Bolsonaro quer desmoralizar os generais, por Wilson Luiz Müller

Não é crível que os generais – pela sua formação intelectual e acadêmica – tenham aderido a essa bizarria extremista, bem ao feitio das teorias conspiratórias, apenas por convencimento ideológico.

Bolsonaro quer desmoralizar os generais  

por Wilson Luiz Müller

É preciso recorrer à história para compreender o que Bolsonaro espera dos militares. Ele não aprecia um Exército profissional nem deseja que os generais se dêem bem na passagem pelo seu governo.

Como tenente, Bolsonaro elaborou um plano para explodir bombas em quartéis e numa adutora de água do Rio de Janeiro. O plano visava constranger os comandantes, pois uma parcela dos militares estava insatisfeita com seus salários.

O plano terrorista foi descoberto e Bolsonaro foi preso. Os superiores do tenente Jair deviam tê-lo punido na forma da lei. Deveria ter sido expulso do Exército, a bem do serviço público, sem direito à pensão. Mas era tempo de ditadura. Os porões sombrios vieram em socorro do tenente infrator. Para ficar “bom para todo mundo”, fizeram um acordo meia-boca. Como punição, Jair foi posto na reserva. Para compensar a punição, Jair ganhou a patente de capitão e uma aposentadoria vitalícia aos 33 anos.

Mesmo que o acordo tenha a feição de uma premiação, a exclusão precoce do Exército foi para Jair uma grande humilhação. Ele seria dali em diante, pelo restante da vida, apenas um capitão de mentira, expulso do Exército por indisciplina e quebra de hierarquia. Não era mais um militar de fato. Dependeria dos militares de verdade para ser aceito nos ambientes da caserna.

Não teria mais o respeito dos oficiais de alta patente do Exército. Os generais, por conta disso, passaram a ser os grandes inimigos do capitão de reserva Jair Bolsonaro.

Jair se elegeu várias vezes tendo como bandeira a defesa de militares de baixa patente contra os privilégios dos comandantes. O conflito entre Bolsonaro e as cúpulas militares foi permanente ao longo da maior parte da atividade parlamentar do deputado. Vários comandantes proibiam expressamente Bolsonaro de ingressar nos quartéis.

Quando Bolsonaro fazia a defesa da ditadura, ele estava atacando a honra dos generais; ele os estava chamando de covardes por terem abandonado o projeto da ditadura e permitido o retorno da democracia. Olavo de Carvalho, o guru ideológico de Bolsonaro, até hoje chama os generais de covardes por conta disso.

E quando o deputado Bolsonaro fazia o elogio da tortura, quando elevava o Coronel Ustra, notório torturador, à condição de herói nacional, ele estava achincalhando o Exército, dando a entender que todos ali aprovavam a tortura; pois não está entre as funções dos comandantes militares a de torturar e matar pessoas presas.

Essa relação conflituosa entre Bolsonaro e as cúpulas militares começou a mudar em 2014. Foi uma consequência do crescimento dos setores da extrema-direita que passaram a ver Bolsonaro como um potencial  candidato a presidente.

Numa videoconferência realizada em 13 de fevereiro de 2014, disponível na internet sob o título “Hangout de Olavo de Carvalho com a família Bolsonaro”, Olavo e Jair tratam, entre outras coisas, da organização da extrema-direita com vistas à disputa presidencial.

Na conferência, Olavo critica a ditadura militar por não combatido ideologicamente os comunistas. “Se você assume o poder e não queima a reputação do seu inimigo, um dia ele levanta do túmulo e acaba com você”. […] “Se você for eleito presidente, o Estado está todo aparelhado pelo PT e pela esquerda. Eles dominam o funcionalismo público. Você fica cercado de inimigos. Tem que ter um projeto de desmantelar essa coisa. O senhor chega lá e fica como um pato sentado e ficam todos os funcionários acabando com seu governo.”

Bolsonaro era candidato a deputado federal em fevereiro de 2014. Ele diz que está falando com os candidatos a presidente da direita: “tem que se aproximar dos militares, vai ter que ter uma força do seu lado. Fazer acordo com o legislativo não vai dar certo.” […]

Em novembro de 2014, reeleito deputado federal, Bolsonaro foi recebido aos gritos de “Líder!, Líder!, Líder! …” pelos aspirantes-a-oficial da Academia Militar das Agulhas Negras. Bolsonaro aproveitou a formatura para a qual tinha sido convidado para lançar a sua plataforma futura de candidato a presidente.

