Benjamin, o progresso e a América Latina, por Bruno Reikdal Lima

O progresso e a ilusão de progresso que nasce na Europa burguesa é filha dos chicotes nas costas de gente preta e de ouro minado com sangue indígena.

Benjamin, o progresso e a América Latina, por Bruno Reikdal Lima

É comum frente aos processos políticos reacionários que temos vivido, com  espanto falarmos em “retrocessos”. E apesar de compreender o lamento e o que queremos expressar diante de mudanças de rumo que parecem ressuscitar fantasmas, é importante nos determos criticamente sobre qual é a visão de mundo ou interpretação da realidade que sustenta nossos discursos e posicionamentos. Já que, também ao que parece, de algum modo nos percebemos imobilizados, sem capacidade de atuar em um cenário por alguma razão inesperado – e essa razão desconhecida proponho encontrarmos na avaliação crítica de nossa visão de mundo ou interpretação da realidade.

O próprio imaginário de “retrocesso”, como retorno no tempo ou do próprio tempo, está contraposto de início com a ideia de “progresso”. Contudo, não se trata de qualquer concepção de progresso, senão aquela da qual Walter Benjamin falava em suas Teses sobre o conceito de história ao descrever o quadro Angelus Novus, de Klee, como a tempestade que empurrava o anjo da história para o futuro, contra sua vontade. Trata-se, portanto, do conteúdo que Benjamin acusava ser um dos fatores do conformismo ou mesmo da imobilidade social-democrata, e de sua incapacidade de frear o curso dos processos que vivenciava na Alemanha ao final dos anos de 1930 e início da década de 1940. Era uma concepção de progresso dogmática, sustentada em três hipóteses: a) que o progresso ocorrido não era apenas de conhecimentos e ideias, mas sim de toda a humanidade; b) que era um movimento infinito que rumava sempre para a perfectibilidade humana e; c) que o progresso é ininterrupto e irresistível. Enfim, o progresso contínuo de toda humanidade era contínuo, tendendo ao melhoramento (à perfeição) e uma certeza, frente a qual ninguém pode resistir.

Imaginamos, portanto, um futuro: certos de que, seja linear ou em espiral, está em processo de melhoramento. Somos progressistas. Ainda mais se mantivermos esse sentido, pois rumamos para as melhorias humanas que estão ali, à frente, prontas para serem alcançadas. A cada vitória ou avanço desse projeto teleológico, “futurista” e necessariamente melhor, temos uma humanidade melhorada e da qual fazemos parte (já que é um avanço humano, e não de produções de conteúdos, conhecimentos e técnicas de determinados grupos em certos contextos). Estamos na onda do progresso, abraçando-o como inevitável e desejável. Exatamente como estava a classe trabalhadora alemã na visão de Benjamin. Nas mesmas teses sobre a história, ele dizia que:

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O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas também suas ideias econômicas. É uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a classe operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente. O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que a aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política. A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festejava uma ressurreição na classe trabalhadora.

No caso, talvez na América Latina não falemos apenas (ou propriamente) do desenvolvimento técnico do trabalho industrial, mas também do desenvolvimento técnico da constituição de instituições “modernas”, burguesas, como progresso civilizatório, e mesmo a diversificação do consumo como avanço do qual participavam ativamente as classes populares, incluídas no rumo para o futuro da história. Provocativamente, isto posto, o que gostaria de desenvolver a partir de Benjamin e de uma crítica de nossa visão de mundo ou interpretação da realidade, são questionamentos sobre conteúdos que assumimos acriticamente, não apenas por serem concepções burguesas de progresso que regem nosso posicionamento do mundo (e o lamento conformado, quando não, imobilizado, mesmo), como também por serem noções extremamente eurocêntricas de tempo e de história que, em geral, aparecem a cada vez que sofremos com a imagem do “retrocesso” (como se tivéssemos revolucionado a história humana em 15, 20, 30 ou mesmo 120 anos).

Um conservador brintânico, G. K. Chesterton, dizia em O que há de errado com o mundo? que era um grande problema da cultura da modernidade imaginar que porquê algo foi do “passado”, estaria a partir de agora necessariamente superado. E não seria exatamente esse o conteúdo que nos permite ilusoriamente aceitar que há um rumo certo para a história, que avança para a perfectibilidade humana e a cada passo dado? Deveríamos nos surpreender por um passado que aparentemente se repete ou com uma regra, o modus operandi, de uma cultura colonizadora que funda essa terra nas invasões e nas guerras de resistência desde 1492?

