Amor, ódio, pós-verdade e democracia, por Orlando Silva

O interesse, por óbvio, era alimentar a usina de fake news bolsonarista, plantar o ódio, bem ao estilo dos métodos de repetição da mentira para fabricar uma verdade.

Amor, ódio, pós-verdade e democracia

por Orlando Silva

A indústria de fake news nas redes sociais, em grande medida responsável pela intoxicação do ambiente político e pela manipulação da opinião pública que resultou na eleição de Bolsonaro, continua funcionando a pleno vapor. O mecanismo acaba de produzir uma notícia falsa, tão sórdida quanto grosseira, sobre projeto de minha autoria que cria o “Estatuto da Família do Século XXI”, em contraponto à conservadora tentativa de restringir as famílias legalmente como aquelas oriundas apenas do casamento entre homem e mulher.

Esse método vil de disputa política, com mentiras irresponsáveis produzidas por falsos veículos de informação e massificadas por exércitos de robôs e mercenários das redes, tem sido largamente utilizado pela extrema-direita para distorcer a realidade e estigmatizar adversários. Ele é destrutivo para o país, fomenta o ódio e a divisão na sociedade e interdita o debate de ideias, fundamental em qualquer democracia.

O projeto de lei 3369/2015 homenageia o amor ao propor que sejam considerados como núcleos familiares “todas as formas de união entre duas ou mais pessoas que para este fim se constituam e que se baseiem no amor, na socioafetividade, independentemente de consanguinidade, gênero, orientação sexual, nacionalidade, credo ou raça”.

A infame fake news, que visa atingir a mim, a meu partido e suas lideranças públicas, afirma de maneira mentirosa que o projeto “permite casamento entre pais e filhos”, o que obviamente seria uma insanidade. É o típico truque para falsificar um tema em debate. Quando o projeto diz “independentemente de consanguinidade”, está se referindo às milhares de famílias, sejam de casais héteros ou homoafetivos, formadas a partir do generoso ato da adoção legal de crianças e que não podem ser discriminadas como autênticas famílias.

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Aliás, sobre essa tentativa de confundir a opinião pública, já havia escrito um artigo, veiculado no jornal O Estado de São Paulo, em junho de 2016. Na ocasião, apontava: “Há tempos que a família é reconhecida não mais apenas por critérios de consanguinidade – ou seja, pai e filha ou mãe e filho -, descendência genética ou união entre pessoas de diferentes ou iguais sexos. As famílias hoje são conformadas através do AMOR, da socioafetividade, critérios verdadeiros para que pessoas se unam e se mantenham enquanto núcleo familiar. Exemplo disso, quando os filhos acabam sendo criados por tios ou tias, avós ou avôs, ou mesmo quando são adotados por outras famílias, ou, ainda, quando casais homoafetivos formam uma família.”

Da mesma forma, quando fala em “união de duas ou mais pessoas” não está se referindo à bigamia ou poligamia – o que, aliás, é proibido em nossa legislação -, mas ao núcleo familiar composto por duas pessoas, hétero ou homoafetivas, e os filhos destes, sejam naturais ou adotados.

É estarrecedor que grupos se aproveitem da religiosidade do povo brasileiro para semear esse tipo de acusação infundada e nojenta. O interesse, por óbvio, era alimentar a usina de fake news bolsonarista, plantar o ódio, bem ao estilo dos métodos de repetição da mentira para fabricar uma verdade. Em tempos de “pós-verdade”, quando para se formar convicções os fatos pesam menos que as emoções e visões particulares de mundo, manipular através da pregação da mentira é uma prática cotidiana.

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O veículo de comunicação sequer se deu ao trabalho de me procurar para esclarecer ou ouvir o outro lado, como manda o básico do fazer jornalístico. Não queriam informar, mas criar o fato político. Tanto é assim que, feito o estrago, o site retirou o link do ar, como se não tivesse responsabilidade pela difusão do conteúdo mentiroso e danoso à reputação.

Tão deplorável quanto é o comportamento oportunista de certas lideranças políticas, mais preocupadas em fazer urrar suas hordas de seguidores nas redes sociais do que em promover a verdade e o debate público saudável.

A vida tem demonstrado que esse tipo de conduta não tem nada a ver com liberdade de expressão e que as mentiras massificadas tem método e objetivo, tendo sido usadas por esquemas sombrios e ilegais com vistas à disputa política e eleitoral. É, portanto, um risco real à democracia com o qual não podemos transigir ou pactuar.

Este artigo visa repor a verdade e os fatos, mas a gravidade da infâmia exige outras providências para que isso não volte a se repetir. As medidas jurídicas e políticas contra os propagadores da abjeta fake news já estão em estudo, pois não podemos permitir que o ódio seja fomentado entre os brasileiros.

Orlando Silva é deputado federal pelo PCdoB-SP

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1 comentário

  1. Há tempos em que se deve aprender a tomar sopa pelas beiradas ou então morre-se de fome.
    Vivemos um momento em que os ânimos parecem efervescer enquanto os problemas que nos afligem ou aumentam ou permanecem insolúveis e o pior disso tudo é que o sistema não só contribui para que isso aconteça como também tenta evitar que melhore.
    Qual a solução se quanto mais nos contrapomos ou apresentamos soluções mais instigamos o sistema?
    A solução é a não resistência em primeiro lugar.
    A segunda via será acompanhar a corrente a desviá-la em seguida.
    As famílias alternativas sempre existiram e são, normalmente as mais exitosas, porquanto invisíveis e enquanto invisíveis não atacam o sistema familiar constituído como “normal” mas, carecem do amparo legal permanente que as famílias “normais” e “sagradas” usufruem.
    Como tratar desse assunto sem “suscetibilizar” os “normais”?
    Separando o que é “divino” do que é profano.
    As famílias divinas ficam no âmbito do direito de família.
    As famílias profanas ficam no âmbito do direito civil, com direitos civis, sem “macular” as famílias constituídas “como deus mandou”
    Acreditemos ou não, será somente uma questão de nomenclatura.
    Garantir sociedade civil familiar sem fins lucrativos e com obrigação de amparo mútuo aos contratantes, com direitos sucessórios e hereditários, tal qual no início, quando se admitiu a união estável, seria a solução viável, sem causar o intolerável choque aos conservadores.
    Querer associar o “divino” a uniões tradicionalmente “espúrias” e revesti-las sob o manto sagrado da “família”, será sempre uma receita para o ódio, o preconceito e o ressentimento.
    Às vezes, viver nas sombras será também beber água fresca.

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