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Havia ocorrido algum acordo entre os generais e Bolsonaro para que ele pudesse falar em nome dos militares a partir de então.

A partir deste momento, começaram a surgir nos movimentos de rua manifestações cada vez mais contundentes pedindo intervenção militar. Hoje está claro que não se tratava de manifestações populares espontâneas; faziam parte da agenda da caserna que tentava voltar a ocupar espaços na política partidária do país.

Bolsonaro teria que dar demonstrações de que era fiel à agenda dos generais. Em 2017, ele apareceu batendo continência à bandeira dos Estados Unidos. Era para demonstrar o alinhamento unilateral – e submisso – aos Estados Unidos, ponto defendido pelas cúpulas militares. Depois Bolsonaro abandonou o discurso nacionalista e de defesa do Estado para aderir ao liberalismo econômico, outro ponto caro aos generais, que tinham há tempo abandonado o nacionalismo depois que passaram a ser treinados pelas escolas liberais dos Estados Unidos.

Também em 2017, o general Villas Boas começou a usar seu Twitter e a dar entrevistas para opinar sobre política e expor suas visões sobre os principais problemas do país. Entre outras coisas, ele disse naquele ano:

“Por outro lado, estamos vivendo uma imposição do politicamente correto, vivendo uma verdadeira ditadura do relativismo e com uma tendência a que não se estabeleçam limites nas condutas. Isso vai numa onda e volta em um refluxo que atinge as pessoas e a sociedade como um todo. Isso está na raiz dos problemas, insisto, do politicamente correto, privilegia e atua reforçando o seu caráter ideológico e não apresentando a solução dos problemas.”

Vários analistas ficaram especulando sobre o que o general estava falando. Alguns anos depois, quando o mosaico histórico foi montado pelas peças então desconhecidas, ficou claro que ele estava falando de um conceito definido pela extrema-direita como “marxismo cultural.” Ou seja, pela voz mais influente do Exército, fomos informados em 2017 que os generais tinham aderido ao discurso narrativo que era publicamente exposto por Jair Bolsonaro, já então candidato a presidente.

O conceito do “marxismo cultural” foi cunhado pela extrema-direita estadunidense. Um dos principais porta-vozes dessa vertente é o astrólogo Olavo de Carvalho, guru de Bolsonaro, que também tinha entre seus alunos muitos militares, ministrando a eles palestras e conferências.

O conceito do politicamente correto tem papel central na formulação dessa ideologia de extrema-direita. Para os ideológos dessa corrente, a esquerda teria abandonado a velha retórica da luta de classes. Como substituto, estaria usando o guarda-chuva do politicamente correto para criar novas contradições na sociedade. Os opressores seriam agora os homens, brancos e heterossexuais; os oprimidos seriam os grupos LGBT, os negros, as feministas, os imigrantes, os povos originários. As demandas apresentadas por esses grupos, segundo esses ideólogos, não seriam normais e espontâneos, mas insuflados artificialmente pela esquerda no contexto de uma nova estratégia para minar as bases da civilização capitalista judaico-cristã.

Quando Bolsonaro ataca esses grupos socialmente mais vulneráveis,  ele estaria, na ótica da extrema-direita, à qual os generais aderiram, prestando um ótimo serviço aos cidadãos de bem, por estar na verdade combatendo a esquerda infiltrada nos aparelhos que defendem essas pautas.

Ao assumirem esse discurso de que há marxistas disfarçados em quase todas as instâncias por onde a sociedade civil apresenta as suas demandas, os generais pretendem induzir a sociedade à conclusão de que não se pode confiar nos civis; que os militares precisam ocupar os postos-chave nos aparelhos do Estado para combater o marxismo cultural. Mas essa é a parte do discurso. Coisa diferente é o que esse discurso pretende esconder.

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Não é crível que os generais – pela sua formação intelectual e acadêmica – tenham aderido a essa bizarria extremista, bem ao feitio das teorias conspiratórias, apenas por convencimento ideológico. Há razões outras para supor que apenas utilizam esse discurso para legitimar a sua volta ao poder político. Porque o retorno ao poder materializa a possibilidade de auferirem vantagens que não teriam se se dedicassem apenas às funções que lhes são reservadas pela Constituição Federal.

Em 2018, por ocasião do julgamento de um habeas corpus do Lula, o general Villas Boas voltou a usar o Twitter para insinuar a ameaça de que os militares não aceitariam uma decisão no STF que libertasse Lula da prisão. O STF manteve Lula preso e impedido de ser candidato. Bolsonaro foi eleito presidente.