Benjamin, nas teses escritas a partir da Alemanha nazista às quais nos referimos, escreveu que “a tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade”. E o que diremos a partir da terra dos explorados? Não seria que o progresso político, técnico e mesmo de ideais que encontram certa estabilidade nos países do centro do sistema-mundo capitalista se dão às custas da periferia? Que nossa compreensão da história está pensando o mundo com a cabeça distante do lugar onde os pés estão? Nossa regra é um estado de colonização ou de manutenção de relações coloniais que não estão necessariamente dispostas do mesmo modo nos continentes ao norte do globo, pois a própria organização política, econômica e social destas outras terras, estão fundadas na exploração das terras do lado de cá. Trata-se de um estado colonial, mesmo que com um Estado-nacional formalmente independente.

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O progresso e a ilusão de progresso que nasce na Europa burguesa é filha dos chicotes nas costas de gente preta e de ouro minado com sangue indígena. Como o próprio Marx indica na seção sobre a gênese do capital industrial no capítulo 24 d’O Capital, a “assim chamada acumulação primitiva” que garante o progresso técnico e as transformações sociais europeias entre os séculos XV e XVIII é, na verdade, a exploração por meio do sistema colonial – que para Marx, é o novo deus junto aos velhos ídolos da Europa que instaura como objetivo último e único da humanidade a obtenção de mais-valor. Sem colônias, sem sistema-mundo capitalista. As relações coloniais, que são a regra, precisam estar constantemente garantidas. E isso vale nas relações externas e internas a Estados-nacionais, pois se trata de um sistema organizado, e não uma forma de exploração “já superada” depois da constituição do mercado global (também fruto do sistema colonial) e das cadeias globais de valor de nossas indústrias de ponta.

Afinal, somos progressistas em relação a quem e vemos “retrocessos” em relação a que? Se de maior ou menor inserção de massas no consumo ou na participação das cadeias globais de valor, de maior ou menor distribuição de riqueza, maior ou menor proteção a minorias, deveríamos rever se essas são as melhores expressões para nos percebermos no mundo. Seria frente a manutenção de instituições burguesas e relações sociais? Ainda imaginamos, então, que estamos em uma etapa rumo a melhorias de vida que nos conduziriam necessariamente para a superação dessas próprias relações sociais vigentes? Quão duradouros foram ou são nossos ganhos, quão seguros estão para pensarmos que o que foi passado está superado? Quando foi que pensamos que as relações coloniais tinham sido derrubadas ou estavam a um passo de serem superadas?

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A “antiga moral protestante do trabalho, secularizada” que aparece no parágrafo citado de Benjamin se refere à crença de que se é recompensado na vida futura pelo esforço resignado despendido no presente – para a qual se voltava Weber em suas reflexões conectando a ética protestante e o espírito do capitalismo. É nesse mesmo espírito que movemos nossas lutas ou que celebramos as realizações? Uma história confiante na bênção que a história dará àqueles que tornaram possível mais um avanço na direção da perfectibilidade humana? Essa é a noção histórica que torna aceitável um passado escravista, machista, feminicida, homofóbico, já que considera essas etapas necessárias para o desenvolvimento das benesses atuais. O sofrimento resignado do passado era condição para o avanço do progresso até nosso presente. É disso que falamos quando esperamos a redenção, imobilizados pelo susto do que apareceu como “retrocesso”?

Os aymara, na Bolívia, desde antes da invasão e durante todo seu processo de resistência até hoje, tem uma compreensão de história distinta: não existe futuro, apenas o passado. Quando pensamos, imaginamos, discutimos ou mesmo planejamos, estamos voltados para o passado, andando de costas para o futuro – pois é impossível vê-lo, tê-lo, etc. O futuro não existe. Apenas passado. E é curioso, como tem feito o filósofo boliviano Juan José Bautista em seus cursos e textos sobre Ernst Bloch e Benjamin, perceber que os semitas têm uma concepção muito semelhante de temporalidade. O futuro é vedado aos humanos, pois ou não existe ou não está em suas mãos. É proibida a prática da vidência, pois seria, de antemão uma enganação. Apegam-se, portanto, à memória do que viveram para interpretar o que vivem em seu tempo. Algo que deveríamos também fazer, já que uma pequena olhada para as ruas das cidades ou os campos do interior nos mostra algo que os livros de história narram como passado.

Referências citadas no texto:
BENJAMIN, Walter. “Teses sobre a história”. In: Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985.
CHESTERTON, G. K. O que há de errado com o mundo? São Paulo: Ecclesiae, 2013.

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