As simplificações do liberalismo e as expectativas, por Heldo Siqueira

Um dos elementos centrais da análise econômica envolve o debate sobre a formação das expectativas – e como influenciá-las

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As simplificações do liberalismo e as expectativas

por Heldo Siqueira

 

O debate sobre a formação das expectativas e como influenciá-las é um dos elementos centrais da análise econômica. É tema de rádio, TV e inclusive de pesquisas periódicas que influenciam a política econômica como no caso dos boletins do Banco Central. Mesmo assim, em alguns momentos o tema é tratado de maneira simplista, ou mesmo dogmática, pelos principais analistas e autoridades.

Geralmente, a ideia serve para argumentar que as alocações de recursos mediadas pelo Estado são ruins por sua gestão ser ineficiente. Mesmo assim, o sentido de políticas econômicas pode ser no sentido de melhorar a atuação dos agentes privados e não necessariamente buscar qualquer alocação de recursos.

Essa visão geral parece basear-se em duas hipóteses fundamentais: i) a ideia de que os indivíduos possuem as informações disponíveis para satisfazer suas necessidades; e ii) as atitudes dos agentes são sempre revisadas de maneira que não erram sistematicamente.

A primeira premissa ser resumida na ideia de Hayek (The use of knowledge in Society, 1945) para quem “O problema econômico da sociedade não é apenas sobre como alocar recursos ‘dados’ – se ‘dados’ são entendidos como uma única mente que deliberadamente resolve o problema estabelecido pelos ‘dados’(no sentido de informação). É muito mais um problema de como assegurar o melhor uso dos recursos conhecidos para qualquer membro da sociedade para finalidades cuja importância relativa apenas esses indivíduos conhecem”.

Em relação à segunda hipótese, parece originar-se do conceito de expectativas racionais, nesse caso a descrição adequada é a de de Robert Lucas (Understanding business cycles, 1977) que argumentou que “[propõe-se] resolver esse problema (de otimização) identificando as probabilidades subjetivas dos agentes com as frequências observadas dos eventos a serem previstos ou com as probabilidades ‘verdadeiras’, chamando a concidência assumida de expectativas subjetivas e ‘verdadeiras’ de probabilidades racionais. […] Será racional tratar as reações dos agentes a mudanças cíclicas como ‘risco’ ou assumir suas expectativas como racionais, que são arranjos consideravelmente estáveis para a coleção e processamento de informações e que utilizam essas informações para prever o futuro de uma maneira estável, livre de preconceitos sistemáticos e facilmente corrigíveis.”

A articulação das duas hipóteses está longe de afirmar que os agentes sempre acertam, como afirmam alguns críticos. Na verdade, são duas hipóteses muito razoáveis: por um lado, apenas os próprios agentes possuem as informações sobre seus gostos e, por outro, não erram sistematicamente. Mesmo que isso seja verdadeiro em um contexto em que todos os agentes buscam seus próprios objetivos sem influenciar os mercados.

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Entretanto, alguns resultados podem ser diferentes caso alguns agentes otimizem seus recursos induzindo outros agentes deliberadamente ao erro. Nesse caso, ao mesmo tempo em que os agentes buscam adaptarem-se às informações “erradas”, os agentes que podem influenciá-las buscam novas formas de enviesá-las. Tudo feito de maneira racional. Ou seja, a hipótese de expectativas racionais não garante que os agentes diminuam as margens de seus erros ou que haja alguma convergência da realidade à expectativa.

O professor Pedro Rossi (Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil, 2016) mostra um mercado no qual esse fenômeno parece aparecer. No caso brasileiro, a taxa de câmbio futuro, que deveria ser uma “prévia” do câmbio corrente, situa-se sistematicamente acima da taxa de câmbio spot.

Observando a comparação entre o câmbio futuro e o câmbio efetivo, é possível identificar que entre 2001 e 2017 o valor a termo esteve por volta de 5% acima do valor a vista. Além disso, o fenômeno se observa tanto quando há tendência de valorização quanto desvalorização da moeda nacional. É razoável, em uma situação como essa, supor que não há qualquer tipo de convergência entre os valores. Também não há motivos para acreditar que é a atuação estatal que modifica esses preços não permitindo a convergência.

