Capitalismo Financeiro como Sistema Complexo e Dinâmico, por Fernando Nogueira da Costa

Segundo Edgar Morin, a segunda coisa necessária para esse entendimento do mundo real é reconhecer a ambivalência: quando um processo apresenta dois aspectos de valores diferentes e às vezes contrários, é ambivalente.

Max Ernst

Capitalismo Financeiro como Sistema Complexo e Dinâmico

por Fernando Nogueira da Costa

Louvadores de O Mercado o tratam como um ser sobrenatural, porque estaria onipresente em todas as relações humanas, estando nele incrustrada a sociedade. No desejado por eles, tudo é precificado. Assim, quem nele se enriquecer torna-se onipotente. Pode comprar tudo e todos. Glória máxima a O Mercado como um Deus, aleluia, é ele ser também onisciente. Sabe tudo!

Nesse sentido, seguindo a seta do tempo, seus representantes videntes adivinham o futuro e o antecipam com certeza absoluta. Demonstram-na em todas as profecias de início de ano. Infelizmente, em todos anos, choques aleatórios e exógenos a O Mercado, pelos quais obviamente ele não é culpado, não permitem suas confirmações. Isso escapa à sua onipotência. Há uma contradição lógica entre essa e a onisciência.

Os crentes não percebem sua ambiguidade, isto é, o fato de uma realidade, pessoa ou sociedade se apresentar sob o aspecto de duas verdades diferentes ou contrárias, ou mesmo duas faces. Ninguém sabe qual é a verdadeira. O senso da ambiguidade é perceber o ser humano e a sociedade humana trazer em si o melhor e o pior.

Segundo Edgar Morin, a segunda coisa necessária para esse entendimento do mundo real é reconhecer a ambivalência: quando um processo apresenta dois aspectos de valores diferentes e às vezes contrários, é ambivalente. Por exemplo, o capitalismo explora a força do trabalho, por um lado, mas propicia barganha e direitos aos assalariados não disponíveis antes aos escravos. Outro exemplo, a globalização consagra a hegemonia de O Mercado em escala planetária, mas permite a retomada da prosperidade na Ásia, perdida há séculos, e tira milhares da miséria na China e na Índia.

“É preciso ter sensibilidade para as contradições: quando chegamos, pelo estudo e pela análise, a duas verdades contraditórias, nosso hábito lógico consiste em mudar de raciocínio para eliminar a contradição. O que ocorre não apenas nos problemas políticos e sociais, mas também na Física. É preciso assumir e transcender as contradições”.

A inadequação, sentida por nós, se dá entre nossos saberes especializados, compartimentados entre disciplinas, e entre os problemas multidimensionais, transnacionais, globais, planetários. A divisão das disciplinas nos torna incapazes de apreender a complexidade global. Emerge das interações e retroações entre os processos econômicos, políticos, religiosos, demográficos, científicos, técnicos, etc.

Os especialistas de O Mercado têm o pensamento muito compartimentado. Os economistas-chefe, ao enxergarem apenas a dimensão econômica, encontram muita dificuldade para entender as relações entre ela e as demais dimensões. Ao separar sua área de atividade, parcializam a complexidade do mundo e diminuem as chances de compreensão e reflexão. Daí a incapacidade para analisar a crise brasileira.

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O conhecimento pertinente é capaz de situar todas informações em contexto político, social e psicológico. Concebe simultaneamente a retroação – um fenômeno circular, no qual o próprio efeito atua sobre a causa – e a recursão – um processo onde os efeitos retroalimentam suas causas.

Diz Edgar Morin: “se não houver essas múltiplas sensibilidades para a ambiguidade, para a ambivalência (ou a contradição), para a complexidade, será muito pequena a capacidade de entender o sentido dos acontecimentos. A compreensão humana comporta o entendimento não só da complexidade do ser humano, mas também das condições onde são modeladas as mentalidades e praticadas as ações.”

Para entender o capitalismo financeiro como um sistema complexo é necessário, por exemplo, compreender as interações entre o multiplicador de fluxo de renda e o de estoque acumulados de ativos, entre os quais, a forma de manutenção de riqueza mais líquida: a moeda. Pelo efeito multiplicador, um aumento nos investimentos gera um aumento proporcionalmente maior na renda.

O sistema bancário cria moeda através do multiplicador monetário. Quando um banco faz um empréstimo, ele deposita o valor desse crédito na conta corrente do cliente tomador do financiamento. Se esse cliente paga renda e seus recebedores depositarem o dinheiro novamente no sistema bancário, este terá reservas emprestáveis no mesmo valor. Caso as rodadas de empréstimos-depósitos-empréstimos prosseguissem sem haver saque de papel-moeda, isto é, algum vazamento do sistema bancário, ou exigência de recolhimento compulsório de uma fração dos depósitos para reserva bancária junto ao Banco Central, o multiplicador seria potencialmente infinito.

