Colapso da democracia americana torna-se cenário visível, por Flavio Lobo

O cenário eleitoral dos EUA dá sinais cada vez mais claros da existência de iminente risco para a estabilidade democrática e institucional da nação mais poderosa do mundo.

Colapso da democracia americana torna-se cenário visível

por Flavio Lobo

Vivemos tempos interessantes. E daqui a dois meses, este nosso momento histórico pode se tornar interessantíssimo.
O cenário eleitoral dos EUA dá sinais cada vez mais claros da existência de iminente risco para a estabilidade democrática e institucional da nação mais poderosa do mundo.
As chances de que o resultado da eleição presidencial deste ano não seja aceito como legítimo nem tolerável pelos perdedores – e, portanto, por boa parte da sociedade americana – são grandes.
Exagero?
Vejamos.
Em razão da pandemia, deverá haver uma enorme quantidade de votos não presenciais, feitos pelo correio. E tudo indica que haverá muito mais eleitores democratas votando pelo correio em comparação com republicanos. Segundo pesquisa recente, 56% dos democratas pretendem votar pelo correio, enquanto apenas 26% dos republicanos dizem ter essa intenção.
Combinando esses dados com os atuais resultados das pesquisas de intenção de voto, constata-se que, mantido o cenário expresso hoje pela média das pesquisas, Trump tende a levar vantagem no voto presencial, realizado no dia da eleição, mas Biden tem mais chance de vencer ao término da contagem total dos votos.
Se isso acontecer, o país poderá viver semanas de grande tensão, aguardando a conferência de milhões de votos não presenciais por sistemas estaduais que têm dado abundantes mostras de ineficiência e questionável confiabilidade. Disso resultariam, provavelmente, constantes mudanças de projeção do resultado final do insano sistema de colégio eleitoral federativo vigente nos EUA. Ao mesmo tempo, haveria uma guerra judicial e midiática entre os dois partidos em disputa, aos quais, nesse contexto, não faltariam justificativas ou pretextos para questionar resultados desfavoráveis. Isso tudo, lembremos, em um país armado até os dentes, repleto de conflitos sociais e revoltas nas ruas.
A esse conjunto de potenciais fatores  de instabilidades, somam-se os riscos advindos da centralidade, no mesmo processo político, de dois grandes catalisadores, vocacionados para acender fósforos em paióis de pólvora: Donald Trump e o trumpismo.
Antevendo a alta probabilidade do cenário de votação e apuração de votos descrito acima, o candidato à reeleição já vem disseminando, insistentemente, a mensagem de que os votos não presenciais são suspeitos, pois sujeitos a fraude.
Se a contagem de votos do dia da eleição lhe for favorável, quais as chances de Trump se antecipar e proclamar vitória?
Diante dessa proclamação, quais as chances de os fanáticos apoiadores do presidente aceitarem a possibilidade de que seu ídolo, na verdade, tenha sido derrotado? Veremos os milhões de MAGAs (os americanos que repetem e vestem o slogan trumpista “Make America Great Again”) acompanhando, conformados, uma lenta virada de Biden graças aos “questionáveis” votos enviados pelo correio?
Em 2000, Bush Jr levou na mão grande a vitória de Al Gore graças à lentidão e a falhas da apuração na Flórida, combinadas com uma jogada política, judicial e midiática que levou os democratas a ceder e a abrir mão da vitória conquistada tanto no voto popular quando no colégio eleitoral em nome da estabilidade do sistema político.
No atual contexto de polarização e na hipótese de a aceitação de uma vitória de Trump implicar a nulidade de muitos milhões de votos, as chances de o Partido Democrata ceder novamente são remotas. Mesmo que o fizesse, os danos para a credibilidade da democracia america seriam gigantescos.
Os riscos de que profundas divisões políticas, culturais e ideológicas produzam uma crise aguda e potencialmente catastrófica, a curto prazo, no coração do sistema global, mostram-se, portanto, no mínimo, consideráveis.
Abertas as ponteiras do “impensável” em relação ao que muitos vêem como as “sólidas instituições américas”, não será surpreendente se placas tectônicas que guardam energia de conflitos socioeconômicos ainda mais estruturais adquirirem abrupto movimento. Se isso acontecer, mesmo que inicialmente de modo ainda controlável pelos núcleos de poder econômico e militar, os danos sistêmicos de médio e longo prazo serão vastos, e poderemos assistir ao início de uma nova e mais acelerada fase da atial crise global, de escala civilizacional.
É bem possível, também, sem dúvida, que não aconteça um “terremoto eleitoral” agora em novembro.
Essa bomba de curto prazo para o sistema político dos EUA pode ser desarmada pela evolução das preferências do eleitorado. Caso um dos candidatos conquiste uma vitória por larga margem, que fique clara já no dia da eleição e se confirme, sem maiores questionamentos, até o fim da apuração de todos os votos, tanto os depositados diretamente nas urnas quanto os enviados pelo correio, essa ameaça terá sido, por ora ao menos, superada.
A clara presença dos fatores de risco já demonstra, entretanto, a emergência de forças de desconstrução de um modelo que, em nossa estreita perspectiva biográfica, nos acostumamos a ver como inabalável.

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