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Chega de violência contra mulheres e crianças!, por Dora Incontri

Chega de violência contra mulheres e crianças!, por Dora Incontri

Chega de violência contra mulheres e crianças!, por Dora Incontri

Ontem, no dia da Páscoa em isolamento, tinha me preparado para ficar bem, em sintonia com o sentido espiritual da data, na vibração dos vídeos diários que tenho feito em meu Instagram e Face, para ajudar o povo a ficar mais aliviado nessa quarentena. Poesias, orações, reflexões para reforçar em mim e em quem me vê a sanidade mental em tempos de Coronavírus. Mas a estratégia ontem não funcionou, porque logo cedo, uma amiga querida de Teresina me escreveu abaladíssima, pois uma vizinha do prédio, uma médica de 33 anos, tinha sido assassinada pelo ex-marido, diante da filha pequena… O irmão dessa minha amiga cruzou com o assassino, que levava a menina aos prantos, “quero minha mãe”, para a casa dos avós. Depois de deixar a criança, o homem morreu num acidente de carro, não se sabe ainda se proposital ou não.

Então, me lembrei de todas as notícias terríveis que temos lido a respeito dos feminicídios no Brasil: em 2019, houve um aumento de 7,2, segundo um levantamento feito pela Folha de São Paulo, numa reportagem de 26 de fevereiro desse ano. Reportagens em diversos órgãos de comunicação também revelam que 2 mil crianças no Brasil ficam órfãs anualmente por conta do assassinato das mães e os pais, presos ou mortos (em geral em suicídio depois do homicídio).  2 mil crianças órfãs de pai e mãe e traumatizadas pelo resto da vida, muitas das quais assistiram ao assassinato das próprias mães, pelos pais. Foi o caso dessa menina de Teresina, no prédio de minha amiga.

Que país é esse? Que mundo é esse? Que homens são esses que, enfurecidos, esfaqueiam, golpeiam, ferem de morte companheiras com quem têm ou tiveram um relacionamento supostamente de amor? Como se explica tamanha brutalidade?

Outra notícia alarmante é que a violência doméstica (contra mulheres e crianças) cresceu exponencialmente durante esse período de quarentena, no Brasil e no mundo. Ou seja, o próprio lar é um lugar inseguro. Isso sem mencionar os abusos sexuais contra as crianças, cometidos também por pais, tios, avôs, amigos da família… na semana passada, tivemos a revelação de Marcelo Adnet de ter sido estuprado na infância.

Revolta, perplexidade, horror foram os sentimentos que me tomaram ontem, em pleno dia de Páscoa na quarentena.

E então, buscamos ensaiar explicações, sonhar soluções, arrebanhar alguma esperança para vencer esse estado de brutalidade bestial. E nos remetemos ao patriarcado enraizado há milênios na humanidade, ao sentimento de posse e sujeição que os homens sempre tiveram sobre as mulheres, até pouco tempo na história, apoiados legalmente nessa dominação. Uma das coisas que salta aos olhos no feminicídio é que geralmente são companheiros, maridos, namorados, que não aceitaram um não, que não se conformaram com a separação. Ou seja, o sentimento de propriedade da mulher é avassalador: pega na veia milenar do macho que deposita a sua virilidade na mulher – veja-se o que significa ser “corno”, der “filho da puta”… o homem se sente rebaixado se a mulher exercita sua vontade, seu querer, sua sexualidade… Então, quando ela não quer mais… vem a sentença enfurecida de morte.

É uma formação antiga do que chamamos hoje de masculinidade tóxica: a masculinidade se constitui na própria violência, no sentimento de objetificação do outro, geralmente a criança e a mulher ou ainda na homofobia assassina. Para ser homem, é preciso ser cafajeste, violento, possessivo, homofóbico. É preciso eliminar todo traço de feminilidade existente nele próprio e no outro. O feminino não é respeitado, amado, cuidado, mas é objeto de triunfo, de coisificação. Isso pode aparecer de formas mais brandas, como o homem mais velho, que ostenta a conquista de uma mulher mais jovem e bonita, como querendo mostrar ao mundo que a sua virilidade está ativa e pujante, muitas vezes deixando para trás uma companheira de anos de luta, mas já envelhecida, até a violência de um assassinato que não aceita um não.