Em janeiro de 2019, tão logo tomou posse, Bolsonaro agradeceu ao general:

— General Villas Boas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui.

Aos poucos vão sendo revelados os reais motivos que levaram os militares a se associar a Bolsonaro para retornar ao poder. Há tempo os generais tinham abandonado a defesa da soberania nacional e vestido o manto do liberalismo econômico. Por isso acreditam ser justo, ao integrar um governo onde se consideram imprescindíveis, poder usufruir das mesmas vantagens que os especuladores financistas usufruem por serem parceiros de um banqueiro como Paulo Guedes. É o que explica por que militares se concedem tratamento privilegiado em relação aos servidores civis quanto aos vencimentos e na reforma previdenciária. Tudo isso está emoldurado pelo contexto de alinhamento unilateral –  de submissão –  com o império de Trump, como indica a nomeação de um general brasileiro para o comando sul dos Estados Unidos. É esse contexto que explica por que os generais aprovaram a venda da Embraer para a Boeing, o desmonte do sistema Petrobras, a entrega do petróleo do pré-sal e de outras riquezas nacionais.

Mesmo que Bolsonaro não consiga alcançar seu objetivo de se transformar num ditador, ele está cumprindo com exitosa folga a meta da matança dos trinta mil. No ritmo em que a matança está se dando, é provável que essa meta seja multiplicada por dez, talvez mais. Ele está tendo êxito na sua meta de acabar com as reservas indígenas. Não pela lei, mas pelo fogo e pelas balas dos grileiros. Está tendo êxito no desmatamento sem precedentes da Amazônia. Para atender interesses de grileiros, madeireiros ilegais e mineradores, sendo que muitos deles são os grandes parceiros dele dos Estados Unidos.

O plano exitoso de Bolsonaro pode ser visto, de forma clara, nas duas frentes onde o governo está colhendo os piores resultados: no enfrentamento da pandemia do coronavírus e no desmatamento descontrolado da Amazônia. Nas duas frentes Bolsonaro colocou generais como responsáveis. É nessas duas frentes que Bolsonaro dedica os melhores esforços para boicotar qualquer iniciativa que possa trazer algum resultado positivo esperado pela sociedade.

“Pazuello é um predestinado – disse Bolsonaro – , nos momentos difíceis sempre está no lugar certo para melhor servir a sua Pátria. O nosso Exército se orgulha desse nobre soldado”.

A declaração revela ainda um traço sádico. O predestinado general Pazuello está colhendo mais de mil mortos por dia faz várias semanas. A matança no Brasil é a demonstração cabal do mais absoluto fracasso de gestão sanitária. Pazuello está predestinado a ser campeão mundial de mortes: por incompetência, arrogância,  irresponsabilidade e de desprezo pela vida humana.

Na sua área de atuação, o general Mourão também está colhendo índices recordes de desmatamento da floresta amazônica. É outro candidato a sentar no banco dos réus do Tribunal de Haia.

Agora que a pandemia está provocando uma matança muito superior à sonhada por Bolsonaro – a sua guerra civil pretendia matar pelo menos uns trinta mil – ele prepara o terreno para transformar os militares brasileiros em exército mercenário a soldo dos Estados Unidos. Arrastar o Brasil para uma guerra insana contra países vizinhos, seria para Bolsonaro o coroamento definitivo da desmoralização dos generais.

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Enfim, tudo vai mal neste teatro do absurdo em que fomos transformados depois da sucessão de fraudes contra a democracia desde o golpe que derrubou a presidente Dilma em 2016. Mas para Bolsonaro, que nunca quis ser presidente, que queria apenas humilhar os generais que o proibiram de ser um militar de verdade, tudo vai bem.

Bolsonaro será lembrado pela história como um títere lambe-botas dos Estados Unidos. Os generais serão lembrados como aqueles que emprestaram o prestígio de suas armas para um ditadorzinho de quinta presidir a maior matança da história do pais, enquanto boicotava, para alegria de bandidos de todas as estirpes, qualquer iniciativa capaz de frear o desmatamento sem precedentes da Amazônia.

O que Bolsonaro faz a favor e contra os generais não deve ser compreendido apenas como vingança pessoal. Antes disso vem a sua incapacidade de aceitar o regime democrático e a sua absoluta inaptidão para lidar com as contradições decorrentes do funcionamento normal das instituições. Na mente dele, todas as divergências se resolvem com porrada e tiro. Por isso ele precisa de instituições funcionando como se fossem milícias: sem regras escritas, sem disciplina e sob comando de um líder que se impõe pela força. Ele persegue o modelo de Hitler, que subjugou o exército alemão ao funcionamento das milícias armadas do partido nazista.

