Breves comentários sobre o golpe na Bolívia, por Sérgio Guedes Reis

Camacho, sem um voto sequer, ocupa o palácio presidencial em La Paz e enquanto remove símbolos "não-cristãos", anuncia que Evo deverá ser preso.

Breves comentários sobre o golpe na Bolívia

por Sérgio Guedes Reis

Ainda espero poder escrever um texto sobre o golpe de Estado ocorrido na Bolívia, país com a maior taxa de crescimento econômico da América Latina ao longo dos últimos 15 anos. Comento por ora as questões mais triviais.

1) O fato de Evo Morales ter se equivocado em se candidatar para nova reeleição não autoriza ou dá legitimidade a que forças da oposição tomem o poder à força. No caso em questão, não se trata apenas de responder uma violação constitucional com outra, mas sim de fazê-lo com base em violência pura e simples. Há centenas e centenas de estudos mostrando como falham as tentativas de restauração democrática com base na força dos tanques de guerra – e, no caso, sequer estamos falando da deposição de um regime autoritário.

2) O recurso à força pelos oposicionistas Mesa e Camacho (uma espécie de versão piorada do Luciano Hang, da Havan) não vem de agora. Quando Evo aceitou a auditoria da OEA, eles, a oposição interessada, a recusaram, de pronto, independentemente do resultado – e isso mesmo depois que a OEA, de forma apressada, apontou suspeição sobre o pleito. Logo depois do primeiro turno, TODAS as sedes regionais do Tribunal Eleitoral boliviano foram atacadas pela oposição, e em 3 delas (inclusive em Santa Cruz, berço das forças conservadoras) as urnas foram simplesmente queimadas. A OEA sequer conseguiu auditar votos desses locais.

3) A direita boliviana demonstrou seguidamente, portanto, não ter interesse em negociar: 1) recusou aceitar o resultado das eleições; 2) recusou a auditoria da OEA; 3) recusou a realização do segundo turno; 4) recusou, por fim, a realização de novas eleições, propostas por Evo ainda na manhã de Domingo.

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4) A questão técnica central, que era a existência de fraude no processo eleitoral, pouco foi tratada. A OEA trouxe uma auditoria preliminar ainda ontem. A antecipação de sua divulgação (prevista para 13 de Novembro) contribuiu para fortalecer o discurso golpista, dadas as críticas feitas à condução do pleito. Mas o relatório, impressionantemente modesto e incompleto diante das necessidades de esclarecimento do caso, não crava a existência de fraude sistêmica. Ele apenas diz que não pode confirmar o resultado da eleição e a integridade do sistema de contagem. Alguns dos problemas graves apontados (falsificação de assinaturas. por exemplo) são relativamente comuns em eleições com votação manual e não há indicativo de que tenham ocorrido de forma a beneficiar apenas Evo, nem que tenham contribuído para transformarem o resultado da eleição. O fato é que não houve esclarecimento a respeito de fraude na eleição, ao contrário do que se noticia. A OEA, algumas horas antes da renúncia de Evo, recomendava a realização de novas eleições, com a manutenção de todos os atores políticos – inclusive Evo – em seus cargos. Ela simplesmente não se manifestou desde então, enquanto o país afunda em uma guerra civil.

5) O golpe se viabilizou em um contexto totalmente incomum, já que a Bolívia experimentava um nível de prosperidade econômica sem precedentes. Nesse sentido, ele não poderia ter ocorrido sem a construção reiterada de um discurso de desvalorização das eleições, sem a anuência de Brasil, Colômbia e Estados Unidos, e sem o misto de tutelagem desorganizada e silêncio obsequioso promovidos pela OEA. Em um contexto de fragilidade institucional, qualquer interferência externa pode fazer toda a diferença em equilibrar ou desequilibrar o jogo de forças…

6) Eventos como este são importantes para recolocar no lugar, inclusive na cabeça de cientistas políticos, qual é o real horizonte de possibilidades à disposição dos atores, a qualquer tempo. Pouquíssimos analistas cogitariam, há um mês, a implementação de um golpe militar na Bolívia, ainda que a sociedade estivesse claramente polarizada. A forma com que a imprensa e interlocutores naturalizam, sem base legal alguma, o que está acontecendo ali – vejam a prisão bizarra da presidenta do TSE, por exemplo – é um bom indicativo de como o aprofundamento da crise política no Brasil poderá ser tratado: quanto maior o risco de fechamento institucional, maior será a crença de que as instituições estão funcionando. Tudo se passa como se o que vier a seguir é decorrência lógica do que veio antes. Um mundo sem fraturas, sem indignação, sem descontinuidades. Nessa toada, os vencedores nos levam para onde eles quiserem.

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Camacho, sem um voto sequer, ocupa o palácio presidencial em La Paz e enquanto remove símbolos “não-cristãos”, anuncia que Evo deverá ser preso. Conforme emergem novos líderes, também surgem tantos outros dispostos a normalizar e dar racionalidade às narrativas absurdas que explicam como chegaram lá. Há filas de analistas “sóbrios” no Brasil aguardando a oportunidade de avaliarem “o que muda” com o Congresso fechado, com a Amazônia derrubada, com o pré-sal doado, etc. E assim segue o jogo.

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9 comentários

  1. Toda região está sendo levada para um conflito generalizado, por etno-político e do centro para a periferia, talvez para justificar o acionamento de um mecanismo americano para reposição da segurança

    desconfiem da coincidência com os crimes ambientais, inclusive, e principalmente, no Brasil, pois o mecanismo foi criado com esta desculpa ou pela necessidade de uso com apoio local e global

    em tese ainda, mas pode vir a ser uma jogada militar americana das mais sujas que já se viu

  2. em tempo…
    sobre falsos mecanismos de reposição da segurança, por aqui já temos Bolsonaro a vasculhar a lei de segurança nacional para usar contra o Lula, como se de influência respeitosa, crescente e bíblica

  3. Nassif, deveria ser o momento da mídia hegemônica brasileira se posicionar firmemente contra o golpe miliciano-evangélico na Bolívia, sob o risco de pavimentar o caminho aqui no Brasil dessas forças já nada modestas. Estão dando uma carta branca para uma nova ditadura no Brasil (e uma ditadura mais violenta, fanática e sem comando que a de 64). Se a mídia hegemônica continuar naturalizando golpes de Estado, nunca mais teremos uma eleição tranquila nesse país. Lembrando que um golpe envolvendo eleições foi tentando recentemente quando Aécio Neves tentou aplicar aqui o caô da fraude eleitoral, que não pegou, pois o sujeito já não gozava de muita credibilidade e nem tinha apoio dos fanáticos religiosos. É urgente que as associações de classe de jornalista se reunam e se manifestem de forma ampla exigindo responsabilidade da mídia hegemônica e seus jornalistas.

  4. Toda disputa pelo poder ou é uma guerra ou é um jogo combinado, uma marmelada. Ou, mesmo quando combinado, se houver alguma alteração no “meio-ambiente” vira guerra. Nossa alteração precipitadora foi o contexto geopolítico.
    Isso de ficar olhando para a direita e clamar pela observância das regras democráticas tem o mesmo efeito da vítima que implora, estando nas mãos de um sádico. Melhor seria ficar calada.
    A direita finge que acredita nessa presepada que chamamos democracia enquanto está ganhando o jogo, quando perde passa a conspirar imediatamente.

  5. 4) A questão técnica central, que era a existência de fraude no processo eleitoral, pouco foi tratada. A OEA trouxe uma auditoria preliminar ainda ontem. […] A OEA, algumas horas antes da renúncia de Evo, recomendava a realização de novas eleições, COM A MANUTENÇÃO DE TODOS OS ATORES POLÍTICOS – INCLUSIVE EVO- EM SEUS CARGOS >>> essa informação é errada. No relatório da OEA, no penúltimo parágrafo há uma sugestão de que a eleição não mantenha os mesmos candidatos. O link para o relatório e uma matéria sobre o mesmo se encontra aqui: http://m.la-razon.com/nacional/animal_electoral/bolivia-elecciones-informe-oea-irregularidades-manipulacion_0_3255274450.html

  6. 4) […] COM A MANUTENÇÃO DE TODOS OS ATORES POLÍTICOS – INCLUSIVE EVO- EM SEUS CARGOS. >>> FALSO! : No relatório da OEA, no penúltimo parágrafo há uma sugestão de que a eleição não mantenha os mesmos candidatos. O link para o relatório e uma matéria sobre o mesmo se encontra aqui: http://m.la-razon.com/nacional/animal_electoral/bolivia-elecciones-informe-oea-irregularidades-manipulacion_0_3255274450.html

    Ainda assim, é escancarado que a Bolivia sofreu um golpe de estado

  7. “1) O fato de Evo Morales ter se equivocado em se candidatar para nova reeleição não autoriza ou dá legitimidade a que forças da oposição tomem o poder à força. No caso em questão, não se trata apenas de responder uma violação constitucional com outra, mas sim de fazê-lo com base em violência pura e simples.”

    Evo deu um golpe ao descumprir a proibição (reiterada em plebiscito) de se candidatar pela quarta vez. Tentou dar outro golpe ao fraudar a apuração. Ao violar as regras duas vezes ele aumentou a tensão e abriu a porteira da irregularidade. O que ele queria? Que só ele quebrasse a norma e nada acontecesse quando isso não desse certo? Que só ele batesse e os outros se limitassem a tentar se defender? Ele usou as suas armas, o controle do STF e do TSE de lá. Os outros usaram as deles.

  8. *Bolívia, um golpe num fim de semana* ? 
    É para se pensar. Como é que em rápida sequência policiais se juntam à manifestação da oposição contraria ao resultado da eleição. Isto funciona como um sinal.
    Evo (@EvoEsPueblo) Morales e uma longa cadeia nacional e constitucional de comando é obrigada a renunciar sob todas as ameaças possíveis (como se podem ver nos vídeos em que a casa de sua família é devastada na presença dos familiares).
    Isto demanda grupos operativos bem organizados e instruídos.
    Paramilitares tem repetido a dose em casas de governadores e líderes sociais. Entre outros vídeos prefeita humilhada publicamente, comissão eleitoral destituída com requintes de brutalidade e por aí vai. 
    No milhão de km2 da Bolívia ocorrem atropelos nas cidades principais. Querem aterrorizar. 
    Quem vai negar que isto não foi organizado e planejado no detalhe ?
    Já há luta e resistência. Em La Paz, no bairro El Alto os movimentos sociais respondem  com organização e ações defensivas do território. E haverá mais.
    No exterior a solidariedade se organiza.

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