Ciganos: discriminados e invisíveis

Como relatora da ONU para o direito à moradia, sempre recebo denúncias relativas à precária situação dos ciganos no mundo, particularmente na Europa. De origem provavelmente indiana e conhecidos no continente europeu como “roma”, os ciganos são historicamente discriminados e marginalizados. Sua condição nômade, assim como a fortíssima especificidade cultural de seu modo de vida, têm marcado a inserção ambígua desse grupo nos países em que habitam ou por onde passam. Durante a Segunda Guerra Mundial, assim como judeus, comunistas e homossexuais, os ciganos foram amplamente perseguidos e assassinados.
 
Aqui no Brasil temos uma população cigana considerável. De acordo com o último censo do IBGE, são mais de 800 mil ciganos no país. A Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), de 2010, afirma que temos ciganos em 291 cidades de todas as regiões do país. Contudo, em apenas 10% destes municípios existem áreas públicas para acampamentos ciganos.
 
Na Europa, por razões históricas que não temos como comentar aqui, a população cigana se concentra especialmente nos países do Leste, porém, com a União Europeia e a consequente maior facilidade de circulação, muitos migraram para países como a França, a Itália, e, mais recentemente, o Reino Unido. Essa inserção no continente europeu é mal resolvida, ambígua e difícil em toda parte, com honrosas exceções de algumas cidades, principalmente na Espanha. Em 2010, por exemplo, o então presidente francês Nicolas Sarkozy implementou uma política de expulsão em massa de ciganos do país. E eu mesma já visitei assentamentos ciganos na Itália e na Croácia em condições bastante precárias.
 
Além dos ciganos “roma”, no Reino Unido, outros grupos nômades – como os travellers e gypsies, que não estão relacionados etnicamente aos roma – também enfrentam dificuldades de se estabelecerem no território de maneira que seus direitos e suas culturas sejam respeitados.
 
Em 2005, vários governos europeus se articularam numa iniciativa chamada “Década de Inclusão dos Ciganos” (Decade of Roma Inclusion – 2005-2015), que tem como objetivo buscar eliminar a discriminação contra os ciganos e construir compromissos entre os estados para o enfrentamento de questões nas áreas de educação, emprego, saúde e habitação junto a essa população. Ainda assim, aparentemente, os avanços são tímidos. No Brasil, os ciganos continuam totalmente invisíveis – exceto quando aparecem de forma caricata em novelas – e políticas públicas para essa população parecem ainda não existir.
 
 
Raquel Rolnik é urbanista, professora da Universidade de São Paulo e relatora pelo direito à moradia da ONU
 
Texto originalmente publicado no Yahoo! Blogs.
 

3 comentários

  1. Em Santos, os ciganos, grosso

    Em Santos, os ciganos, grosso modo, estão espalhados por toda a cidade. No entanto, há uma concentração. Maior no Morro da Nova Sintra, em função disso a prefeitura via Setur organizou um tour de ônibus que leva turistas ao morro da Nova Sintra para conhecer um pouco da cultura cigana – música, dança, artesanato e comida. Todos saem ganhando: os turistas conhecem uma cultura diversa e rica e os ciganos comercializam seus produtos e repercutem sua cultura.

  2. Cigano e’ tudo ladrao, falo

    Cigano e’ tudo ladrao, falo de carteirinha. 

    Calma la’ gente, nao me crucifiquem agora. Na minha pequena cidade natal no sul de SC era comun la pelos 70s os ciganos aparecerem e acamparem durante um ou dois meses na cidade. Nos as criancas adoravamos ver os seus cavalos bonitos e bem tratados, suas vestimentas (as mulheres ainda lembro, gosto de moda,  tinham uma roupas muito bonitas) e suas quinquilharias para vender. Nossas maes ficavam preocupadas mas a gente se divertia em espiar seus acampamentos. Todos os anos eles vinha e nunca jamais fizeram mal pra alma alguma.

    Mas por que eu falei que cigano e’ era ladrao, e’ que eu tive uma prima que caiu nos encantos, largou o marido e  foi “roubada” por um cigano Dom Juan  e caiu no mundo com eles… Hoje eu acho que minha prima foi a primeira mulher libertaria que conheci, naquela comunidade italiana conservadora ela teve muita coragem.. Nao preciso dizer que eles jamais voltaram pra cidade….

     

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