Caso Moro/Intercept: Sobre hackers, jornalistas e a informação fluida, por Carlos Castilho

O caso Moro/Intercept colocou em evidência a necessidade de incorporarmos ao nosso quotidiano procedimentos como o da leitura crítica como uma forma de minimizar dúvidas e insegurança informativas

do ObjETHOS 

Caso Moro/Intercept: Sobre hackers, jornalistas e a informação fluida

por Carlos Castilho*

A batalha de versões e contra versões  surgida após a publicação de conversas do ministro Sergio Moro no site da organização jornalística Intercept, colocou todos nós dentro de um redemoinho noticioso que é parte de um fenômeno definido como informação fluida. Trata-se de uma situação inédita que gera  uma grande insegurança informativa na maioria das pessoas ao tornar imprecisos os limites entre o que pode ser considerado verdadeiro ou falso no noticiário jornalístico.

O caso Moro/Intercept colocou em evidência a necessidade de  incorporarmos ao nosso quotidiano procedimentos como o da leitura crítica como uma forma de minimizar dúvidas e insegurança informativas provocadas pela multiplicidade de versões contraditórias cada vez mais apoiadas em questões tecnológicas sofisticadas.  Leitura crítica pode ser definida, grosso modo, como a preocupação em questionar o contexto, credibilidade, relevância e exatidão de notícias publicadas na imprensa.

Sempre houve guerra de informações durante confrontos das mais diversas naturezas e objetivos. Mas o que estamos assistindo hoje não tem precedentes históricos face o volume e diversidade dos dados, fatos e eventos mencionados pelas partes em conflito.  Além disso,  a crescente complexidade dos processos de produção destes mesmos dados, fatos e eventos, aprofunda o fosso cognitivo entre os que manejam  tecnologias de ponta e a esmagadora maioria da população mundial, que recém está entrando na era digital.

O material publicado pelo Intercept  levou os defensores da operação Lava Jato a identificar hackers e jornalistas como parte de uma estratégia para questionar a credibilidade dos dados, fatos e eventos relacionados aos contatos do então juiz federal, Sergio Moro, com procuradores pertencentes ao grupo que ficou conhecido como “República de Curitiba”.

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Acontece que um hacker (programador digital ultra especializado)  produz dados a partir de buscas legais ou ilegais na internet, enquanto o jornalista publica material considerado de interesse da sociedade.  São duas atividades diferentes, onde o hacker pode ser questionado legalmente sobre as formas como obteve os dados, enquanto o jornalista está protegido pelo direito legal de não divulgar suas fontes. É claro que o jornalista está condicionado pela obrigação ética e moral de só publicar material de fontes com credibilidade.

A estratégia de buscar o descrédito das revelações que abalaram a popularidade do ministro Sergio Moro, levou os lideres da “República de Curitiba” e alguns veículos de imprensa do eixo Rio/São Paulo/Brasília a classificar o Intercept como um site e não como uma organização jornalística na internet. O objetivo é induzir o público a ver o Intercept como um grupo político, com interesses próprios,  em vez de uma página informativa , apartidária, empenhada em  alimentar o debate público.

São elementos de uma guerra informativa para condicionar formas de ver uma realidade, que é cada vez mais complexa diante do o crescimento espantoso do volume e diversidade de dados, fatos e eventos colocados à  disposição das pessoas por meio das redes sociais na internet.

Quando o governo e os defensores da operação Lava Jato tentam levar a agenda de debates a se concentrar na questão dos hackers, surgem inúmeras questões tecnológicas envolvendo operações digitais de alta complexidade com uma enorme variedade de alternativas possíveis. Um exemplo disto é a preocupação dos seguidores do ministro Moro em levantar a hipótese de edição do conteúdo das conversas por meio da alteração do software do aplicativo Telegram.

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Esta alteração é teoricamente possível  mas só um debate técnico muito complexo pode estabelecer se ela ocorreu ou não. Questões como esta são jogadas para uma opinião pública com escassos conhecimentos sobre o mundo cibernético e que ainda não entende a mudança de normas e valores comportamentais e éticos gerados pelas novas tecnologias de informação e comunicação.

As incertezas e a desorientação que afetam um número cada vez maior de pessoas são características de uma situação nova criada pela inadequação dos conceitos tradicionais de verdade e falsidade vigentes até agora em nossa sociedade.  Estamos começando a viver uma realidade onde estamos sendo levados pela tecnologia digital a descobrir que está cada vez mais complicado tomar decisões baseadas apenas em dois polos, como legal ou ilegal, justo ou injusto. Há dezenas e até centenas de percepções intermediárias sobre um mesmo dado, fato ou evento, cuja relevância varia de acordo com cada indivíduo.

É o que já está sendo chamado de “informação fluida”, ou seja, ela muda, evolui, se transforma de acordo com a intensidade e diversidade dos fluxos noticiosos a que uma pessoa, ou grupo de pessoas, tem acesso.  Não é fácil  passar da segurança  de uma visão de mundo baseada apenas na escolha entre certo ou errado para um ambiente onde prevalece a insegurança causada pela existência de várias possibilidades de certezas ou erros.

