“Chamem a cavalaria!”, gritam os democratas, por Flavio Lobo

Trump tornou-se o único presidente dos EUA, na vida política contemporânea, a fomentar aberta e amplamente o descrédito em relação ao mecanismo fundamental de legitimação de todo o sistema democrático.

“Chamem a cavalaria!”, gritam os democratas

por Flavio Lobo

A crença na solidez da “grande democracia americana” pode nos impedir de enxergar fraturas profundas e riscos crescentes, mesmo quando explícitos.

Indicadores socioeconômicos mostram que a atual pandemia vem reforçando a divisão, ao meio, da sociedade americana. Metade não teve renda, segurança e conforto abalados, e, devido à redução de atividades sociais e de consumo, estão até aumento sua poupança. A outra metade está na miséria, na pobreza ou no fio da navalha, cada vez mais afetada pelo desamparo da falta de emprego, dos empregos precários e da ausência de sistemas públicos e universais ou suficientemente abrangentes de saúde, renda, seguridade e bem-estar social.

Essa rachadura socioeconômica de extensão continental (“de costa a costa”, como eles costumam dizer, referindo-se aos extremos territoriais do país a leste e oeste) é evidência de declínio de um sistema que durante décadas prometia e cumpria o contínuo avanço da prosperidade para a grande maioria dos cidadãos. Sobre esse terreno perigoso, outras importantes rachaduras vêm se explicitando nos âmbitos da ética pública, da cultura e do discurso político.

Donald Trump nunca aceitou o resultado da eleição de 2016 (sim, a mesma que o levou à Casa Branca). Eleito pelo sistema de colégio eleitoral mesmo tendo um menor número total de votos que Hillary Clinton, o atual presidente sempre disse que teria vencido também na simples contagem de todos os votos, o que só não teria acontecido em razão de fraude no sistema de votação. Ao dizer e manter essa posição, Trump tornou-se o único presidente dos EUA, na vida política contemporânea, a fomentar aberta e amplamente o descrédito em relação ao mecanismo fundamental de legitimação de todo o sistema democrático.

O exercício do poder do povo pelo voto e a aceitação do resultado pelas partes e partidos que o disputam não é condição única para a existência e efetividade das democracias liberais, mas é o centro, o coração que sustenta todo o edifício político e institucional. O precedente aberto, disseminado no discurso público e naturalizado pelo líder maior da nação é ao mesmo tempo sintoma e fator de corrosão de um modelo ideológico-identitário construído ao longo de séculos, que inclui, agrega e pacifica, ocultando ou distensionando conflitos sociais.

Um segundo precedente nesse sentido é a recusa de Trump em desempenhar o papel discursivo de grande conciliador nos momentos-chave, nos quais, segundo a lógica tradicional, o rito político-ideológico demanda essa figura e esse discurso.

Reza fórmula consagrada, que, em momentos de grande insegurança ou tragédia e em datas patrióticas, cabe ao presidente emitir mensagem unificadora segundo a qual o pertencimento identitário mais importante, que deve prevalecer diante de grandes desafios, é a americanidade de todos os americanos (mensagem cuja sacralidade era frequentemente reforçada, notadamente nos discursos de Barak Obama, pelo selo final “Deus abençoe os Estados Unidos da América”). Trump inova ao reafirmar e fomentar cisões mesmo nessas ocasiões.

A ideia de que se pode reduzir esse “novo discurso presidencial” a uma personalidade narcisista perversa que acidentalmente chegou à presidência é erro de análise. Trump, como Obama, fez campanha prometendo grandes mudanças em benefício da maioria. Independentemente da avaliação qualitativa dos dois presidentes e de seus governos, e do abismo estilístico que os separa, ambos se limitaram a entregar pequenas frações do prometido. No caso de Trump, as evidências, incluindo resultados de pesquisas de opinião, indicam que o apoio de cerca de 40% da sociedade que o atual presidente detém não se sustenta apesar do seu divisionismo, pelo contrário: é, em grande medida, decorrência dele. Cada vez menos americanos se sentem “em casa” dentro da grande americanidade inclusiva, e isso certamente não se aplica somente aos apoiadores e eleitores de Donald Trump.

