Comunicação e soberania: o domínio da arte de dissuasão nas redes sociais, por Eduardo Bonzatto e Luis Gustavo Reis

Na era da comunicação, em que as informações estão disponíveis como nunca antes, dominar as emissões e as resultantes delas na mente dos usuários se tornou uma verdadeira arte.

Comunicação e soberania: o domínio da arte de dissuasão nas redes sociais

A informação é valiosa no sentido de que é a partir dela que um sujeito é capaz de se posicionar perante a sociedade. Quando esta é verdadeira e ancorada à realidade, manifesta-se a possibilidade, por parte de quem lê, de persuadir o outro, ver o corpo social de uma maneira mais crítica e construir um pensamento capaz de influir o mundo que o rodeia. Estar bem informado requer um exercício constante, ininterrupto e diário.

(http://www.filologia.org.br/rph/ANO23/69supl/038.pdf)

por Eduardo Bonzatto e Luis Gustavo Reis

A dissuasão é um artifício poderoso nos tempos em que as redes sociais definem a política. Não por acaso, os que ocupam atualmente o poder da República brasileira são tidos como dissuasivos, contraditórios, disléxicos e por aí vai…

Ao contrário da persuasão, cuja força discursiva deve ser consistente, utilizando da retórica com eficiência, a dissuasão causa um temor, uma ameaça que força o indivíduo a se sujeitar a desígnios que por vezes nem se dá conta.

A dissuasão é um exercício que requer habilidade e sutileza para que nem seus detratores consigam inviabilizar sua força. Na era da comunicação, em que as informações estão disponíveis como nunca antes, dominar as emissões e as resultantes delas na mente dos usuários se tornou uma verdadeira arte.

Destacamos neste texto dois estrategistas políticos contemporâneos, que utilizam cirurgicamente a dissuasão em suas ações. Ambos convergem nos procedimentos adotados e utilizam as redes sociais como ferramenta para fermentar o movimento que defendem.

Os estrategos são Steve Bannon, ex-assessor do presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e Dominic Cummings, articulador do movimento Brexit, no Reino Unido.

As ações desses personagens são conhecidas como atividades de inteligência e nutrem as redes sociais com todo tipo de teorias (reais ou fictícias), imagens (verdadeiras ou falsas), análises (imaginadas ou verídicas), intrigas (forjadas ou autênticas), polêmicas, etc.

Dentro desse viés, também usam dados dos usuários para atingir seus interesses. É conhecida a iniciativa da empresa londrina Cambridge Analytica, que conseguiu informações de milhões de usuários do Facebook (comentários, curtidas, mensagens privadas, etc), traçou o perfil psicológico de cada um deles e utilizou os dados para verificar suas predisposições em acreditar em teorias da conspiração e serem passíveis de influência. As análises desses dados, inclusive, foram decisivas para o sucesso do Brexit.

As semelhanças entre Bannon e Cummings não é apenas de procedimento operacional. Por exemplo, ambos são nacionalistas convictos e esse aspecto carece de melhores explicações. Não se trata mais do velho nacionalismo que conhecemos, mas de um outro tipo, marcado por valores contundentes do neoliberalismo.

Cummings nos presenteia com uma amostra dessa vertente que chamaremos de “nacional-neoliberal”, num artigo intitulado “Algumas reflexões sobre educação e prioridades políticas”, Nele, o estratego sugere que a Grã-Bretanha estaria se transformando numa sociedade “tecnópolis meritocrática”. Além disso, aponta que “quando as pessoas olham para as lacunas entre crianças ricas e pobres que já existem em uma idade jovem (3-5 anos), elas quase universalmente assumem que essas diferenças são por razões ambientais (“privilégios de riqueza”) e ignoram a genética”. Ou seja, a diferença não seria por questões sociais, mas sim biológicas.

No mundo atual, seria bem difícil condicionar a globalização com o nacionalismo. Por isso, os ideólogos dessa direita alternativa, adotaram e ampliaram o conceito de “globalismo” e os enquadraram nos cânones da novilíngua. Globalismo, ademais, é um conceito chave do neoliberalismo nesta fase nacionalista em que vivemos.

Cabe sintetizar aqui o que esses ideólogos entendem por globalismo, que nada tem a ver com o conceito de globalização. O termo “globalismo” não tem um sentido único e preciso, pelo contrário, é vago, abrangente, difuso, portanto, característico do método Bannon e Cummings.

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Embora não seja sinônimo de globalização, a semelhança com esse termo faz com que as pessoas pensem que saibam do que estão falando. Eis aí mais um aspecto do discurso dissuasivo: habilidade de enganar seus detratores para que não consigam inviabilizar sua força. Quando os detratores ridicularizam os “globalistas”, o fazem de forma caricatural, como se o conceito fosse sem sentido e absurdo, sem detectar o que está subjacente ao discurso.

Segundo Jan Blommaert, professor de Língua, Cultura e Globalização, o termo globalismo é a “munição ideal para o século 21, perfeito para as redes sociais. No mundo do Twitter, é ideal: é uma palavra com vários significados distintos e várias aplicações diferentes. Ideias longas e argumentos são reduzidos a uma palavra ou uma frase”, aponta o catedrático.

