Bolsonaro era só questão de tempo, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

O brasileiro médio se sente lisonjeado quando Bolsonaro nega os problemas ambientais, se acerca dos piores gestores, difama peritos e intelectuais em geral e ataca verbal e financeiramente as universidades.

Bolsonaro era só questão de tempo

por Thiago Antônio de Oliveira Sá

He’s as blind as he can be
Just sees what he wants to see
Nowhere man, can you see me at all?
Doesn’t have a point of view
Knows not where he’s going to
Isn’t he a bit like you and me?
 (Lennon/McCartney)

A tragédia ambiental, sanitária e socioeconômica na qual democraticamente nos metemos não deveria nos causar espanto. A julgar pela constituição histórica e social do brasileiro médio, ela era previsível. Bolsonaro era só questão de tempo.

Sua eleição está associada a fatores externos aos eleitores. Como os disparos massivos e ilegais de fake News, que desinformam, incitam o ódio, difamam adversários e espalham o pânico. Determinaram a percepção da política e o resultado eleitoral.

Porém, fatores subjetivos do eleitorado também explicam tal escolha. Nossa constituição histórico-social nos predispõe ao bolsonarismo. Observemos ao redor. Somos tão violentos que não vemos problema em arbitrariedades policiais racialmente focadas. Vibramos tanto com linchamentos que nem procuramos saber seus motivos. Recusamo-nos a entender o funcionamento da democracia e do sistema político, a importância dos partidos, do parlamento, da divisão entre poderes… para nós, são instituições morosas, corrompidas e inúteis. Destruí-las, portanto, seria a solução política eficaz. Como toda solução autoritária, para nós, é. Fazemos graça de tudo, subvertemos normas regimentais e convertemos protocolos em churrasco, numa indisciplina lúdica incurável. Temos fascínio pela hierarquia mesmo quando somos subalternos; defendemos interesses patronais quando somos chão de fábrica. Mais que racistas, machistas, misóginos, homofóbicos e elitistas, não abrimos mão do autoproclamado direito de sê-los, sobretudo quando confrontados com o que chamam “politicamente correto” (que deveria chamar-se apenas “respeito”). Preconceituosos e intolerantes, deduzimos quem é “bandido” por evidências mínimas: cor, classe, roupas, cabelo ou região. Exigimos do outro uma retidão moral que não temos, moralistas e religiosos que somos. Rechaçamos tratamentos impessoais e igualitários: furamos fila, buscamos “quem indica”. Atribuímos o desemprego alheio à preguiça; o nosso, à falta de oportunidade. Exigimos todos os benefícios que nos são de direito. Todavia, nos revoltamos alguém faz o mesmo. Cultivamos alguns analfabetismos voluntários: nas letras, na política, na ciência, nas artes. Partilhamos um orgulho de sermos simplistas, insensíveis, radicalizados e embrutecidos, mesmo quando escolarizados. Odiamos presenciar cientistas, artistas, docentes – enfim, profissionais do saber – se pronunciando. Quanto mais inculto, melhor. A curiosa figura do idiota-ostentação.

O bolsonarismo fala no ouvido em que o brasileiro médio escuta. Este se sente empoderado quando seu “mito” elogia torturadores, promete fuzilamentos, faz arminha, arma a população, acusa desafetos e ofende mulheres, homossexuais, indígenas e nordestinos. Vê-se um presidente sob medida para seus eleitores quando ele improvisa brincadeiras racistas e homofóbicas, piadinhas sujas com crianças ou insinuações de duplo sentido de quinta série com todo mundo com quem interage no exercício do cargo. O brasileiro médio se sente lisonjeado quando Bolsonaro nega os problemas ambientais, se acerca dos piores gestores, difama peritos e intelectuais em geral e ataca verbal e financeiramente as universidades. Seu Português capenga, suas frases mal formuladas, seus palavrões, sua exaltação à ignorância, seu conspiracionismo e seu senso comum são uma homenagem à nossa ignorância culturalmente constituída. Quando o presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, evoca tanques, forças armadas, grita que vai intervir e protagoniza uma reunião ministerial infame, cuja pauta única era o baixo calão, ele dá voz àquele brasileiro profundo que nos habita.

