Após Zadig, por Daniel Afonso da Silva

Após Zadig, por Daniel Afonso da Silva

Quando os ensinamentos do doutor Pangloss ao jovem Candide começaram a ocupar as mentes dos europeus letrados de meados do século 18, a obsessão de cientificidade avançava sobre as mais variadas áreas do conhecimento humano. Ao passo que foi chegado à oikonomia, o arguto observador escocês de nome Adam Smith seria claro, direto e cortante ao afirmar que se eventualmente algum dia a análise da escassez na vida material viesse a se tornar uma ciência, seria meramente uma ciência moral. Na senda do monumento chamado The wealth of nations, os grandes economistas vêm todos praticando essa ciência moral. De maneira efetiva, vêm sendo todos filósofos e não necessariamente burocratas ou acadêmicos devotos da ilusão de neutralidade da observação econômica.

O funcionário do tesouro britânico, John Maynard Keynes, enviado à Conferência da Paz de Paris após o conflito de 1914-1918 revitalizaria a essência dessa ciência moral em seu notável The economic consequences of the peace e demonstraria, como Karl Marx fizera no conjunto intransponível de sua obra, que essa moral consiste, antes e acima de tudo, em política.

O colapso da convenção de Bretton Woods promovido pelo presidente Richard Nixon em 1971 informaria a forte tendência a mascarar o aspecto moral e, portanto, político da economia. O imperativo da eficiência passaria mais e mais a isolar a gestão da esfera econômica da existência. Mas como diria o próprio Marx e seus contemporâneos, a economia é algo muito sério para ser deixado exclusivamente aos cuidados de economistas.

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A forte leva de financeirização das relações econômicas após 1971 levou os herdeiros das guerras totais do século 20 a ignorar os ensinamentos dos antigos. Precisou entrar o século 21 para ficar evidente as consequências desse desmerecimento. Sendo a consequência mais efetiva a angústia do reconhecimento da possibilidade de se ver fracassar realizações econômicas too big to fail.

Diante da crise financeira mundial de 2008 voltou a ser razoável perceber a imprescindibilidade da política. E esse foi o imperativo da primeira reação à crise. Que para o espanto de todos os seguidores dos ensinamentos das personagens de Voltaire e de Pangloss teve como principal intérprete o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Uma semana após a quebra do Lehman Brothers, os mandatários dos quatro cantos do planeta se reuniram na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque a partir do dia 23 de setembro de 2008. Para abrir a sessão, o primeiro discurso seria, como de costume e direito, do representante brasileiro. Consciente da importância do momento, o presidente Lula da Silva foi pessoalmente à reunião. O tom de sua manifestação regeu o tom de toda discussão. Diria o presidente brasileiro em seu discurso que “o momento [era] particularmente grave. A crise financeira, cujos presságios vinham se avolumando, é hoje uma dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial”.

Essa impressão foi virando senso comum no interior da opinião pública dos principais países do mundo. Mas a matriz desse consenso remeteria sempre ao Brasil e ao seu presidente que teriam protagonismo progressivo nos eventos seguintes com a convicção de que era “chegada a hora da política”, como aventava o presidente Lula.

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A tônica dessa política visava reabilitar o imperativo da ciência moral aquela dos tempos de Voltaire e seu Zadig.

Ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, não restava que concordar e calar. O silêncio dos Estados Unidos era a possibilidade de fazer falar – e, quem sabe, ouvir – outros membros do conserto internacional. Entre eles, claramente o Brasil.

Líder da América do Sul, membro do Mercosul e da Unasul, “B” dos BRICs, o Brasil do presidente Lula da Silva se via às vias de revisar esse conserto. E assim se fez. A realização do G20 como chefes de estado e não simplesmente como ministros de finanças representou grande avanço nesse sentido e contou, mais uma vez, com o protagonismo do presidente brasileiro na produção de expressões-síntese do momento.

Na reunião do G20 em Washington em meados de novembro de 2008, o presidente brasileiro afirmaria que “a crise não pode ser vista apenas, nem principalmente, como um conjunto aterrador de números, de estatísticas”. E seguia o raciocínio, dizendo que “antes de tudo a crise representa ameaças concretas à vida de milhões de homens e mulheres, perda de empregos, diminuição de renda, aposentadorias comprometidas, mas, sobretudo, aniquilamento de expectativas em relação ao futuro”.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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1 comentário

  1. SE FOSSE OUTRO QUE…

    SE fosse outro o presidente ( e principalmente se fosse tucano) colocaria o pé no freio e entrariamos numa recessão que poderia vir até hoje.

    Âlguem tem alguma duvida nisso?

     

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