Bolsonaro no Cemitério Maldito brasileiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O filme Cemitério Maldito explora essas duas coisas: o racismo e as desconfianças entre brancos, índios e negros.

Bolsonaro no Cemitério Maldito brasileiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A maioria dos filmes de terror não merecem ser comentados. Afinal, se levarmos em conta a macabra realidade brasileira construída pela mídia corporativa eles podem ser considerados comédias sem graça. Mas hoje vou abrir uma exceção, pois a estrutura profunda do filme Cemitério Maldito – uma adaptação do livro de Stephen King – contém algumas coisas interessantes.

O processo de construção dos EUA foi estruturalmente semelhante ao do Brasil. Lá e cá o racismo foi um elemento central do colonialismo. Os índios foram sistematicamente executados para liberar terras que seriam adjudicadas aos brancos e por eles exploradas economicamente. A mão de obra dos negros escravos foi brutalmente utilizada para garantir o enriquecimento dos colonos.

Nos dois países desconfianças entre estes três grupos sociais continuam existindo. No Brasil elas teriam sido atenuadas pela intensa mestiçagem (é isso pelo menos o que nos diz uma vertente da sociologia tropical). Cemitério Maldito explora essas duas coisas: o racismo e as desconfianças entre brancos, índios e negros.

Um médico branco tenta salvar a vida um garoto negro que foi atropelado. Quando uma tragédia ocorre, o espírito do paciente negro o avisa para não ultrapassar uma barreira que foi construída pelos índios. Estimulado por outro branco, o médico ignora a advertência e o resultado é devastador. Nesse ponto já podemos começar a fazer algumas conjecturas sobre o filme.

Como os brancos se consideram superiores aos negros e aos índios, nada do que eles digam ou façam seria capaz de deter um curso de ação desejado pelos primeiros. Portanto, o truque literário utilizado no livro de de Stephen King que foi adaptado para o cinema problematiza o racismo.

Se o médico tivesse ignorado o conselho do vizinho branco e respeitado o aviso do negro e/ou o bom senso dos índios nada teria ocorrido. Todavia, tanto nos filmes de terror quanto nas sociedades coloniais e pós-coloniais (traumatizadas por uma violência racial estrutural que pode ressurgir a qualquer momento) nada é necessariamente o que aparenta ser.

Os índios teriam levantado uma barreira se não soubessem que os brancos iriam ficar tentados a ultrapassá-la? Qual seria a maneira mais fácil da entidade maliciosa do filme levar o personagem branco a seguir um curso de ação que seria prejudicial à família dele? Ela não teria mais sucesso se apresentando como um negro cujos conselhos seriam imediatamente descartados?

O mal que opera efeitos no filme comentado é tanto do outro mundo quanto deste mundo, pois nos EUA a sociedade continua saturada por uma violência histórica que dificilmente pode ser contornada ou neutralizada. No Brasil as coisas não são muito diferentes.

Jair Bolsonaro é um personagem digno do Cemitério Maldito. Mas ninguém pode dizer que o capitão amalucado não é um produto genuíno do racismo estrutural violento que os brasileiros gostam de esconder de si mesmos. De tudo o que foi dito acima, podemos concluir que os protagonistas brancos do filme foram historicamente programados para produzir a tragédia macabra que inevitavelmente iria se abater sobre eles. Os brasileiros foram e estão sendo adestrados para sofrer sob uma nova ditadura militar?

A realidade tal como nós a conhecemos pode ser uma ficção. Essa cogitação dolorosa é sugerida pelo filme inspirado na obra de Stephen King. A mesma questão tem sido colocada pelo sociólogo Jessé de Souza nos livros dele que rejeitam a tese da cordialidade brasileira e da inexistência de racismo em razão do processo de mestiçagem que produziu nosso país. O filme comentado é muito interessante, especialmente se formos capaz de ver o que ele realmente mostra.

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