O caso das conversas do ministro Sergio Moro envolve inúmeras questões e posturas que devem ser analisadas separadamente, mas sem desvinculá-las do contexto geral.  O que foi publicado pelo Intercept está rigorosamente dentro dos princípios jornalísticos ao divulgar conversas que são de extremo interesse social, logo merecem ser discutidas pela população, porque  interferem na forma como o poder político é exercido pelo governo federal.

Cabe aos hackers explicar como e porque eles acessaram conversas entre um juiz e promotores, feitas através do aplicativo Telegram.  Se houver alguma violação de leis, cabe o julgamento dos acusados. É evidente que os personagens cujos segredos e ações foram expostos ao publico vão tratar de enviesar o debate para tentar minimizar o desgaste político provocado pela exposição pública de atos em desacordo com as normas constitucionais.

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Mas o grande protagonista em todo este affair  é a população, que tem a sua disposição, graças a um grupo de jornalistas independentes, a possibilidade de avaliar a conduta do ministro Moro e dos procuradores da “República de Curitiba”, visando recolocar o combate à corrupção institucionalizada dentro de adequados parâmetros éticos e legais. O mérito inegável do Intercept é ter tornado isto possível.

*Carlos Castilho é pós-doutorado em Comunicação e Informação, pesquisador associado ao objETHOS

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8 comentários

  1. O sociólogo Sérgio Amadeu deu uma esclarecedora entrevista ao canal do youtube À Esquerda. Sendo um especialista e estudiosos de internet, software e sistemas digitais, trouxe importantes informações. Inclusive ele cita algo que o Nassif colocou em vídeo recente, sobre o fatídico twitter do general Vilas Boas ao STF e lido pelo JN. Ele menciona que o twitter foi postado minutos antes (deu a hora certa) da edição do JN, dando a suspeitar, já que não dava tempo para ele viralizar, a cerca da possibilidade de combinação.

    https://www.youtube.com/watch?v=PswhFaHN5vI

  2. Não é tão complexo assim. O que define é a credibilidade de cada um.

    Uma revista cujo editor é parceiro de um bicheiro e que invade apartamento, nào tem credibilidade.

    Uma tv que dá destaque para manifestações com 100 pessoas ignora com 10.000, não tem credibilidade.

    Ninguém precisa ter phdeus em informática.

  3. Do ponto de vista jurídico não há dúvida. O jornalista não deve ser perseguido por exercer a prerrogativa outorgada a ele pela CF/88. Se for ilícita a prova não vale contra Deltan e Moro, mas essa questão é irrelevante no caso de Lula. Qualquer prova é válida em benefício do réu.

  4. O Telegram afirma que não houve “haqueamento”; o Intercept não menciona “haqueamento”; Até agora nenhuma notícia do tal “Hacker”. Não tenho nenhuma formação que me permita afirmar o que segue. É palpite de leigo: Se o vazamento foi feito por alguém que participava do grupo e, esse grupo não tinha nenhum condicionamento que proibisse a divulgação do seu conteúdo, esse participante está isento de qualquer culpabilidade pela veiculação do material, que esta contido em um arquivo compartilhado pelos aparelhos próprios de cada membro. Penso eu.

  5. Credibilidade é tudo…
    tanto é que, ao longo da história, todos os agentes comandados precisaram de uma rede de comunicações como a Globo, por exemplo

    mesmo que nada sofisticada, só com poder de influência em todas as instituições, o que lhe garante rapidez na resposta

    zero de interpretações jornalísticas, só respostas direcionadas, sugestões

  6. legal, denúncia da vaza-jato devolve o
    discurso à maioria que estava mais pra
    silenciosa e com medo de expressar sua indignação,
    sua perplexidade, seu desanimo diante do
    que parecia inexplicavel,
    obscuro,
    infame
    etc
    etc….

  7. Mas o grande protagonista em todo este affair é a população, que tem a sua disposição, graças a um grupo de jornalistas independentes, a possibilidade de avaliar a conduta do ministro Moro e dos procuradores da “República de Curitiba”, visando recolocar o combate à corrupção institucionalizada dentro de adequados parâmetros éticos e legais. O mérito inegável do Intercept é ter tornado isto possível.
    desfecho perfeito….

  8. ninguém quer ter sua privacidade violada – não por outro motivo, trata-se de direito fundamental da pessoa; a afirmação de que o hacker, no caso, é o criminoso tem por premissa não ser ele ligado ao “intercept”; afirmação que, por ora, carece de segurança; aliás, imaginem se hacker é um alguém com semelhante capacidade de romper um serviço russo e localizar troca de mensagens entre os aludidos servidores; e o Bessias, alguém acredita na lisura de tal situação? como uma presidente da republica pode fazer ou pretender fazer aquilo? por que tanto gritaram os que viram no vazamento ato ilícito, que agora acham licito? e vice-versa! são nosso reflexo, um país violento, corrupto e judiado; arbitrário e injusto; um dado comum a todos: 11 milhões de analfabetos

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