“Amanhã o dia da reconstrução”, por Paulo Endo

Ainda teremos de avaliar e criar estratégias de médio prazo, para além das semanas que antecipam as eleições presidenciais de 2022

do Psicanalistas pela Democracia

Quando a democracia mais uma vez se foi, nas eleições de 2018, havia hematomas que se manifestaram em nossos sonhos. O pavor, pânico e angústia inundavam a vida daquelas e daqueles que se sentiam ameaçadas e ameaçados pelas agressões proferidas pelo candidato que seria eleito para governar o país e que veio a assumir a presidência em 2019.
Naquela ocasião colhi, junto com Denise Mamede relatos de sonhos enviados por e-mail.

Num desses sonhos, uma mulher relatava que um bando de cães vinha em sua direção. Eles estavam apavorados e, ao vê-los, a sonhadora em seu sonho, logo abriu as portas de sua casa para que eles entrassem.
Quando entraram ela viu aquela balbúrdia canina, mas não identificou dentre todos aqueles cães, o seu cão. Deixou-os ali e saiu da casa, depois de abrigar tantos cães apavorados, foi procurar o seu cão. Assim termina o relato do sonho.

Naquela época, como escutador desse sonho, e tendo ativado minhas próprias associações e experiências naquele contexto, compreendi que nosso pavor diante de ameaças seguidas do candidato, que viria a assumir a presidência, precisava ser convertido em medo. O medo dialoga com um objeto correspondente, não é refém da angústia e atende aos apelos do pensamento. Ter medo de algo é o que nos prepara para o enfrentamento ou `a fuga diante daquilo que tememos.

No sonho dessa mulher era do pavor de bando que se tratava. Uma matilha amedrontada era abrigada em sua casa e, só aí, após abrigá-los, ela sai em busca do seu próprio cão. Esse sonho- um pensamento, como dizia Freud- mobilizava meu próprio pensamento a uma definição que me ocupava e melhor se deslindava em diálogo com esse sonho: A experiência da solidariedade encoraja, discrimina, esclarece e aplaca pavores.

Numa das experiências mais delicadas de toda a campanha vitoriosa, Guilherme Boulos e Luiza Erundina realizam uma live no dia em que o teste para COVID-19 de Boulos resulta positivo. Devido às exigências do período de quarentena, Boulos teria de se ausentar das ruas no último dia de campanha, além de não poder estar presencialmente, no principal veículo televisivo nacional para o último e mais importante debate entre candidatos. Solicitado o debate on line por ambos os candidatos, a emissora se recusou a realizá-lo.

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Nessa live, Guilherme Boulos, já nitidamente cansado e num esforço enorme para emitir sinais de força e pacificar as preocupações de seus eleitores e apoiadores, fala longamente sobre sua situação clínica e a necessidade da continuidade da campanha com a mesma força de até então; pede a contribuição dos apoiadores e eleitores e passa a palavra à sua companheira de chapa.
Em seguida Luiza Erundina, hoje com 85 anos e nitidamente cansada pela maratona das semanas que antecederam as eleições, toma a palavra com o vigor que sempre impressiona a todas e todos. Ela tranquiliza os eleitores e apoiadores dizendo que se sente bem, não apresenta qualquer sintoma e estará nas ruas em seu “catavoto” nas extensas atividades do dia seguinte, último dia de campanha. Elogia seu companheiro de chapa e o autoriza carinhosamente ao descanso e ao isolamento.
A solidariedade convicta de Luiza Erundina, sem hesitações ou solavancos, reergue o tônus da campanha em poucos minutos. Os inúmeros gestos de carinho e delicadeza que vimos entre Guilherme e Erundina nas últimas semanas, eram traduzidos agora como um convicto: “Deixa comigo companheiro, pode ir descansar.” Ainda que Luiza estivesse exausta e precisando de repouso tanto quanto seu companheiro de chapa.

Entre os momentos delicados e difíceis da campanha, computo esse como decisivo e essa cena será uma das que perdurarão para o futuro. Erundina e outros apoiadores tomariam conta das ruas -como fizeram no dia seguinte-enquanto Guilherme, suportando os sintomas da COVID que já eram sentidos, faria uma infinidade de lives e outras atividades de campanha isolado em sua casa.

Como disse e insistiu Primo Levi inúmeras vezes em seus escritos: a solidariedade não é dar o que se tem para aquele que não tem, mas a última fronteira que define a humanidade dos homens e das mulheres, quando supomos que não temos nada, mas ainda assim realizamos que podemos doar a partir do que não temos.

