Ao mestre com carinho e dúvidas, por Rui Daher

Ao mestre com carinho e dúvidas, por Rui Daher

No início de novembro, o sociólogo e professor emérito da USP, José de Souza Martins, escreveu no suplemento “Eu & Fim de Semana”, do Valor, sucursal do Globo, em São Paulo, o artigo “De Luiz Inácio a Jair Messias”.

Não perco suas colunas. Além dos motivos profissionais que me fazem ser assinante do jornal, embora dificilmente meus olhos passem por suas páginas políticas e opinativas nacionais, leio o sociólogo por admira-lo e ter sido seu aluno durante os anos 1970, nos “Barracões” da Cidade Universitária, USP.

O título do artigo é assim sintetizado por seu editor na lide: “O primeiro pensou a fragilização do Estado para fortalecer seu partido; o segundo terá que refortalecer o Estado sem apelar para estatização, já que seu compromisso é com a iniciativa privada”.  

Vou à leitura do texto. Nem sempre as lides são suficientes para entendermos o que os autores querem expor.

Primeiro, concordo com o raciocínio de Zé Souza (assim os alunos o chamavam na época), quando compara e iguala, em origens, as histórias de Lula (nordestinos) e José Serra e Bolsonaro (imigrantes italianos). Tanto a origem imigratória nordestina como a dos oriundi, e também de outras nações, serviriam a incorporar às zonas rurais e urbanas contingentes de trabalhadores destinados à construção da economia nas regiões Sul e Sudeste do país, com o fim da escravatura.

O professor: “Nos dois lados [Lula e Serra], a classe média originária de revolução decorrente da abolição da escravatura desbancava as oligarquias e chegava ao poder”, naquilo que ele chama de “pêndulo oculto que governa o processo político brasileiro”, descentralizado quando democracia ou centralizado quando ditadura.

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É aí que José de Souza Martins insere Jair Messias como novidade. Ao compor seu governo em base a “grandes frentes de interesses e a minimização dos partidos e do que representam”, o futuro presidente dá ao Estado brasileiro outra configuração.

Cria o professor, de forma inesperada, uma dicotomia, a partir das origens migratórias de Lula e Jair Messias, o que além de desprezar ideários superestruturais radicalmente opostos, coloca os dois personagens em contraposição, mas dentro do mesmo balaio político.

“Luiz Inácio pensou a fragilização do Estado para fortalecer seu partido e, sobretudo a sua pessoa. Jair Messias terá que refortalecer o Estado sem apelar para a estatização já que seu compromisso é com a economia privada e com o lucro”.

Admite não ser tarefa fácil. Parece-me dúbio. Não fica claro se a “fragilização do Estado”, por parte de Lula se deveu a suas ações para inserção social ou de sua adaptabilidade ao presidencialismo de coalizão. Nem que a nomeação, até aqui anunciada de ministros ligados a setores de alto interesse lobista seja uma novidade capaz de quebrar a espinha dos outros dois poderes, Legislativo e Judiciário, sempre subalternos a tais interesses.

Muito menos creio que isso “implique não só numa reforma política, mas numa reforma do Estado”, como pensa o professor sobre as primeiras ações de Jair Messias.

Não darão em nada, e a miserabilidade brasileira, suas desigualdades, a financeirização da economia, as perdas de soberania com alinhamentos externos exclusivistas e bilaterais, continuarão crescentes. Apenas diminuirá a capacidade intelectual de um governo entender sociedades diversificadas e não totalitárias.

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12 comentários

  1. Mais uma analise

    Mais uma analise tostines.

    ORAS, LULA, tendo que lidar com as mesmos limões, não deu passa moleque, golpes, reeleição, e FOI FIEL ao seu eleitorado ..fez um governo INIGUALÀVEL, republicano  ..de conquistas sociais inimagináveis a serem dadas em tão curto espaço de tempo (se quiser eu relaciono algumas ?) ..teve contra si o modelo e o sistema que HOJE SE REVELAM por completo (em verdade desde 2015)

    ..normal que diante de tudo seu partido saísse em alta, e sua imagem, mais elevada ainda

    Jair Messias é o que é, e disse, um misogino, homofóbico e preconceituoso  ..não rubra em atentar e insuflar contra negros e indios, contra adversários  ..é OCO na biografia, um MALANDRO oportunista  ..um cara que esta sendo tutelado pelas Forças Armadas que na falta de um tucano, aceitou o capitão psicopata.

