Cansada dos pregadores do ódio, por Arnaldo Cardoso

Foi com esta avaliação que o ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi sintetizou a situação da Itália – “cansada dos pregadores do ódio” – em entrevista ao jornal El País

Cansada dos pregadores do ódio

por Arnaldo Cardoso

Foi com esta avaliação que o ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi sintetizou a situação da Itália – “cansada dos pregadores do ódio” – em entrevista ao jornal El País, tendo em perspectiva o caos provocado pelo movimento ardiloso e autoritário de Matteo Salvini, ministro do Interior do país, que unilateralmente implodiu a aliança com o M5S que governa o país desde 2018.

A sequência de atos de Salvini a partir da tarde do último dia oito revelou muito de sua personalidade e modo como vê a política: i) desprezando as atribuições constitucionais que reservam ao Presidente da República o poder para dissolver o Parlamento e convocar novas eleições; ii) agindo de forma traiçoeira surpreendendo seu sócio de aliança política, o vice-primeiro ministro Luigi Di Maio do M5S; iii) iniciando precipitada campanha em meio à crise que provocou, falando em comício na cidade de Pescara, “diretamente com o povo”, “sem intermediação”, sobre a necessidade de novas eleições e formação de um novo governo, sob seu comando; e mais uma vez, deixou explícita sua estratégia, muito explorada durante o pleito de março de 2018, de promover o caos e desinformação para conduzir suas ações. 

Com esse arriscado movimento Salvini tenta escapar da necessária explicação aos italianos do fracasso do governo que, sob sua liderança, não realizou nenhuma das promessas de campanha e agravou a séria crise econômica e política em que se encontra a Itália além de provocar um crescente isolamento do país no espaço europeu.

A sucessão de ataques aos opositores, perseguição aos intelectuais e universidades, desprezo pela cultura, incitamento ao ódio aos imigrantes, seguidas declarações racistas, compuseram o estilo salvinista no trato cotidiano da política, apostando nisto para a manutenção da coesão entre seus seguidores, desiludidos com os resultados da política institucional em mitigar os efeitos negativos da globalização econômica.  

Embora as pesquisas mostrem que Salvini ainda conta com apoio de cerca de 36% dos eleitores italianos, diversos analistas acreditam que uma maioria farta da política voluntarista, divisionista e de pregação do ódio conduzida por Salvini, está disposta a derrotá-lo em novas investidas políticas do líder da Liga que não se mostra capaz de apresentar e liderar projetos viáveis para a recuperação econômica do país e promoção da estabilidade política e social.

Os próximos dias serão de tensão na Itália e apreensão em toda a Europa. Às forças políticas do país que reúnem partidos do centro à esquerda do espectro político caberá a responsabilidade de, reconhecendo a gravidade da situação, restabelecer pelos meios da Constituição italiana um clima que permita às instituições políticas do país corrigir os descaminhos que a aventura fascista do líder da Liga levou a Itália a percorrer.

Que a avaliação de Renzi identificando o cansaço da Itália com os “pregadores do ódio” esteja certa e que o desfecho dessa grave crise abra novos caminhos para a Itália e sirva de exemplo para nações que se encontram sob governos de tipo semelhante. 

Como ensinou um conhecido pensador político florentino do século 16, a ordem nunca será definitiva pois, como produto necessário da política, sempre dependerá de processos de aprimoramento empreendidos pelos homens, tendo por fim último evitar o caos e a barbárie. E, recorrendo à história como fonte de aprendizado, é certo que o ímpeto voluntarista de salvadores da pátria sempre provocou mais tragédias que redenções.

Arnaldo Cardoso, cientista político e professor universitário.

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