Brios, por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Alguém confiaria na isenção da PF, até ontem subordinada ao Moro, para apurar uma eventual denunciação caluniosa do ex-ministro ou os crimes imputados ao presidente?

Foto Revista Cariri

Brios

por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Compulsivo, Moro mentiu. No processo contra Lula apenas se superou na mendacidade. Devemos exigir provas. E periciá-las. Moro mente. Foi ouvido por procuradores do MPF, um órgão incompatível com a ordem democrática, onde a quase totalidade de seus membros integra o que denomino como Direita Concursada, e por quatro delegados. A procuradoria da república e a Polícia Federal não são flores que se cheirem. Alguém confiaria na isenção da PF, até ontem subordinada ao Moro, para apurar uma eventual denunciação caluniosa do ex-ministro ou os crimes imputados ao presidente? Moro mente, os Bolsonaros mentem, mas a PF jamais admitiria tais fatos. Nem o MPF. Ou já esqueceram das revelações da VazaJato e das relações obscenas entre a magistratura e a procuradoria?

A apuração foi autorizada pelo stf. E daí? A pergunta do jaguara, neste caso, é pertinente. Qual a parte do « com supremo, com tudo » vocês esqueceram? O processo que tiraria Lula da injusta prisão foi retirado quantas vezes de pauta no stf? Basta lembrar do recente julgamento que, contra o que está escrito na Constituição, decidiu não ser obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações de redução salarial para compreender o papel do supremo na concentração de renda.

A Globo está em cima! Jura? Em qual momento esses canalhas recuperaram a credibilidade? A grande imprensa foi determinante no Golpe de 2016 e na demonização do PT e da esquerda.

Então quer dizer que Bolsonaro tem razão? Óbvio que não. Esse sujeito é um psicopata autoritário que se elegeu com base em mentiras, está enrolado em meio a verossímeis denúncias e, provavelmente, também mente neste episódio, como mentiu durante a campanha. Como Moro, o presidente e seus filhos milicianos são mendazes. Farinha do mesmo saco.

As instituições, desde o golpe, deixaram de funcionar. Vivemos um simulacro de democracia. O estado capitalista e suas instituições apodreceram. De nenhuma delas se pode esperar grande coisa. São bananeira que já deu cacho.

O que experimentamos no Brasil é um capitalismo sem filtros ou retoques. Os empresários mandam e desmandam com a soberba dos que se creem inexpugnáveis. Estão pouco se importando com a previsível morte de dezenas de milhares de pessoas em decorrência de sua irresponsabilidade quanto ao isolamento social. Vivemos a agudização da luta de classes, deles contra nós.

O Direito, no Brasil, morreu. De morte matada. Quanto tempo demoraremos para entender que a raiz de todos os problemas está nas injustas relações de produção? Não estamos em uma crise política passível de resolução segundo as regras da política (o que quer que isso signifique). Vivemos uma crise na maneira capitalista de existir em sociedade. O inimigo da classe trabalhadora é o capitalismo. Bolsonaro não é a causa, mas a consequência de um determinado modo de vida. Que tal um pouquinho de ousadia e vergonha na cara? Que tal nos concentrarmos na crítica aos patrões, à propriedade privada dos meios de produção, ao Estado e às suas instituições? Quem chega antes ao riacho bebe água mais limpa.

O empresariado está acabando com o isolamento social, com o estímulo do psicopata, é verdade, mas quem exige o trabalho dos empregados, quem os põe de joelhos, é o empresariado. Essa classe de vampiros não admite questionamento ao seu direito a explorar e a viver do trabalho alheio, mal remunerado e sem direitos. Não apenas desobedece as orientações da OMS, como se mobiliza contra os governos estaduais e municipais que tentam manter um mínimo de isolamento social. O jaguara apenas verbaliza o que é exigido pelos empresários.