O multiplicador de renda é um tipo de multiplicador de gastos. Uma variação em investimento, gasto governamental ou exportações líquidas induz variação no valor agregado (renda composta de salário, lucro, juro e aluguel) superior à variação inicial nos gastos.

Essa variação inicial provoca um incremento primário sobre a renda daqueles agentes econômicos recebedores desses gastos. Eles ampliarão seu consumo, seja com recursos próprios, seja com recursos tomados emprestados de terceiros, de acordo com a propensão marginal a consumir, levando a nova ampliação da renda.

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Os agentes beneficiados por esse incremento secundário também aumentarão seu consumo, provocando novo acréscimo de renda, e assim por diante, na sequência riqueza-crédito-gastos-renda. Por meio dessa multiplicação, as elevações de consumo induzidas pelo gasto inicial fazem, no final, a renda crescer acima da própria variação inicial da despesa.

A leitura pré-keynesiana da macroeconomia keynesiana deduz, matematicamente, o multiplicador ser igual ao inverso da “propensão marginal a poupar”, conforme é denominada pela síntese neoclássica. Significa o multiplicador de gastos autônomos ser inversamente proporcional à fração de retirada (aplicações em outros ativos) por ciclo de gastos, ou seja, à diferença entre a unidade e a fração gasta novamente, devido à propensão marginal a consumir.

Depois de todas as rodadas ou ciclos de gastos, o aumento total na renda será a resultante de todos os gastos em consumo acumulados. Haverá, concomitantemente, aumento no total de aplicações em ativos financeiros usados como lastros ou passivos bancários dos empréstimos efetuados pelos bancos para alavancar os gastos, seja em consumo, seja em investimento.

Para os bancos, havendo demanda por endividamento dentro das condições exigidas (juros precificando o risco de perda e garantias colaterais), novos empréstimos são concedidos. Se isso não ocorrer, são feitas aplicações financeiras em carteiras de títulos e valores mobiliários.

O setor bancário tem de oferecer produtos financeiros com prazos adequados para administrar os hiatos de durations, existentes entre os prazos médios ponderados (pelos valores presentes relativos dos fluxos de caixa) de vencimentos de seus ativos e passivos. É necessário articular os conceitos dinâmicos de multiplicador de gastos e de moeda, para entender como renda e funding são multiplicados, paralelamente, ao longo do tempo futuro. Trata-se de um processo dinâmico de retroalimentação.

Economistas formados na ortodoxia pré-keynesiana adotam a Lei de Say, talvez inconscientemente, sem desconfiar do malfeito à sua reputação e aos outros. Ao crer a oferta criar a própria demanda, o financiamento ao investimento só poderia ocorrer, de modo a manter o imaginário equilíbrio entre oferta e demanda agregada, via uma intermediação financeira neutra. Por ela os bancos canalizariam exatamente “a poupança” (sobra do fluxo de renda não gasto em consumo) para o investimento.

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Qualquer crédito a mais desequilibraria a demanda além da oferta, provocando inflação e, em consequência, uma “poupança forçada”: menor consumo pela perda de poder aquisitivo. Por isso, a ortodoxia abomina crédito e, em especial, bancos públicos!

Os bancos públicos são instrumentos-chave para concessão de crédito direcionado de modo o país sair da atual recessão econômica. Porém, com a deficiência na Razão de Alavancagem (relação entre o patrimônio de referência e a exposição total em ativos), permanecerão inertes. Não há política de crédito nesse (des)governo. Só incentiva o mercado de capitais com uma taxa de juro básica praticamente zerada em termos reais.

Em termos de custo fiscal e orçamentos governamentais, as instituições financeiras públicas federais podem “fazer mais por menos”: até nove vezes mais, grosso modo, se a exigência de capital fosse 11% do total de ativos (sem os ponderar por riscos), e comparando com o valor em dinheiro necessário para executar diretamente políticas públicas. Rende mais a mesma quantidade de recursos capitalizar os bancos públicos para fazer empréstimos e tomar depósitos. Essas instituições poderiam gerar políticas públicas cujo gasto efetivo sairia por cerca de 10% do custo de oportunidade fiscal.

Os fiscalistas ortodoxos, representantes de O Mercado na equipe econômica do ex-banqueiro de negócios travestido de todo-poderoso ministro da Economia, não se apresentam como economistas bem formados, agindo para criar um futuro dinâmico na economia brasileira. Agem como meros contabilistas preocupados apenas com o equilíbrio permanente no Orçamento Geral da União. É lamentável a indiferença deles quanto à estagnação e ao imenso desemprego vigentes atualmente.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Ciclo: Intervalo entre Duas Crises” (2019; download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/).

E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

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