Esse conceito distorcido de ser homem, que não pode se emocionar, que não pode ser delicado, cuidadoso, bom – porque bondade é coisa de babaca – é destrutivo para as mulheres, para as crianças e para os próprios homens. Onde estão os assassinos de feminicídio ou os estupradores e abusadores? Ou na cadeia ou mortos, quando não estão foragidos e escondidos.

O problema é que existe uma naturalização dessas relações abusivas e violentas, que tantas vezes resulta em morte, por parte das próprias mulheres. Conheço inúmeras famílias (e isso está em qualquer classe social), em que vai havendo uma reprodução de geração em geração de abusos, violências e opressão. O avô abusou da filha, que não protegeu a neta do mesmo abuso. A mãe que foi espancada pelo pai e a filha que se enfia num relacionamento semelhante e não consegue sair, arriscando a própria vida diariamente. E essa mãe que foi espancada não ajuda a filha a sair de um relacionamento tão violento quanto o que ela viveu. Há um filme muito bonito, Casamento Indiano, que mostra a história de um abusador de mulheres de toda uma família e quando uma delas se revolta, denuncia, é a princípio reprendida por todos, mas consegue reverter a situação.

A psicologia estuda fartamente essa questão, porque o dominador, o abusador, o violento convencem a mulher e a criança, de que elas são as culpadas. A introjeção de uma pretensa culpa e ainda o medo e a vergonha calam a denúncia, impedem a libertação.

A sociedade tem se mobilizado contra essas calamidades, porém, governos misóginos e favoráveis a toda forma de violência parecem autorizar os brutos a serem mais brutos. Quando o antigo deputado, que hoje ocupa desastradamente o palácio do planalto, proclamou seu voto de empeachment contra Dilma, citando o seu torturador, um canalha que colocava baratas na vagina de mulheres grávidas, e o tal deputado não foi imediatamente caçado, ao invés, foi eleito presidente, abriu-se uma permissão, para que os da mesma laia do dito cujo se sentissem mais autorizados a violentar e matar.

Aliás, a própria eleição dessa pessoa revela o índice de identificação que muitos homens têm com sua maneira de pensar – o atleta machão, que pretende vencer o vírus na irracionalidade e na negação da ciência – e revela a inconsciência submissa das mulheres que votaram nele. Se houvesse sororidade por parte das mulheres, independentemente de qualquer questão ideológica, estariam todas ao lado de uma mulher que foi torturada e que superou todos os traumas brutais de uma tortura e veio a se tornar a primeira mulher presidente no Brasil. Logo que Dilma caiu, o traidor, que era seu vice, constituiu um ministério só de homens. Não dá para ignorar o quanto todos esses fatos recentes de nossa história política estão impregnados de machismo.

O que fazer então? Educação e terapia de todas as maneiras. Educação para um novo tipo de relação do homem consigo mesmo e com o outro. Educação para as mulheres se empoderarem desde cedo, conhecerem seus direitos, elevarem sua autoestima. As questões de gênero têm que ser discutidas na escola, na família, nas terapias individuais e em grupo. Lembrando também que muitas vezes a religião serve como aparato para esse domínio tóxico masculino. Os abusos sexuais de padres e médiuns, de gurus e pastores mostram isso fartamente. O discurso medieval do bispo-chefe da Igreja Universal do Reino de Deus, diante de quem o (des)presidente se ajoelha, de que as mulheres não devem estudar (sic) mostra o quanto esses números aumentados de feminicídios não são um acaso em 2019.

Então trata-se de promover uma conscientização a respeito de toda essa problemática por todos os meios possíveis e sobretudo descontruir a nível psíquico, cultural, social e político, essa desgraça do patriarcado.

Quanto a essa médica do Piauí, que se chamava Carol, e todas as outras milhares, que já tiveram suas vidas ceifadas, como espírita, posso orar por elas, esperando que sejam ajudadas no plano espiritual, para superarem rapidamente o trauma de uma morte violenta, e poderem de lá olhar pelos filhos que ficaram aqui.

 

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