As escolas, os pais e os alunos na pandemia – todos enlouquecidos!, por Dora Incontri

Mas, hoje, vou falar aqui como educadora, como militante há tantos anos por uma educação diferente da tradicional: ativa, autônoma, com projetos interdisciplinares, com a inclusão de uma espiritualidade plural, com afeto entre educador e educando.

As escolas, os pais e os alunos na pandemia – todos enlouquecidos!

por Dora Incontri

Essa crise da pandemia mostrou-nos com mais clareza muitos de nossos problemas sociais, econômicos e políticos, que antes estavam aí, mas nem sempre tão contundentemente à vista, mesmo para aqueles que costumam ter olhares mais críticos.

Ficou mais evidente a desigualdade social, o apartheid brasileiro de pobres, das populações de rua, que não têm acesso ao básico, a precariedade dos direitos dos indígenas, massacrados, perseguidos e contaminados por nossas doenças… Ficou mais evidente a canalhice de grande parte da elite e do empresariado brasileiro, escravocrata, que não se importa que pobres, empregados, subalternos, invisíveis socialmente, morram de fome, Covid-19, ou do que quer que seja… contanto que haja número suficiente para substituir os que morreram, para continuarem a servi-los. Isso sem mencionar o atual desgoverno, que está implantando um projeto de eugenia e morte da população… com requintes de cinismo.

Mas, hoje, vou falar aqui como educadora, como militante há tantos anos por uma educação diferente da tradicional: ativa, autônoma, com projetos interdisciplinares, com a inclusão de uma espiritualidade plural, com afeto entre educador e educando. E, portanto, com a abolição dessa escola chata, autoritária, conteudista, distante dos interesses dos alunos, imposta goela abaixo das crianças e dos adolescentes, arrancando deles a curiosidade e a vontade de estudar. Precisaríamos de uma escola que discutisse temas existenciais, que trabalhasse a educação emocional, que promovesse a consciência política e os valores da ética e da cidadania.

E acima de tudo, deveríamos ter essa escola agradável, formadora, integrativa, livre, afetiva, para todos e todas: em escolas públicas e particulares.

Ora, essa crise pandêmica tem enlouquecido particularmente pais, alunos e professores… mostrando como tudo é precário e fora de prumo na escola convencional e na sociedade brasileira. Nesse momento, em que crianças e adolescentes estão em casa e as escolas fechadas, houve uma busca rápida, desesperada para se apelar ao ensino à distância.

Vou aqui apontar por partes o que está saltando aos olhos:

  1. A desigualdade de condições sociais faz com que grande parte da população não tenha internet, celular, computador – aliás, não tem sequer livros, sequer um lugar adequado para se isolar e estudar e às vezes sequer água para a higiene básica! Então… como fazer ensino à distância com os que estão excluídos digitalmente? E temos então o cinismo do tal do sinistro da Educação, cujo nome me poupo de escrever, que faz uma propaganda com jovens brancos, com seus celulares caros e computadores, convocando os estudantes brasileiros a estudarem de qualquer jeito para o ENEM, que o governo não quer adiar, mesmo diante da pandemia, prejudicando justamente aqueles que não têm acesso à tecnologia.
  2. A total incapacidade da maior parte das escolas de administrar a crise (e me refiro aqui às escolas particulares também). Preocupadas como sempre com um conteudismo que pode a qualquer hora ser recuperado, que pode ser autonomamente construído pelos alunos (se forem educados para a autonomia), estão massacrando professores e alunos, para justificar as mensalidades ou para mostrar que estão cumprindo seu papel de escola… Montanhas de conteúdos, provas, lições de casa… e os alunos estão exaustos, os professores virando noites e os pais desesperados, para dar conta do próprio trabalho, do cuidado das crianças e do apoio à aulas on-line dos filhos. Por que e para que tudo isso? Não importa agora se perdermos o ano letivo… o que é um ano na vida de uma criança e de um adolescente? Importa aproveitar a crise para amadurecermos, para debatermos… por que não fazem lives com os alunos para debater justamente o coronavírus, o mundo, a economia, as emoções envolvidas nessa crise, a morte? Educação se faz com conteúdo da realidade e não com matérias frias, distantes da vivência dos educandos, burocraticamente passadas. Essa burocratização e dissociação da realidade já é ruim na escola presencial; à distância, fica insuportável.
  3. Os professores (muitos deles) também sofrem as consequências de seu desinteresse pela tecnologia, o que é um absurdo no século XXI. Como um professor vai se relacionar com um aluno que joga no celular, que conversa o tempo todo com os amigos no Whatsapp, estando apartado do mundo da tecnologia, desconhecendo como funciona a mente dos alunos hoje? E como pode a educação ainda predominantemente trabalhar com lousa e giz, num mundo de realidade 3D? A tecnologia deveria estar há muito integrada na educação, não substituindo o professor, mas tornando-o um orientador, um tutor de conteúdos e alguém que vai dar justamente o que a rede não dá: valores, afeto, espírito crítico. Ao invés disso, seja por comodismo, por falta de oportunidade, por excesso de trabalho, por conservadorismo ou outros fatores, a maioria dos professores ficaram longe da tecnologia. E agora estão correndo atrás para as aulas à distância.

Diante de tudo isso, considero que o problema não está em fazer agora um ensino à distância (e não é mesmo possível fazer outro ensino). O problema é transferir para o ensino à distância o que já é ruim no presencial. Os professores, os pais, os alunos devem estar muito mais preocupados no momento com a sua saúde emocional, com o apoio mútuo, com o debate esclarecedor, do que cumprir calendário de conteúdo dado. E o problema que é mais difícil ainda de se solucionar é o da desigualdade, incrustrada em nossa realidade brasileira, a não ser que tivéssemos realmente um governo interessado no bem-estar e na educação do povo e saísse distribuindo tablets  nas favelas e fizesse um programa emergencial e competente de ensino à distância. Agora não acontecerá nada disto. Então, mantenhamos no horizonte, quando toda essa crise passar, ou quando voltarmos a reconstruir as coisas, de atentarmos às mudanças urgentes na educação de todos e todas e à igualdade de oportunidades que todos os brasileiros e brasileiras devem ter. Esse é um projeto político que nunca nenhum governo tomou totalmente a sério no Brasil.

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3 comentários

  1. Há muito tempo observo que os pais não querem mais cuidar da educação e do convívio com seus próprios filhos. Terceirizaram isso, através das creches, escolinhas e o próprio ensino regular. Não há paciência para tais funções. Falta noção de responsabilidade humanística e natural. Os país preferem trabalhar fora, ganhando misérias como salários a dispender tempo na educação da sua prole. Exigem que o Estado provenha lugares para depositar os seus filhos, enquanto trabalham. O mercado exige esse comportamento, pois necessita desses trabalhadores para produzir produtos e serviços. Em contrapartida, os salários parcos fomentam a economia. E os filhos são relegados à vala comum da existência, na faixa etária em que mais precisam da presença e orientação dos progenitores. Crianças, que um dia serão adultos-problema, pois são criados sem amor, sem carinho, sem condução, sem noção de família. Uma geração perdida, com pessoas apáticas, neuróticas e sem sentimentos.

  2. E o que está acontecendo.As crianças estão sobrecarregadas de licoes, trabalhos pesquisas.E querem que as crianças engulam tudo.Na escola pública
    Simplesme nunca entraram numa escola
    pública. Considero.que
    tudo começa pela formação do professor.
    E uma longa caminhada.

  3. Muito bom comentário.
    Pena que incluiu o clichê da moda no item 3.
    A intenção deve ter sido conquistar simpatia dos viciados em telas.

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