BNDES já era mais eficiente que seus concorrentes, mostra estudo, por Lauro Veiga Filho

Banco de fomento brasileiro alcançou taxas de retorno sobre o dinheiro investido pelos acionistas mais altas que instituições da China, Alemanha, Coreia e França, com custos proporcionalmente mais baixos

BNDES já era mais eficiente que seus concorrentes, mostra estudo

por Lauro Veiga Filho

Mesmo antes do desmonte a que tem sido submetido num período mais recente, obrigado a se descapitalizar para cobrir rombos do Tesouro e ajuda-lo a pagar parcelas da dívida pública interna, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já era mais eficiente e lucrativo do que os principais bancos de desenvolvimento do mundo. Parece paradoxal? Explica-se: o desmonte iniciado no governo de Michel Temer e continuado no desgoverno atual tem como pretexto central tornar o banco mais enxuto e “eficiente”. Mas o estudo “Uma análise comparativa de indicadores financeiros do BNDES e de bancos de desenvolvimento internacionais entre 2015 e 2019” mostra que a instituição conseguia extrair melhores resultados dos investimentos e empréstimos que realiza anualmente do que os bancos de fomento da China, Alemanha, Coreia do Sul e França.

Para melhor entender, aquele desmonte envolve um enxugamento na capacidade de financiamento do BNDES, o que tem significado forte retração dos desembolsos (2020 foi exceção por conta da pandemia e do socorro providenciado pela instituição para pequenas e médias empresas). Além da redução em marcha nas contratações, o custo dos empréstimos foi aumentado com a adoção da Taxa de Longo Prazo (TLP) a partir de 2018. A nova gestão do banco passou a adotar ainda uma política de “desinvestimento”, envolvendo a venda de ações mantidas em carteira pelo BNDES. No ano passado, apenas como referência, quase 68,0% do resultado líquido histórico de R$ 20,7 bilhões (17,0% maior do que em 2019) vieram da venda de ações da Petrobrás, Suzano Papel e Celulose e Vale. O desmonte inclui ainda a devolução acelerada dos recursos injetados nos anos anteriores pelo Tesouro e que haviam permitido a expansão dos empréstimos do banco de fomento ao setor privado, numa política destinada a contrabalançar os efeitos da crise internacional a partir de 2009.

Retorno maior

Em 2015, como mostra o trabalho de Luana Paula de Souza Barros, contadora do BNDES, mestre em ciências contábeis pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o BNDES registrou um lucro líquido de US$ 8,0 bilhões, em grandes números, assegurando um retorno sobre o patrimônio líquido de 20,2%. Isso significa dizer que o banco conseguiu alcançar um lucro de US$ 20 a cada US$ 100 investidos pelos acionistas, assegurando um retorno mais elevado do que todos os demais bancos que entraram na comparação. De acordo com Luana, que também é certificada em IFRS (International Financial Reporting Standards) pelo Institute of Chartered Accountants in England and Wales (ICAEW) e professora do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-RJ), os bancos de desenvolvimento da China, da Alemanha, da Coreia e da França alcançaram retornos de 11,7%, 6,1%, 5,3% e de 3,7% respectivamente, também em 2015.

O artigo, que apresenta uma análise comparativa e a evolução dos principais indicadores de rentabilidade, eficiência operacional e da carteira de crédito entre 2015 e 2019, contempla, além do BNDES, as instituições China Development Bank (CDB); KfW Bankengruppe (KfW); Korea Development Bank (KDB) e Banque Publique D’Investissement (Bpifrance). Ao longo daquele período, o banco brasileiro foi o único a experimentar redução em seu ativo total, que encolheu perto de 24,0%, saindo de US$ 238,0 bilhões em 2015 para US$ 181,0 bilhões em 2019 (na comparação com 2016, o BNDES perdeu um terço de seu ativo). Luana atribui a queda, sobretudo, à “retração da demanda por desembolsos” (quer dizer, pelos empréstimos e financiamentos providos pela instituição) e às “devoluções antecipadas (de recursos) ao Tesouro Nacional”.

A venda de ativos também ajudou a engordar os resultados, expressando a visão de curto prazo sustentada pela atual gestão, embora isso possa vir a comprometer o desempenho futuro do banco, ao reduzir sua capacidade de prover recursos para a economia. O lucro líquido aumentou 225,0% até 2019, para US$ 26,0 bilhões, diante de altas de 25,8% para o banco de fomento chinês, de 16,7% para o banco alemão e 3,4% no caso coreano. O banco francês manteve os lucros nos mesmos níveis em todo o período, em torno de US$ 4,0 bilhões anuais.

Ainda em 2019, o BNDES conseguiu um retorno sobre o patrimônio líquido de 19,2% (levemente abaixo da taxa observada em 2015), diante de um índice médio de 4,5% para os demais bancos analisados. Comparado ao ativo médio total, o resultado líquido representou 2,3% ainda no banco brasileiro de desenvolvimento, expressando em parte a queda no valor de seus ativos (assim como o incremento do resultado). Para comparar, o banco chinês obteve um retorno sobre os ativos de 0,7% (com os demais apresentando indicadores entre 0,1% e 0,3%). Isso significa que o BNDES demonstrou maior eficiência na geração de lucros para seus acionistas (no caso, a própria União).

Custos mais baixos

Em outra medida da capacidade gerencial do BNDES, a relação entre despesas administrativas e seu ativo total médio manteve-se ao redor de 0,3% em 2019, pouco acima das taxas observadas na China e na Alemanha (0,1% e 0,2%) e inferior aos números dos bancos coreano e francês (0,6% e 1,0%, pela ordem). Os gastos administrativos da instituição brasileira representaram algo como 11,0% de seu resultado operacional, equiparando-se ao similar chinês, mas distante das taxas observadas nos demais países da amostra (43,0% na Alemanha; 57,0% na Coreia do Sul; e 70,% na França).

A comparação entre crédito líquido (descontadas as provisões para empréstimos duvidosos) e ativo total retrata o enxugamento a que o BNDES tem sido submetido. Enquanto os demais bancos de fomento mantiveram ou até aumentaram aquela relação, no banco brasileiro o índice baixou de 75,0% para 61,0% – o que se compara com o índice médio de 71,0% observado para as demais instituições analisadas. “Os indicadores de eficiência em custos”, afirma Luana, “foram significativamente melhores no BNDES”.

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