    Colocar ambos em mesmo balaio ? humm  ..é forçar demais o “politicamente correto”, não ?  ..muro assim, nem tucano se atreve (por enquanto)

    Ademais, bom lembrar, LULA pegou um Estado alquebrado e chantageado pelo mercado (interno e externo), um país de joelhos e depressivo  ..deu-lhe identidade, impôs ritmo, e um perfil MUITO CLARO, um carater inclusivo e integrado ao PLANETA

    ..já BOZO é isso que vemos, xenófila, um posso de iniquidade que não sabe pra que lado SEUS SUPERIORES estão pretendendo  ..torcendo evidente pra que seja na direção dos EUA

    ..melhor sorte na próxima

    https://www.youtube.com/watch?v=wWuiAPkKq8g

    • Caro Romanelli

      Como respondi pelo celular, é possível que meu comentário não chegou aqui. 

      Não entendi se suas críticas se dirigem a mim ou ao texto do professor. Se a mim, não entendeu que se trata de contraposição aos argumentos JSM, tanto que, além do carinho, menciono dúvidas, o que fica bem claro na leitura completa do texto.

      Quanto à sorte agradeço e se quiser a ela acrescer um presente de Natal, um pacote de Tostines iria bem.

      Abraços

  2. o povo não é bobo…

    Fórmula Um. Um belo dia resolvi não ouvir nunca mais a narração da tv oficial. Passei a ouvir a narração do rádio com a imagem do canal aberto. Melhorou muito. Eis que há uns sete ou oito anos o narrador do rádio fez uma brincadeira machista com a excelente reporter de campo. Foi o que bastou para que eu casasse a sua palavra. Desde essa época eu vejo corrida muda. Melhorou ainda mais. Nada que se comparasse a pular o muro de Interlagos da minha juventude para ver “live” o Emerson Fitipalddi e o José Carlos Pace. E o Grahan Hill.

    Hoje não aceito que nenhuma “voz do dono” global dirija a minha atenção. Acredito no que sinto e dispenso a interpretação de terceiros intere$$ados.

    Pelo que li a respeito do seu professor, penso que ele deveria parar de ver o plimplim golpista. Quem sabe assim ele percebesse que Lula lutou apenas para ajudar o povo pobre e o Brasil.

  3. Lulismo

    Ah, esse lulismo que impregnou os artigos de sociologos e cientistas politicos e as falas de jornalistas. Agora ha essa tentativa de trazer para a mesma partitura Lula e Bolsonaro, apenas distinguido um e outro pelas politicas estatizantes e privatistas. Mas eles são muito diferentes e, pelo que estamos entrevendo, Bolsonaro fara um governo muito distinto de Lula, ainda que o sistema politica continue o mesmo. 

  4. É CÔMICO. E É TRÁGICO

    Não comentaria, mas não me contive ao ver os comentários. É uma tragicomédia ler a Patrulha da Gestapo Ideológica. A sua matéria, assim como a analise do Professor vão ao encontro das últimas matérias do Professor Fornazieri. E todos ‘tomam um pau danando’ do Fundamentalismo Fanático. Não tem como indagar contra o ‘Messias’ e sua Divindade. São 88 anos de Vitimização e Fatalismo. Se alguma coisa deu errado, se foi parar na cadeia, se o governo implodiu,…tudo é culpa dos outros e cabe ao Objeto de Adoração apenas o papel de Vitima. País de muito fácil explicação. abs.   

  5. Muitas dúvidas.

    Segundo os golpistas o golpe vem para se conseguir a minimização do Estado, ou se possível a sua total destruição como quer o extremado extremista liberal Paulo Guedes. Sempre acusaram o PT de jogar muita água no moinho das estatais e do Estado. Foi isto que gerou o golpe. E portanto não sei oque quer dizer o velho mestre sobre fragilização. Sobre Jair pouco sabemos afinal o que ouvimos até agora é uma mistura autoritária, com vocalizações liberais e elocuções indescritíveis. Não sei de onde o velho professor retirou a vontade de fortalecer o Estado em Bolsonaro, e de onde tirou a fragilização do Estado para favorecer um partido em Lula.  Não sei também de onde tirou a similaridade entre o oriundi em Sao Paulo e o migrante nordestino em São Paulo. Veja que estou falando de meados do século XX, não estou falando dos primeiros oriundis.  O tratamento dispensado ao Nordestino  que no meiio do século XX chegou a São Paulo de Pau de Arara, nunca foi dos mais agradáveis, e até hoje o preconceito grassa e não passa.

    Portanto não compreendi a  alocução do velho mestre, mas com certeza deve merecer o carinho. Afinal todos temos na família um ente querido que  volta e meia nos surpreende.

  6. + comentários

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