Outro elemento a ser considerado é quais informações os agentes possuem para formular suas expetativas. Uma vez que a realidade é sempre mais complexa que qualquer modelo subjetivo, os únicos dados que os agentes possuem para formular expectativas são suas informações passadas. Mas na realidade, não há nenhuma garantia de que o passado se repetirá.

Observando os quadros de expectativa do IPCA para 12 meses, é possível observar que o indicador converge quase que completamente com o valor do índice acumulado de 12 meses. Entretanto, ao compará-lo com o valor de 12 meses à frente os valores não coincidem.

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Isso significa que a formulação das expectativas dos agentes é de fato baseada nas informações pretéritas, mas estas não são suficientes para prever o futuro.

Uma última avaliação que se propõe é relacionada ao dimensionamento dos efeitos econômicos reais. O indicador de confiança, por exemplo, ao tentar prever a expectativa em relação aos movimentos econômicos, não consegue absorver de maneira adequada sua magnitude. Entre 2001 e 2019, os efeitos reais do PIB superaram os movimentos de confiança. Esse fenômeno provavelmente acontece porque os indivíduos não acreditam que mudanças bruscas possam ocorrer, mas na prática elas de fato acontecem. Mesmo ao separar apenas o período a partir de meados de 2011, é possível observar que não houve convergência.

Amarrando todas as evidências, é razoável afirmar que os agentes erram e o fazem sistematicamente. Nos 15 anos observados, não foi possível fazer convergir às expectativas de inflação com o indicador efetivo. Entre 2001 e 2019, o indicador da confiança para 12 meses não conseguiu medir a magnitude das variações no PIB real. Ou seja, a hipótese de que os agentes tendem a acertar se mostra falaciosa, analisadas as evidências para esse período.

Essa argumentação abre espaço para a regulação econômica em pelo menos duas frentes. Por um lado, conhecer melhor suas próprias preferências não é garantia de melhor alocação de recursos por parte dos indivíduos, caso as informações para tomar as decisões estejam enviesadas. Ou seja: uma vez que há processo de especulação, que consiste em utilizar o poder de mercado para influenciar os preços (que representa a escassez relativa dos produtos) e maximizar os lucros, não há motivos para achar que as alocações serão ótimas.

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Achar que os preços somente podem ser influenciados pela atuação do Estado é uma simplificação grosseira da realidade. Vários agentes podem, e de fato, influenciam os mercados no sentido de maximizar seus lucros. Uma regulação estatal no sentido de limitar a especulação ajudará os indivíduos a tomarem decisões com informações melhores.

Por outro lado, ao tentar mitigar os movimentos bruscos das variáveis econômicas que não podem ser previstos pelos agentes, o Estado permite que os mesmos tomem decisões melhores. Esse é o sentido das políticas anticíclicas. Ou seja: não se trata de melhorar a alocação de recursos, mas de orientar a atuação dos indivíduos.

Mesmo assim, há ainda um último espaço para a atuação estatal na economia. No caso de um país como o Brasil, que sempre foi pobre e cujas atitudes dos agentes nunca levaram ao desenvolvimento do país, não será o mesmo tipo de práticas individuais ou coletivas que levará ao desenvolvimento.

Ou seja, a manutenção das estratégias atuais, que nunca trouxeram o desenvolvimento mesmo que levadas ao patamar máximo, dificilmente melhorará a vida de todos. Dito de outra forma, outro objetivo da política econômica, se quiser de fato desenvolver o país, deve-se incentivar as práticas que trazem o desenvolvimento.

Nesse sentido, políticas de incentivo à formação de poupança e ao desenvolvimento e implantação de tecnologias também são desejáveis. Simplesmente estimular as práticas atuais ao nível ótimo nunca trouxeram esses benefícios, e dificilmente trarão.

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2 comentários

  1. As taxas de juros estabelecidas para a dívida pública, através do Banco Central, são sempre superiores aos juros praticados pelo mercado… A dívida pública é uma fonte inesgotável de recursos para os “banksters”… principalmente no Brasil, onde até os saldos dos bancos são remunerados…

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