Apelo às forças armadas

Hoje, às vésperas da eleição presidencial, diante da evolução das pesquisas de intenção de voto e da constante e explícita aposta do presidente em exercício na deslegitimação preventiva do processo eleitoral, especialmente em relação aos votos pelo correio, a possibilidade de uma iminente crise institucional mostra-se bem real. Descrevi esse possível cenário em um artigo publicado semanas atrás aqui no GGN, intitulado “Colapso da democracia americana torna-se cenário visível” (https://jornalggn.com.br/internacional/colapso-da-democracia-americana-torna-se-cenario-visivel-por-flavio-lobo/).

Nesse contexto, uma formulação surpreendente começa a ganhar visibilidade no debate político-eleitoral dos EUA.

Até agora, conforme tratado acima, o campo das profanações de princípios e tabus da política institucional americana vinha sendo amplamente dominado pelo atual presidente. Nos últimos dias, entretanto, em face das suas declarações reiteradas no sentido de que não se compromete a aceitar o resultado eleitoral de novembro, vozes ligadas ao establishment do Partido Democrata – e mesmo à sua esquerda – começaram a cogitar e debater uma possível intervenção das forças armadas. Há, na mídia, quem defenda que os militares devam exercer esse papel no caso de uma vitória de Joe Biden não reconhecida por Donald Trump.

Meses atrás, discutia-se no Brasil se as nossas Forças Armadas deveriam ou poderiam assumir o papel de arbitrar e resolver conflitos entre instituições democráticas, embates entre Poderes da República. Prosa boa de se desfiar à assombra de frondosas bananeiras carregadas de fruta para exportação, mas incompatível com os rigores civilizacionais lá do norte, não é mesmo?

Por enquanto, os comandantes militares americanos têm feito o que se espera deles numa democracia minimamente digna do nome: nem respondem, desconversam, articulam alguma versão do nosso “me incluam fora dessa” ou dizem com todas as letras que esse não é o seu papel.

Para quem não acompanha de perto a política americana, a cogitação de interferência militar no processo sucessório na Casa Branca deve parecer completamente despropositada (ainda mais na banda mais à esquerda do espectro político). Afinal, o judiciário está lá inclusive para essas eventualidades, ora. Pois é, está sim…

Suprema partidarização

Em 2000, uma Suprema Corte de maioria alinhada ao Partido Republicano deu vitória a Bush Jr contra Al Gore, apesar de o candidato democrata ter obtido mais votos na contagem nacional total e, se aceitas recontagens e conferências, também no colégio eleitoral. Hoje, a mesma corte, já dominada por indicados dos republicanos, está prestes a se inclinar de modo ainda mais desiquilibrado (tanto em relação à divisão do eleitorado quanto da opinião pública em geral) para a direita política, cultural e partidária. Neste momento, Trump e a cúpula do seu partido correm para substituir antes das eleições a recém-falecida juíza progressista Ruth Ginsburg por uma magistrada alinhada à agenda republicana – a já indicada Amy Coney Barrett.

A situação política atual é muito diferente da que havia 20 anos atrás, quando Al Gore e a cúpula do Partido Democrata aceitaram a decisão da Suprema Corte, engolindo uma enorme derrota política, mesmo tendo vencido nas urnas, em nome da solidez da “grande democracia americana”. Caso algo assemelhado aconteça daqui a pouco mais de um mês, o coração do sistema político, já abalado, provavelmente entrará em estado crítico.

Há outros cenários possíveis para as eleições de novembro? Sim, claro. Mas as rachaduras que estão a produzir vislumbres de falhas sistêmicas catastróficas são profundas, e vêm aumentando.

Também cabe lembrar que, como no verso final de Os Homens Ocos, de T.S. Eliot, grande poeta da língua inglesa nascido em St. Louis, Missouri, o colapso de um mundo pode se dar “não com uma explosão, mas um suspiro”. Na história, alguns suspiros duram décadas.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora