Bel Canto na quarentena, por Walnice Nogueira Galvão

Canal Arte 1 está reprisando Os três tenores, espetáculo que inaugurou a era dos cantores de ópera apresentando um repertório misto de erudito e popular.

Bel Canto na quarentena

por Walnice Nogueira Galvão

Como faz de tempos em tempos, o Canal Arte 1 está reprisando Os três tenores, espetáculo que inaugurou a era dos cantores de ópera apresentando um repertório misto de erudito e popular numa arena greco-romana ou num estádio. Foi uma guinada importante que consolidou a música clássica para as massas.

Pois ali temos juntos o italiano Luciano Pavarotti (v. JornalGGN 10.10.2017), o espanhol Plácido Domingo, criado no México, e o catalão José Carreras, os três maiores cantores líricos do mundo, três celebridades. E sob a batuta de um maestro também celebridade, Zubin Mehta. O evento realizou-se nas ruínas das Termas de Caracala apinhadas de gente, em Roma, em 1990, ao final da Copa da Itália de Futebol. Um bilhão de pessoas acompanhou pela televisão.

Os três cantores revezaram-se, cantando árias de ópera, de preferência as mais conhecidas, como “E lucevan le stelle”, da Tosca, ouNessun dorma”, de Turandot, ambas de Puccini. A sequência foi ganhando ímpeto e a certa altura eles começaram a cantar canções populares em trio, levando a audiência à loucura.

É preciso dizer dos italianos, oriundos do país que inventou a ópera, que sabem comportar-se num concerto. Ou seja, aplaudem calorosa mas educadamente:  só no fim, após o bis, levantam-se e ovacionam de pé. Essa mania brasileira de aplaudir batendo palmas ritmadas, levantando-se, gritando “Bravo!” e pedindo bis, são péssimas maneiras aprendidas em programa de auditório de televisão. A etiqueta de como se portar num concerto de música erudita pede outra compostura.

Quando chegou a parte das canções populares, ouviram-se algumas recordistas, como “La vie en rose”, “Cuore ingrato”, “Cielito lindo”, “Amapola”, “Caminito”, “Torna a Sorrento”, “Granada”, Maria” de West Side Story, a russa “Ochichornia” ou “Olhos negros” etc. O ponto alto de encerramento foi – claro, estamos na Itália – “O sole mio”, em dialeto napolitano.

Nessa parte final menos cerimoniosa, é divertido ver como os três tenores fingem combinar, através da mímica, como devem distribuir as partes:  mas é claro que tudo já estava ensaiado. Também se percebe que não decoraram direito as letras em inglês ou alemão, pois ficam espiando disfarçadamente as colas.

Nota-se a deferência dos outro dois para com Pavarotti. É difícil de explicar, para quem não teve a memorável oportunidade de vê-lo pessoalmente, o que era ele num palco. Tranquilo, mal movia seu farto volume de homem alto e corpulento, ancorado no chão por seu peso, e soltava a voz maviosa, sem qualquer esforço. O esforço é visível nos outros dois, a tensão vem do corpo todo e se manifesta até nos calcanhares que deixam o chão. Pavarotti, não. Parou ali e dali não se mexe. Foi muito criticado por causa disso, sobretudo em Nova York. Diziam que ele tinha alcançado uma posição tão excelsa, com um cachê enorme e prestígio equivalente, que podia se dar ao luxo de não representar dramaticamente os papeis, por desprezo ao público. Nada disso, eles é que não entenderam a grandeza dele.

O espetáculo terminou com o bis de “Nessun dorma”, logo após “O sole mio”. Neste, Pavarotti lidera, e, na segunda parte, onde há um vibrato, exibe seu virtuosismo fazendo-o mais longo do que o necessário. Replicando, os outros dois prolongam o vibrato também, para divertido espanto dele. Quando ao entrar e sair de cena um passa pelo outro, embora estejam de fraque que é traje de grande cerimônia, só de molecagem trocam tapas de mão aberta com as palmas para o alto, o conhecido “high five” (ou “Toque aqui!”), como se fossem atletas. E Pavarotti canta com um lenço branco aberto pendente da mão esquerda, como era seu hábito.

Zubin Mehta, eufórico com o tremendo êxito de um programa que era experimental e podia fracassar, ria pelos cotovelos, até dançava no pódio enquanto regia. No fim, faz uma declaração para o vídeo, dizendo que se tratou de uma ocasião única, que ninguém mais veria. Precipitou-se: o concerto, com os mesmos três tenores e a mesma programação, percorreu o mundo em turnê que cobriu vários anos e se repetiu num total de 34 vezes. E numa delas em São Paulo, quando cantaram até “Manhã de carnaval” e “Aquarela do Brasil” para 42 mil pessoas no estádio do Morumbi.

(Concerto original disponível no YouTube)

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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