E o que faz a parcela da esquerda? Poupa o empresariado e o capitalismo e escolhe criticar apenas o presidente. Ou, no máximo, assume um etapismo injustificável: primeiro a gente tira o Bolsonaro, depois a gente enfrenta o resto. Essa postura influencia os movimentos sociais para que renunciem aos compromissos com o socialismo ao defender uma ampla aliança com os demais setores da oposição, sem radicalização. Aos militantes mais antigos talvez essa postura soe familiar. Foi assim no final da ditadura. Os setores pequeno-burgueses da oposição criticavam a criação do PT e a fundação da CUT, classista, socialista e pela base. Defendiam a unidade de todos, sem sequer mencionar os privilégios das classes dominantes, para só depois – um dia, quem sabe – partir para a organização da classe trabalhadora. Esses mesmos seguimentos da oposição fizeram corpo mole na luta pelas Diretas-Já e aceitaram participar do colégio eleitoral na expectativa de um grande pacto social. A esquerda resistiu, reafirmou seus compromissos socialistas, apesar do vacilo de parte da esquerda pequeno-burguesa. Mesmo com a adesão e da colaboração destes com os interesses do patronato conquistamos a constituinte e disputamos o segundo turno das eleições presidenciais de 1989.

Onde anda aquela esquerda classista? Onde se escondem nossos ideais igualitaristas? Sucumbiremos todos à falácia da « unidade das oposições » e ao etapismo? Os interesses dos trabalhadores são antagônicos aos daqueles com quem quererem nos empurrar, goela a baixo, uma aliança « tática ». Só recuperaremos o protagonismo e a direção da classe trabalhadora se tivermos uma utopia para seduzi-la, um projeto alternativo de maneira de existir em sociedade que se oponha, frontal, decidida (« terrivelmente » socialista), à destruição de direitos.

A nudez do capitalismo foi diagnosticada por Lula em seu pronunciamento no primeiro de maio. Quem está viabilizando, por ganância, o fim do isolamento é o empresariado. Os patrões são os responsáveis pelas mortes que ocorrerão dentro de poucas semanas como consequência da reabertura parcial do comércio, serviços e indústrias não essenciais. E vamos continuar a poupá-los? Vamos fingir que Bolsonaro é o problema? Muitos trabalhadores, sabemos, apoiam o presidente e aderem aos interesses do patronato. São milhões. Todavia, não disputaremos suas (falsas) consciências sem nos confrontarmos com o capitalismo, com a maneira de existir em sociedade que o caracteriza, com o estado capitalista e suas instituições. Tenhamos vergonha na cara. Para onde foram nossos brios e nossa altivez?

Não nos rebaixamos dissimulando nossas opiniões e nossos fins. Proclamemos abertamente que nossos objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. A pandemia nos demonstrou a centralidade do trabalho na atualidade brasileira e que as classes dominantes tremem à idéia de uma transformação da sociedade. Os trabalhadores e as trabalhadoras depois das reformas neoliberais, trabalhista e previdenciária, nada têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Soa novamente familiar? Pois é.

#ForaCapitalismo

Wilson Ramos Filho (Xixo), é doutor em direito, professor de Direito do trabalho (UFPR), preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora

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2 comentários

  1. Se continuarmos piscando, Bolsonaro vai até o fim de seu mandato e ainda teremos eleições bem dificeis em 20, sem nenhuma certeza de que a esquerda voltara ao poder.

  2. Acho interessante essa tática do poder em quebrar sistemas de governo em pedaços tão agudos que ferem o povo de morte. Morte de suas consciências em primeiro lugar, e aos feridos, uma prática de se esquivar para sobreviver.
    Ontem, quando aqueles da “imprensa livre” pegaram as imagens do Lula e da Dilma, enforcaram, jogaram lama, estupraram, queimaram em praça pública, jogaram nos esgotos literalmente e junto destruiram a memória de tudo de bom que fizeram para o povo, quem viu e se doeu, chegou a pensar que uma intervenção, ainda que breve, que calasse a imprensa até que ela alcançasse o limite da decência poderia ser benéfica.
    E mudou-se o discurso, anunciou-se “a decência, a família e os bons costumes”.
    A família, os bons costumes vieram a tiros, com jejuns, orações, mentiras e muita hipocrisia.
    Lula e Dilma foram, afinal enterrados, o que era dividido subdividiu-se e o mal voltou a crescer.
    Agora, com a “imprensa livre”, temos o grande confronto entre o verdugo da “velha política” – o moro – e o instaurador da “nova política”, nosso grande e desqualificado governante e num governo em pedaços temos que escolher o pedaço menos pontiagudo: ou moro derruba bolsonaro com as suas “denúncias” ou bolsonaro enterra moro, o meliante contumaz da toga.
    Ajudaria torcer por alguém?
    Só pela globo, se ela usasse o seu poder “para o bem, apenas para o bem, 99″ (como diria o remasterizado, engraçado e idiota agente 86”)
    Mas, como sabemos, a globo é “o agente da kaos” ou, a agente do caos

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