Bolsonaro não governa, lidera seita messiânica – o bolsonarismo, por Alexandre Filordi

A crença na ilusão do messianismo bolsonarista foi um conluio programado da elite brasileira que, agora, vê nele um cálice de fel que ela própria não quer mais tomar, não sabendo o que fazer.

(El gran Macho Cabrio – Francisco Goya/1821-22)

Bolsonaro não governa, lidera seita messiânica – o bolsonarismo 

por Alexandre Filordi

“O globalismo substitui o socialismo como estágio preparatório ao comunismo. A pandemia do coronavírus representa uma imensa oportunidade de construir uma ordem mundial sem nações e sem liberdade.” Assim avalia a “função” da pandemia no planeta o ministro Ernesto Araújo no texto Chegou o corona vírus (https://www.metapoliticabrasil.com/post/chegou-o-comunav%C3%ADrus)

“Em duas semanas, as universidades federais estarão funcionando normalmente”. Disse o douto – sem doutorado –  ministro da educação, Weintraub, esta semana (https://www.youtube.com/watch?v=0qTRdeQQLrw&feature=youtu.be).

“É só uma gripezinha”, disse o Messias acerca da pandemia do coronavírus.

As frases acima representam concordâncias entre seguidores de uma seita, dado os teores irracionais de deslocamento com o razoável. Toda seita produz efeito endógenos: são dissidentes perigosos aqueles que não concordam com suas doutrinas, interpretações e propostas; seus rituais, líderes, princípios etc. 

No latim, secta sugere caminho, linha de conduta, princípios. Dessa forma, uma seita tende a girar em torno dos que se tornaram sectários, ou seja, dos que escolheram caminhos próprios em divergência com a opinião geral. 

O mais perigoso da seita é quando ela se inclina ao messianismo. Assim, a seita passa a defender que se a realidade não se sucumbir aos seus princípios, todo tipo de ação é necessário para ou converter ou eliminar os não adeptos. 

No limite, tal como a seita messiânica de Jim Jones, seus fiéis podem ser levados ao sacrifício. O nazismo também poderia ser concebido como seita messiânica: quem não é por nós está contra nós. Seus soldados-discípulos levavam a seguinte profissão de fé nas fivelas dos cintos: “Gott mis uns” – Deus caminha conosco, enquanto executavam, cegamente, as ordens de outro Messias.

O nosso presidente não governa há tempos, mas lidera uma seita messiânica. No lugar de servir à Constituição, o Messias e seu séquito obedecem a doutrina mística de suas próprias crenças. Consideram a negligência com a saúde pública parte do sacrifício ritual necessário ao deus ignorância: “vai morrer gente? Vai morrer gente!”, disse o Messias. Os messiânicos também sobrepõem às ações políticas desastrosas o enredo apocalíptico do sacrifício: todos precisam se sacrificar, desde que trabalhadores e pobres, claro está, os ricos são os grandes sacerdotes do deus Mamon – dinheiro – portanto, como casta privilegiada, devem ser poupados.

O bolsonarismo é tudo aquilo que Freud, em O futuro de uma ilusão, analisava acerca das armadilhas pulsionais presentes nos componentes religiosos. As crenças, e justamente por assim o serem, proíbem qualquer tipo de questionamento de sua autenticidade. Por isso mesmo, a crença passa por cima de qualquer princípio de realidade. O poder de sua ilusão reside principalmente no fato de manter seus fiéis em um perpétuo infantilismo mental – ou você, leitor/a – também já viu Jesus num pé de goiabeira? 

“Podemos chamar uma crença de ilusão quando uma realização do desejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação”, diz-nos Freud naquele texto.  Aqui, contudo, é preciso lembrar que a realização do desejo pelo bolsonarismo foi uma produção social perversa contra as políticas públicas que insistiam em evidenciar a nossa realidade: o Brasil é um país desigual, injusto, escravocrata, racista.

Com efeito, o messianismo bolsonarista não surgiu do nada, porém, foi produzido por uma elite cansada de ver pobres nos aeroportos, negros nas universidades públicas, médicos cubanos atuando nas periferias tupiniquins, trabalhadores comendo em restaurantes. A crença na ilusão do messianismo bolsonarista foi um conluio programado da elite brasileira que, agora, vê nele um cálice de fel que ela própria não quer mais tomar, não sabendo o que fazer.

Dias atrás, em uma coletiva com a imprensa, o presidente da Caixa Econômica Federal, logo, servidor do Messias, muito assustado, descobria que o Brasil “pode ter” quase 50 milhões de cidadãos pobres, ou seja, necessitando do amparo dos R$ 600,00 emergenciais. Esse é o problema de toda seita: não há realidade, não há mundo, não há vida social fora de suas bolhas, de seus cânones e de suas crenças.

Daí a importância da análise de Freud: toda teocracia torna impossível a democracia, pois as diferenças sociais, culturais, econômicas, religiosas, comportamentais etc. são esmagadas pelo messianismo pretensamente redentor. Este, por sua vez, sempre obsessivo, infantil, narcísico – quem discorda é ameaça – despreza a realidade e, pior, ignora até as ciências. 

Querendo ou não, um dia, essa seita se verá frente a frente com o próprio diagnóstico de Freud: “terão de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo”. 

Alexandre Filordi (EFLCH/UNIFESP)

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