Aretha Franklin – Amazing Grace, por Walnice Nogueira Galvão

É obra do cineasta Sidney Pollack, já falecido, laureado diretor de filmes grandiosos na tradição hollywoodiana.

Aretha Franklin – Amazing Grace

por Walnice Nogueira Galvão

Finalmente surgiu este documentário, rodado 48 anos atrás, quando já se tinham perdido as esperanças de resgatar um tal tesouro.

É obra do cineasta Sidney Pollack, já falecido, laureado diretor de filmes grandiosos na tradição hollywoodiana. Tem a seu crédito Entre dois amores, com Meryl Streep e Robert Redford, que tranpôs para a tela Out of Africa, o notável livro autobiográfico em que Karen Blixen, sob o pseudônimo de Isak Dinesen, conta suas peripécias como plantadora de café no Quênia. Ganhou o Oscar de melhor filme e de melhor diretor.

Incumbido pela Warner Bros., lá se foi registrar o concerto de Aretha Franklin numa igreja protestante batista em Los Angeles. O equipamento de filmagem fica escondido do espectador, mas vemos Pollack passar de vez em quando lá atrás, com uma câmera na mão, empolgadíssimo. Tão empolgado que se esqueceu da sincronização entre som e imagem, falha que deixou o filme na gaveta por meio século.

Corria o ano de 1972 e Aretha já era conhecida tanto como cantora soul quanto como militante dos direitos dos negros, causa em que figuraria na linha de frente a vida toda. Mas não era tão famosa como ainda ficaria. Filha de pastor, aliás presente no evento, desde criança soltava a voz nos cultos em que seu pai pregava. Enquanto cantora soul já tinha a seu crédito inúmeros sucessos como A natural woman, Chain of fools, Day dreaming, Respect – mas na ocasião voltou às raízes e deu um show de gospel, o canto religioso protestante negro, para nossa sorte.

A casa não estava excessivamente cheia, nem havia chusmas de repórteres incomodando todo mundo. A diva chegou numa longa túnica branca, de brilhos discretos mas iridescentes,  e foi se apossando de tudo com sua magnética presença. Um coro de gospel de umas trinta figuras, o Cleveland Choir, fazia o acompanhamento, secundado por alguns poucos instrumentos.

Podemos então ver ao vivo o cunho de performance coletiva que os cultos protestantes negros têm no país.   Percebemos o quanto são fundamentais para a coesão do grupo, para o anseio de comunhão com o sagrado e para a resistência tanto cultural quanto política. Ali soa mais alto a ancestralidade, conjurando antepassados e divindades, a diáspora africana irrompendo mesmo no seio do cristianismo.  Só para registrar: Martin Luther King era pastor de igreja batista.

À medida que a assistência aquecia, a conexão entre Aretha e os fieis ia-se forjando. Eles trauteavam, de repente erguiam o braço ou então se levantavam, gingavam, meneavam ritmadamente a cabeça, batiam palmas. Cantarolavam numa versão própria do responso, – ou seja, quando um intérprete lança uma frase musical e o coro a repercute, como que dialogando – vigente em situações similares como o culto dos orixás, o moçambique, o jongo.

A certa altura, quando Aretha repetia um trecho várias vezes, criando tensão antes de arremeter num melisma agudíssimo, com sua voz de potência incalculável, via-se que os crentes iam acumulando o ímpeto junto com ela. Quando a nota era afinal desferida, eles bradavam e saltavam, ao mesmo tempo aprovando e participando.  Era o júbilo de fazer música conjuntamente, gerando a sinergia que é o congraçador universal em tantos estilos e gêneros.

Na continuação, algumas pessoas são tomadas pelo Espírito, saindo para dançar nos espaços entre os assentos e nos corredores, como que em estado de transe. Lembram o relato da Bíblia, segundo o qual Davi, rei, poeta e crente, dançava e cantava seus salmos diante do altar do Altíssimo. Como nas cerimônias do povo de santo, são acudidos pelos amigos, que os rodeiam, prestando amparo e carinho.

Num relance que não dura mais que um segundo, dá para vislumbrar Mick Jagger entre os presentes.

O ponto alto é mesmo Amazing Grace, belíssimo hino protestante, aliás branco e de autores britânicos, que dá azo aos mais improváveis malabarismos canoros da rainha do soul.

O show originou o álbum Amazing Grace, que vendeu 2 milhões de cópias e se tornaria o maior sucesso de uma carreira de muitos sucessos. Veja o filme em streaming: não perca tão extraordinária oportunidade.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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