Os generais tinham a obrigação de saber tudo isso. E sabiam. A história não mente. Nunca poderão dizer, como os eleitores enganados do capitão: eu não sabia!

Bolsonaro está sendo didático na sua missão. Ele precisa mostrar ao povo que os generais são exatamente iguais a ele: que desprezam a ciência, que não tem escrúpulos em utilizar a mentira como arma ideológica,  que não defendem a soberania do país, que almejam apenas auferir vantagens pessoais, que desprezam a democracia e desrespeitam os grupos sociais mais vulneráveis.

Pelo que indicam as pesquisas de opinião pública, Bolsonaro está tendo êxito na sua pedagogia destrutiva: as Forças Armadas tem hoje o mesmo prestígio que o presidente. No tempo em que tinham se afastado da vida política, elas tinham a aprovação de mais de dois terços dos brasileiros.

Pelos feitos históricos de Bolsonaro, ele chegou longe demais. Ele ganhou tanto que agora não tem mais o que temer. Por mais que ele perca, ainda estará em grande vantagem em relação ao que tinha condições de alcançar por méritos próprios. Essa é a sua vantagem, o seu grande trunfo. Esse é o calcanhar de Aquiles dos generais. Não podem abandonar Bolsonaro porque estarão abandonando a si mesmos. Bolsonaro e generais fizeram-se um só.

Se o plano de Bolsonaro der certo, ele ainda pode se manter alguns anos no poder, com todas as vantagens que isso possa representar para ele e sua família. Se o plano der errado, ele arrasta para a desgraça os generais. A história será implacável, como sempre.  Saberá debitar na conta desses e daquele as respectivas culpas pelo desastre a que o país foi conduzido.

Wilson Luiz Müller – Integrante do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

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6 comentários

  1. Mais do que já são?
    Basta olhar nossa História e ver quão falsa é a denominação de Heróis dada a essa gente onerosa,perdulária e inócua com suas imerecidas medalhinhas de lata.
    Generais,Marechais,Brigadeiros Almirantes são um fardo nas costas do POVO que os sustentam para aterrorizar,perseguir,prender e torturar quem lhes enche as flatulentas panças.
    Coloquemos na balança e veremos a disparidade entre benefícios e malefícios.

  2. Acho mais real: É crível que a maioria dos generais – pela sua formação intelectual, acadêmica e ideológica – são extremista bizarros e vivem de conspiração.

  3. Talvez haja tanta especulação sobre o que os militares estão falando, simplesmente porque quando eles falam é tanta besteira que todos pensam que eles tem mais a falar.

  4. Foi para ficarmos, na realidade, com dois Brasis…
    sendo que o erro na execução de um deles serviu, foi planejada, com ainda serve, para desviar a atenção sobre a falta de perspectivas de melhora permanente em ambos.

    e assim o Guedes vai retirando e entregando tudo de bandeja sem nenhuma preocupação

  5. Nassif: ou mudamos o anglo de visão ou vamos sempre repetindo fórmulas desgastadas, usadas à esquerda e à direita. O TenenteJair não é “causa”. É “consequência. Tudo que faz e fez é como faria o KhmerVerde (como um todo). Quando fala em “matar” é a linguagem do pico das Agulhas distribuída nas casernas. Quando chama os contrários de “Kummunistas” repete o discurso dos babões da PraiaVermelha, ninho original das conspirações da Arma. Então, está se tratando a pontinha (minúscula) do Iceberg e ignorando o grosso do que está submerso em águas turvas e sanguinárias. Como se batesse em rabo de cobra. Como se decepasse uma das cabeças da HidraDeLerna. Ou aborda-se (e trata-se) a causa em sua “raiz” (extirpando-a) ou vai continuar apenas o discurso festivo e inútil contra balas e baionetas em riste, contra a bazófia e hipocrisia dos estrelados da corporação, investindo sobre os desafortunados da vida. E o discurso acaba até enjoando acadêmicos…

  6. “..Como punição, Jair foi posto na reserva. Para compensar a punição, Jair ganhou a patente de capitão e uma aposentadoria vitalícia aos 33 anos.”

    Quem acochambra alguem das FAs capaz de atos terroristas como os relatados, não merece nada alem de humilhação.

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