Os exemplos de Levi foram escritos a partir de suas experiências vividas no campo de Auschwitz. Ali ele demonstrou como os homens que não tinham nada além de seu corpo e psiquismo quebrados, ainda encontravam caminhos para erguer outro corpo exausto do chão, proferir algumas palavras reconfortantes ou dividir uma ração rara e escassa. Ao fazerem isso não estavam tentando sobreviver, mas tentando fazer sobreviver sua humanidade. Para Levi, eles eram os homens inspiradores e extraordinários. Isolado das prisioneiras, ele não conheceu a experiência das mulheres.

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Nessa campanha dadivosa reencontramos essa definição aguda e complexa de solidariedade pautando, mobilizando e repondo o perdido. Prometer fazer um governo para todos, a fim de angariar votos de modo indiscriminado, tanto entre os privilegiados da cidade quanto entre os aviltados é cínico e desonesto, mas ainda angaria votos.

Em São Paulo a recusa de aplicação de políticas distributivas sempre foi e continua sendo apoiada por ampla parcela dos eleitores, sistêmica e deliberadamente. Ela jamais foi quebrada pelas urnas numa cidade cuja população de classe média, boa parte conservadora dos próprios privilégios de classe, renda e situação geográfica representa 40% da população.

Nessa campanha vimos e vemos um onda enorme se erguer e embora ainda insuficiente para dar caldo na direita engomada, que domina as eleições no estado e na cidade de São Paulo há anos, apontou os caminhos, esclareceu estratégias e indicou que podemos surfar em sua crista desde já e até 2022.

Vimos mais uma vez que as forças que pactuam com o governo que acabou de ser eleito são muitas: os maiores jornais do país, quase a totalidade das redes de TV e rádio e diversos veículos digitais ligados aos mesmos conglomerados que apoiam o PSDB há décadas, mas também vimos que a população periférica não veio inteiramente conosco.

Ainda teremos de avaliar e criar estratégias de médio prazo, para além das semanas que antecipam as eleições presidenciais de 2022, coisa que Boulos e Erundina, líderes populares incontestes, conhecem bem e podem liderar esse processo, a fim de retroalimentar o sentido dessa revolução pela qual trabalhamos nessas eleições e que o país aguarda há muito tempo.

Como mais um dos milhares que trabalharam nessa campanha, penso que o que ela nos devolveu e nos fez compreender foi a luminescência que brota quando homens e mulheres se irmanam por algo que pertence a todos e a ninguém, e restauram em si o desejo da afirmação simultânea do que é comum e próprio.
A partir de agora já vemos os desafios e o enfrentamento histórico que se avizinha em 2022. Agradeço aos nossos queridos e inspiradores candidatos por terem preparado esse terreno difícil, que mais uma vez, palmilharemos adiante.

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Agradeço muito especialmente, sobretudo, às minhas companheiras e companheiros de grupo de mobilização que carinhosamente batizamos de Receita de Bolo e Cereja com mais de 85 pessoas trabalhando diariamente e que, junto com Cris Nakagawa, decidimos inaugurar com o objetivo de interferir e contribuir com Boulos e Erundina nesse segundo turno das eleições. Agradeço também à parceira e parceiros do Psicanalistas pela Democracia (Denise, André e Bruno) pela convicção emprestada à essa campanha, a esses candidatos e à essa cidade. Nosso obrigado também à sublime campanha de nossos queridos candidatos à prefeitura, representada no grupo por Daniel Cara, Muna Zeyn e Renata Boulos. Agradecemos ainda ao GGN e aos incríveis Jornalistas Livres por publicarem nossos textos e ao DCM por publicar nosso abaixo assinado.

Nessas duas semanas esses coletivos sorriram, choraram, celebraram e agiram politicamente juntas e juntos em várias frentes, de diversos modos e recriaram todos os dias, as instruções para o futuro que faremos acontecer. Não agora, não nessas eleições, mas a partir de amanhã quando recomeça mais um ciclo da reconstrução.

Descansemos por hoje para que nossos sonhos despertem o profundo de nosso pesar e os dilemas importantes de nossas convicções, quando tardam a se realizar. A dor que sentimos agora aguarda também seu repouso.
Mas uma coisa é evidente, tudo, até as dores são suportáveis quando inventamos um ritmo saboroso, inteligente, criativo e solidário; quando estamos, como estivemos, juntos na imensa fertilidade de nossas diferenças.

Então até daqui a pouco, quando nossos desafios serão maiores e o enfrentamento das mais baixas aspirações de poder, violência e degradação voltarão a ocupar as ruas. E seremos nós que poderemos e saberemos estar lá, uma e outra vez, para enfrentá-los.

Até breve.

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