nesses estados e pela tradição política católica.

Percebemos, ainda, que a RCC não apoia qualquer um dos seus membros. Os escolhidos para o processo eleitoral são os que já são lideranças em nível nacional, estadual ou regional, e que já exerciam cargos de liderança na burocracia da estrutura da Igreja. Vimos que participar da coordenação de algum trabalho da RCC favorece a divulgação do candidato junto ao público, o que tem redundado em uma espécie de trampolim para a arena política, aliado as suas habilidades pessoais.

No plano político partidário, concluímos que houve uma predileção por partidos de centro e direita, apesar de expressiva participação dos carismáticos no Partido dos Trabalhadores (PT). Isto pode ser explicado pela identificação das lideranças da RCC com esses partidos. Historicamente, os partidos de direita e centro defendem ou dão abertura para que seus filiados defendam medidas conservadoras. A RCC, por ser caracterizada como uma instituição com ideários conservadores, vê espaço na atual nestes partidos.

Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Politicas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Politicas Públicas. E-mail para contato: [email protected]

 

1 comentário

  1. Não li o artigo por completo, mas acho a RCC apenas uma versão piorada do pior dos evangélicos dentro do catolicismo. Populistas, superficiais e ,como o próprio artigo afima, extremamente conservadores. Tanto que na elei~çao de 2018, bolsonaro reinou triunfante entre os seus membros. E que se esperar de seguidores dos bolsonarismo a não ser alienação e preconceito?

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