Caiu de fome, por Santiago Gómez

Caso alguém esteja precisando de um estudante de direito para trabalhar, ou de um ajudante para fazer trabalho de elétrica, instalação de alarmes e sistemas de segurança, Giovanni Silva de Oliveira está precisando muito. O telefone dele é: (11) 93257-5738

Caiu de fome

por Santiago Gómez

Após minha aula de inglês fomos eu, meu professor e amigo beber uma cerveja na lanchonete da esquina de casa, em Pinheiros. Decidimos sentar nas mesas de fora e, assim que chegamos, vimos um moleque de uns vinte anos, encostado na parede, pronto a perder o equilíbrio. Parei para perguntar ele se estava bem. Pareceu não me ouvir. Fechou os olhos, deu dois passos para trás e o segurei; parecia que ia convulsionar. Encostei ele no chão, o garçon tirou a mochila dele, usamos de almofada. O moleque estava de olhos abertos, eu fazia perguntas e ele não respondia. O corpo tenso, as mãos apertadas, parecia que estava tomando choque. Uma batalha estava enfrentando esse rapaz. Pedi uma ambulância, e o jovem começou dizer açúcar, açúcar, meu amigo pediu para os garçons açúcar, colocaram na boca e o jovem começou voltar. 

E demorou para voltar. Estava aturdido, com o corpo mole da fraqueza que tinha tomado conta. Perguntei para quem da família podia ligar, me falou que não tinha ninguém. Veio sozinho de Recife com vinte e um. Sou diabético, falou. Perguntei se tinha a medicação, falou que sim. Tirou da mochila um saquinho, pegou o aparelho para medir glicemia, deu o chute de agulha no dedo, deixou a sangue na fita. 99, falou. Tá muito baixa, disse, e perguntei quanto fazia que não comia. Desde ontem a noite, respondeu. Eram quatro da tarde, o Giovanni, esse é o nome dele, havia passado o dia procurando trabalho em São Paulo. Levava na mão um envelope com currículos e na mochila ferramentas para fazer trabalhos na elétrica. Contou que está há dois meses sem pagar aluguel, e o dono falou que vai botar ele para fora. O que ele quer é alguma coisa ligada ao direito, conseguiu ir para faculdade pelo Prouni. 

Fiquei com uma angustia no peito após ouvi-lo. Puta que pariu, o cara assim por fome! Perguntei para meu amigo se tinha cinquenta reais no bolso, que depois devolvia, mas ele deu a metade. Giovanni falou que não foi para isso que contou a história. “É que o assunto de me tirarem da casa me fez muito mal. Tou com muito medo”, nos disse. Convidamos ele para sentar com a gente e comer, pediu um PF com pouco arroz, disse que muito arroz não era bom para ele. Caminhou muito devagar até a mesa. 

Fome! Desculpem que insista, mas fiquei muito afetado. O cara viveu uma tortura por fome. Porque uma convulsão é uma tortura. Deve comer de três em três horas. Quando soube disso falei: e falavam que com esse governo a coisa melhorava. Esse governo é burro, respondeu Giovanni. Quis saber se tinha lhe acontecido outras vezes, e contou que foi internado aqui em São Paulo. Desmaiou após descer do trem, chegou no hospital em coma, com a glicemia em vinte e um. O médico falou que foi difícil fazer voltar, que num momento acharam que não conseguiriam. Um moleque de vinte e dois anos, acaba no hospital porque não consegue garantir as quatro refeições diárias.  

– Alguma coisa pelo nordeste o Lula fez, né? – disse.

– Lula tirou a gente da fome – falou Giovanni.

Giovanni agradeceu mais de uma vez, algumas chorando. Contou que São Paulo está difícil, que aqui tudo gira em torno da grana. Lá em Olinda a família dele planta mandioca, milho, tem tomate.  Está pensando em vender o saxofone barítono, toca numa Igreja. O menino tentava segurar as lágrimas, mas não conseguia. Mais de um ano sem ver a filha e a mulher. Com um medo terrível de ser despejado. Pensou em voltar para Recife caso o dono deixasse ele na rua. “Mas a grana para a passagem custa quinhentos reais, é quase o mesmo que estou devendo do aluguel”, contou. Aliás, o dono da casa ameaçou ele de ficar com o saxofone, o que deixaria Giovanni sem ter que vender para comprar a passagem de ônibus até Recife. 

Assim que chegou a comida fez uma oração. Enquanto ele almoçava, e nós bebíamos cerveja, Giovanni contou que quase foi na Argentina para um torneio de karatê, falamos para ele procurar também trabalho em academias de artes marciais. Tem que escolher uma coisa e focar, falou para ele meu amigo. Mas o Giovanni está numa situação onde focar está difícil, precisa assegurar um ingresso para garantir os 300 reais de aluguel, e manter sua vida. Contou que já aconteceu do posto de saúde não ter as fitas para medir a glicemia e que teve que comprar do bolso. “O dono da casa pediu para eu dar a geladeira em pagamento do aluguel. Eu falei que não posso, preciso para guardar a insulina. Falei para ele que vou pagar, daqui a um mês começa cair minha bolsa”, disse para nós.

Assim que conseguiu se recompor, Giovanni disse que precisava continuar entregando currículos, tentando conseguir um bico até o final do dia, e que iria comprar balas com os cinquenta reais para vender no metrô de caminho a casa. Tomara não tenha sido pego pelos guardas. Falei para ele não voltar para Recife, que teve a oportunidade de estudar, que iria se formar. “Meu pai falou: não volta sem o anel de doutor”, disse e seus olhos se encheram de lágrimas. Conversamos mais um pouco, quando acalmou de novo nos despedimos.

Fome. O Giovanni quase morreu uma vez por fome. O Giovanni apaga na rua por fome. Não interessa se são dois dias, três dias, quatro ou doze horas que uma pessoa passa fome, que uma pessoa não consegue garantir as quatro refeições diárias. Isso no Brasil fazia anos que não acontecia. E não estamos falando da fome no nordeste. Estamos falando de fome em São Paulo. A vida desse moleque fica em risco se passa muitas horas sem comer. E se acontecer de novo que o posto não tem as fitas para ele e ele sem grana no bolso? 

Caso alguém esteja precisando de um estudante de direito para trabalhar, ou de um ajudante para fazer trabalho de elétrica, instalação de alarmes e sistemas de segurança, Giovanni Silva de Oliveira está precisando muito. O telefone dele é: (11) 93257-5738. Seu email é keshestene1@outlook.com.

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3 comentários

    • Oi Flávio. É o e-mail que ele tem no currículo. Acho que o problema pode estar em que na matéria o e-mail acaba com um ponto (.). Se tirar funciona? Eu mandei e-mail para ele e não voltou.

    • Flávio, boa noite. Tentou enviar o e-mail sem o ponto final, após o .com? Eu mandei e-mail para ele e não voltou não.

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