Como se cala um lugar de fala?, por Paulo Fernandes Silveira 

Florestan Fernandes, que já trocava correspondências com Guerreiro Ramos e com Abdias do Nascimento, participou do Congresso do Negro, em 1950.

(Estudantes perseguidos após uma passeata, foto de Evandro Teixeira).

Como se cala um lugar de fala?

por Paulo Fernandes Silveira 

Num belo texto, Antônio Guimarães (2016), destaca as três obras que marcam a formação intelectual dos negros nos movimentos e organizações sociais: A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, Discriminação e desigualdades raciais no Brasil (1979), de Carlos Hasenbalg, e O negro revoltado (1982), de Abdias do Nascimento.

Ao lado do sociólogo Guerreiro Ramos, o ator, diretor, escritor e artista plástico Abdias do Nascimento militou no movimento negro desde os anos 40, tendo contribuído para a criação do Teatro Experimental do Negro (TEN), para a alfabetização e a formação política e artística dos negros e para organização de uma série de congressos e de publicações sobre a negritude. Já os sociólogos Florestan Fernandes e Carlos Hasenbalg tiveram suas pesquisas sobre as relações raciais fortemente influenciadas pelas questões e demandas do movimento negro.

Num artigo de capa para o jornal Quilombo (vida, problemas e aspirações do negro), publicado em 1950, Abdias anuncia o 1º Congresso do Negro Brasileiro com as seguintes palavras:

“O 1º Congresso do Negro pretende dar uma ênfase toda especial aos problemas práticos e atuais da vida da nossa gente de cor. Sempre que se estudou o negro foi com o propósito evidente ou a intenção mal disfarçada de considerá-lo um ser distante, quase morto, ou já mesmo empalhado como peça de museu. Por isso mesmo, o Congresso dará uma importância secundária, por exemplo, às questões etnológicas e menos palpitantes, interessando menos saber qual seja o índice cefálico do negro, ou se Zumbi realmente suicidou-se ou não, do que indagar quais os meios que poderemos lançar mão para organizar associações e instituições que possam oferecer oportunidades para a gente de cor se elevar na sociedade” (NASCIMENTO, 1950, p. 1).

Florestan Fernandes, que já trocava correspondências com Guerreiro Ramos e com Abdias do Nascimento, participou do Congresso do Negro, em 1950. A delegação de pesquisadores da USP no congresso, representada por Roger Bastide, apresentou uma análise sociológica desmistificando o preconceito a respeito da criminalidade dos negros na cidade de São Paulo (NASCIMENTO, 1982). Alguns meses após o congresso, Bastide e Florestan fizeram uma grande pesquisa sobre o preconceito racial (BASTIDE; FERNANDES, 1959). A pesquisa contou com a participação de inúmeras lideranças do movimento negro e com uma cuidadosa análise da produção intelectual dos negros.

Num artigo para a revista Habitat, originalmente publicado em 1953, Abdias volta a enfatizar a importância de trabalhos que tragam à baila as demandas do negro:

“O Teatro Experimental do Negro constitui-se, através desses anos de atividades em matriz de iniciativas e estudos que objetivam, de um lado, acelerar a integração dos homens de cor na sociedade brasileira e, de outro lado, examinar o nosso problema do negro à luz de uma sociologia militante que supere os vícios do academismo e indique rumos e soluções práticas” (NASCIMENTO, 1966, p. 122).

Essa mesma sociologia militante é defendida por Guerreiro Ramos no texto “O processo da sociologia no Brasil”, publicado em 1953. Mesmo sustentando, em resposta à Ramos (BARIARI JÚNIOR, 2003), que a sociologia não deve se afastar dos princípios e do rigor científico, num texto de 1962, com o instigante título “A sociologia como afirmação”, Florestan argumenta:

“(…) somente quis sugerir que o sociólogo, como homem da sociedade de seu tempo, não pode omitir-se diante do dever de pôr os conhecimentos sociológicos a serviço das tendências de reconstrução social. Numa fase de desintegração e mudança, não nos compete, apenas, produzir conhecimento sobre a situação histórico-social. Impõe-se que digamos, também, como utilizaríamos tais conhecimentos, se nos fosse dado tomar parte ativa da construção de nosso mundo de amanhã” (FERNANDES, 1976b, p. 90).

Num texto biográfico intitulado “Em busca de uma sociologia crítica e militante”, Florestan (1976a) oferece novos contornos para essa posição sobre a contribuição da sociologia para a transformação da sociedade. No livro Significado do protesto negro, Florestan lamenta o modo como ele e seus orientandos da USP foram silenciados pela ditadura militar:

“A pesquisa sociológica desvendou com maior rigor e objetividade a situação racial brasileira, e os principais sociólogos brasileiros, que contribuíram para isso, viram a façanha ser incluída em suas fichas policiais de agitadores e concorrer para a sua exclusão da universidade e, por vezes, do país” (FERNANDES, 1989, p. 7-8).

Em 2014, comemorou os 50 anos da publicação do A integração do negro na sociedade de classes; em 2020, comemora-se os 100 anos do nascimento de Florestan Fernandes. Em eventos que deveriam homenagear o sociólogo, alguns intelectuais das novas gerações pontuaram uma série de equívocos e de limitações em sua obra. Focando em suas divergências teóricas, esses intelectuais se desviaram de uma questão fundamental: assim como fizeram Abdias do Nascimento e Carlos Hasenbalg, o sociólogo militante não ignorou as demandas do movimento negro, muito pelo contrário, ele utilizou todo o seu capital intelectual para combater o racismo e as desigualdades.

Paulo Fernandes Silveira (FE-USP e IEA-USP)

Referências.

BARIARI JÚNIOR, Edson. A sociologia no Brasil: uma batalha, duas trajetórias (Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos). (Dissertação de Mestrado em Sociologia). UNESP. Marília, 2003. Disponível em:  https://repositorio.unesp.br/handle/11449/99018

BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.

FERNANDES, Fernandes. A sociologia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1976a.

FERNANDES, Fernandes. A sociologia numa era de revolução social. Rio de Janeiro, Zahar, 1976b.

FERNANDES, Florestan. O significado do protesto negro. São Paulo: Cortez, 1989.

GUIMARÃES, Antônio. O legado de Carlos Hasenbalg (1942-2014). Afro-Ásia, n. 53,  277-290, 2016. Disponível em: https://www.redalyc.org/jatsRepo/770/77051153007/html/index.html#fn10

NASCIMENTO, Abdias. O negro revoltado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. Disponível em: https://www.geledes.org.br/o-ipeafro-disponibiliza-a-integra-das-duas-edicoes-do-livro-o-negro-revoltado-de-abdias-nascimento/

NASCIMENTO, Abdias. O 1º Congresso do Negro Brasileiro. Quilombo (vida, problemas e aspirações do negro), n. 5, 1950. Disponível em: https://issuu.com/institutopesquisaestudosafrobrasile/docs/jornal_quilombo_ano_ii_n5

NASCIMENTO, Abdias (Org.). Teatro experimental do negro. Testemunhos. Edições GRD: Rio de Janeiro, 1966. Disponível em: https://issuu.com/institutopesquisaestudosafrobrasile/docs/livro_testemunhos_2

RAMOS, Guerreiro. O processo da sociologia no Brasil. MIMEO: Rio de Janeiro, 1953.

RAMOS, Guerreiro. Introdução crítica à sociologia brasileira. Editora UFRJ: Rio de Janeiro, 1995.

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