Apoio de Lula a Tatto despolitiza o Brasil, por Ion de Andrade

O que teria comunicado ao Brasil uma atitude de apoio de Lula a Boulos subindo no seu palanque e retribuindo a ele a solidariedade que na recíproca não faltou?

Apoio de Lula a Tatto despolitiza o Brasil, por Ion de Andrade

Está consumado. Em São Paulo, a maior cidade brasileira, a candidatura do PSOL, dada como possível presença no segundo turno, não receberá o apoio de Lula no primeiro turno.

Não é um fato qualquer, Boulos não é um antipetista, é alguém que em todos os momentos dessa grave crise brasileira esteve junto com Lula física e politicamente e que foi cimento nas lutas contra o arbítrio.

Boulos agregou com essa atitude politizada e solidária, atenta aos ventos fascistizantes vividos pelo país, uma honradez política que deveria tê-lo tornado o destino natural do apoio do PT e de Lula, sobretudo porque Tatto desponta com apenas 2% das intenções de voto e a candidatura Boulos disputará, visivelmente numa dura campanha palmo a palmo com outras conservadoras, sua possível presença no segundo turno.

Mas isso não é tudo. Magnetizado pela candidatura do PSOL, o PT de São Paulo montou um programa parecido, até mesmo a convenção na periferia da capital paulista inova em relação ao próprio partido, mas é cópia do que fez o PSOL na sua convenção. Isso significa possivelmente que o PT se orienta pela estratégia de “tirar votos” do PSOL e isso pode significar tirar a esquerda do segundo turno.

Ora, não se pode dizer que o que ocorre na cidade de São Paulo seja igual ao que ocorre em toda parte, há diversas cidades em que haverá união das esquerdas e isso é muito positivo. Portanto, não se pode dizer que o PT ou o PSOL estejam obrigatoriamente tendo em toda parte uma atitude sectária. Porém, São Paulo cumpre um papel emblemático demais no Brasil. De fato, o que ocorre ali é visto como exemplo para o país inteiro e obviamente que o PT também sabe disso. Por não ser uma cidade qualquer São Paulo deveria ser tratada com luvas de pelica, pois é a grande vitrine nacional das eleições municipais.

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Sabemos que as instituições educam ou deseducam as pessoas, ao enviar mensagens que podem ser decodificadas e representam o conceito que elas têm daqueles que delas fazem uso ou que nelas têm e formam referência. Nisso concordam dois grandes educadores, Paulo Freire e Rousseau.

O que a atitude do PT e de Lula diz aos brasileiros através da decisão tomada de não contribuir para que a esquerda esteja no segundo turno na cidade mais importante do Brasil deixando de apoiar um candidato que por sua vez mostrou a Lula e ao PT solidariedade completa e integral nos momentos mais difíceis da vida da nossa moribunda democracia, mas também da vida de Lula e do PT?

Diria que a atitude de não apoiar, justificada ou não na necessidade de que haja um candidato a prefeito que desempenhe papel locomotiva para a campanha dos vereadores, ou na ideia de que o primeiro turno sirva para a expressão das propostas e  somente o segundo para as alianças (como se essa recusa de apoio agora não ameaçasse a própria presença da esquerda nesse segundo turno) envia a mensagem de que a luta pelo Poder é intrinsecamente desalmada e que não se rege pela honradez. Que o Poder, custe o que custar é que é o valor mais alto da política, perante o qual todos os outros valores devem se curvar. Verdade ou não, a atitude diz que os apetites pelo Poder são absolutamente incontroláveis e que nem o fascismo que nos espreita foi suficiente para contê-los.

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O que teria comunicado ao Brasil uma atitude de apoio de Lula a Boulos subindo no seu palanque e retribuindo a ele a solidariedade que na recíproca não faltou?

Que, sim, é possível fazer sacrifícios em nome de valores mais altos do que o Poder desde que envolvam o Projeto de Sociedade, valores que podem ser irmanados com pessoas de outras agremiações partidárias. Que, sim, é possível retribuir a lealdade à altura. Que, sim, se pode fazer política de forma previsível em cima de valores cívicos como a honradez e a solidariedade.

Não sei como Lula e Boulos veem tudo isso, talvez estejam acertados e concordes em tudo, talvez não haja sequer divergências entre as parte e tudo esteja no mesmo clima de entendimento que existiu na última campanha presidencial, aliás, injustamente sem Lula.

Pode ser que a percepção que eu expresso aqui é que esteja dissonante com os acertos da macropolítica entre os dois partidos, e que sob esse prisma a minha visão é que esteja “errada” por ser a de um observador distante demais. Entretanto, há coisas que só podem ser vistas de longe, pelo fato de que é a proximidade precisamente que turva o significado, por falta de perspectiva; como quando não se pode ver a altura de um muro por se estar excessivamente próximo dele. Nesse caso é a distância que é uma vantagem.

Além disso, a política é a arte dos significados.

Com o apoio de Lula a um Tatto com 2% das intenções de voto numa campanha que se abre à semelhança da do PSOL, o que pressagia que o alvo é o eleitorado que Boulos e Erundina cativaram e que os coloca à beira do segundo turno, desde as lonjuras donde vejo, constato com tristeza e perplexidade que quem perde é o Brasil e que quem perde é a própria política como sinônimo de civismo, honradez e de ideais compartilhados.

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