A mensagem bolsonarista encontrou ampla e fácil acolhida pois um somos um povo bolsonariamente formado. No submundo do WhatsApp – a cracolândia digital – conteúdos mentirosos, aberrantes, absurdos e implausíveis não se alastrariam tão rapidamente caso não contassem com uma predisposição a se crer neles e a se endossá-los. O conteúdo bolsonarista nas redes toca fundo a nostalgia conservadora, a melancolia pela perda de um passado idílico – que nunca existiu de fato – mas que cuja lembrança é um abrigo de um mundo em incômoda mudança e em suposta desordem moral. Saudade de um paraíso ordeiro e seguro, no qual mulheres, negros e LGBTs tinham seu (não) lugar e não “procuravam confusão” e as classes mais pareciam castas. Pelo restabelecimento desta ordem imaginária, embarcamos em qualquer populismo.

Com tantas afinidades com nosso povo, Bolsonaro era provável. Talvez, inevitável.

Tal simbiose entre eleito e eleitorado se mostra na resiliência do apoio dos famosos 30%, a cada nova pesquisa de opinião. Nada abala tamanha identificação. Nem Roberto Jefferson, nem o centrão. Nem os suspeitos R$ 89 mil depositados para a Michele. Nem a Amazônia e o Pantanal criminosamente incendiados para se expandir as terras cultiváveis sobre reservas ambientais e indígenas. Nem mesmo o desmanche de todo aparato de proteção ambiental. Nem Flávio, rachadinhas, Queiroz ou nepotismo. Tampouco as obscuras ligações com milícias, escritórios do crime ou gabinetes do ódio. Sequer a ausência de um ministro da saúde em plena pandemia, a descoordenação e a negligência no enfrentamento da Covid-19 e a sabotagem das poucas medidas sanitárias emplacadas. Nem as interferências na Polícia Federal, de modo a convertê-la em guarda familiar particular. Nem 1000 mortes diárias conclamam à reflexão.

Seu eleitorado fidelizado não está nem aí para nada disso. Quem se importa com pequenos efeitos colaterais, quando se pode finalmente participar de algo grande? O Brasil real agora teve sua vez e está no poder, após 30 anos de insuportável convivência democrática. Em algum momento, caberia a nós viver tudo isso. O vírus, as chamas e as sepulturas se alastrando sob aplausos. Quem observa por fora, só enxerga eleitores contra si mesmos. Quem examina por dentro, presencia a revolução dos ressentidos. Era para ser. Inescapável. Que venham as 200.000 vidas desperdiçadas.

Nos anos 90, ríamos do Enéas Carneiro. Radical, esbravejante, alarmista, paranóico e vazio. Em seu armamentismo megalomaníaco e fascista, já falava logo em bomba atômica. Militarização era panacéia para todas as mazelas brasileiras. Ultraconservador, para ele só a mão pesada do autoritarismo poderia “re”por o Brasil nos eixos. Seu bordão histérico, solução para o curtíssimo tempo no horário eleitoral, tornava tudo ainda mais caricato. Em 2014, ríamos  do igualmente caricato Levy Fidélix. Desorientado, moralista e sexualmente obcecado. O que havia de mais consistente em seu programa de governo era um debate relativo aos desígnios anais. Ao que parece, deve ser assunto de Estado. Fútil, polemista, fanfarrão, machista e demagogo. Homofobia era sua plataforma. Bastião da moral reacionária. Até seus adversários riam. Não porque fosse inofensivo, mas porque era burlesco. Em 2018, elegemos uma síntese daqueles dois candidatos. Um retrato do brasileiro médio. Sem máscara (literalmente).

O absurdo deixou de sê-lo? Não. É só o Brasil finalmente se reencontrando. Bolsonaro era questão de tempo.

Dedicado aos cidadãos do bem da “República do Cangaço”, sediada no boteco do Jorjão.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, doutor em Sociologia e professor.

Do autor:

A revolução dos ressentidos, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

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