Outro ponto característico, levantado por Or Rosenboim, professora de História Moderna da City University de Londres, é “que embora usem essa retórica, os líderes de direita não estão falando de verdade sobre ‘globalismo’. É mais como uma versão falsa ou uma caricatura de globalismo. Eles dizem atacar a ideia de que 1% de pessoas ricas no mundo lucraram com essa nova condição de interconexão […], mas há muita retórica e um certo truque para apelar para as pessoas ignoradas pelo mercado neoliberal. O globalismo neoliberal existe, mas eles não protestam contra isso de fato. Protestam contra uma elite liberal cosmopolita, não necessariamente contra as pessoas ou instituições responsáveis por estabelecer esse tipo de mercado.”

Um dos aspectos martelados pelos nacionais-neoliberais é que o globalismo refere-se ao governo global administrado pelos marxistas, que deve ser contraposto a um governo nacional forte. Mas aqui reside a contradição: governo nacional forte, porém, num estado mínimo. Ou seja, eles mantêm os protocolos neoliberais sem alterações, mas eliminam, com isso, inconveniências geradas pela grande concentração de renda nas mãos de poucos.

É justamente essa concentração de renda que impulsiona grandes movimentos migratórios de pessoas expulsas de seus países, que ao chegarem aos destinos desejados, despertam valores xenófobos, racistas, sexistas, jogando pautas como igualdade (fim da concentração de renda) e diversidade (valorização dos migrantes) no colo dos marxistas-globalistas.

O chanceler brasileiro Ernesto Araújo resume bem a pauta anti-globalista na seguinte frase: “O globalismo se constitui no ódio, através das suas várias ramificações ideológicas e seus instrumentos contrários à nação, contrários à natureza humana, e contrários ao próprio nascimento humano”. Se os marxistas-globalistas valorizam os migrantes, portanto, são contrários à nação.

Segundo Ben Teitelbaum, comentarista político estadunidense, “Para os tradicionalistas, a era das trevas em que vivemos é o globalismo, em que a hierarquia é destruída e não há fronteiras nem limites –e a tradução máxima disso são as instituições que desafiam fronteiras, como ONU, União Europeia, OMS.”

Nesse sentido, trata-se de um slogan político para reforçar distinções cuja ambivalência o termo “tecnópolis meritocrática” contempla, em que a globalização operava estritamente por valores técnicos solapando os valores humanos que só a nação, a sociedade de sentido, com seus valores étnicos, raciais, históricos, pode corrigir.

Em discurso na Assembleia Geral da ONU, Donald Trump afirmou que “os Estados Unidos sempre vão escolher a independência e a cooperação em vez de governos globais, controle e dominação”, honrando “o direito de cada nação de buscar seus próprios costumes, crenças e tradições”.

Com esse discurso ambíguo, Trump alinha-se aos prognósticos de seu ex-estrategista, Steve Bannon, que também opera da mesma forma dúbia. Quando era diretor do Breitbart News LLC, site de notícias de extrema-direita, Bannon já emitia sinais para a consolidação de uma posição de direita mais alternativa. No entanto, ao passo que condenava conotações racistas e antissemitas, disseminava material racista, xenófobo, sexista e antissemita nas artérias dessa mesma direita. Apesar das inúmeras denúncias de que o site sistematicamente propagava notícias falsas, histórias enganosas e teorias da conspiração, o número de acessos da plataforma só aumentava.

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O jogo de ambiguidades nos sinais emitidos por Bannon e Cummings, tanto para dentro quanto para fora de seus nichos de atuação, foram consolidando um fazer político que se não é novo, a forma operacionalizada por eles nas redes sociais tornaram explosivo.

Não é por acaso, portanto, que ambos foram estrategistas bem-sucedidos nos últimos anos. Cummings na votação para que o Reino Unido saísse da Zona do Euro e Bannon com a eleição de Trump para a presidência dos Estados Unidos. É por isso que consideramos fundamental (e este artigo é apenas um estímulo) analisar os mecanismos com que esses dois operadores políticos movimentam as redes sociais e a forma com que lidam com a comunicação.

A posição política de Cummings e Bannon em relação ao coronavírus também se aproxima. Em fevereiro de 2020, Cummings alegou que a estratégia do governo britânico para o coronavírus era “imunidade de rebanho, proteger a economia e, se isso significa que alguns aposentados morrem, muito mal”.

Já Bannon ofereceu um jantar também em fevereiro, onde reuniu populistas de direita europeus e latino-americanos, entre eles o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Ao voltar do jantar, Eduardo Bolsonaro conversou com o pai, Jair Bolsonaro, outro seguidor ferrenho da pauta de Bannon, e anunciou que a volta ao trabalho teria menos impacto do que as mortes: “Infelizmente, algumas mortes terão, paciência, acontece, e vamos tocar o barco […] A economia não pode parar por causa do coronavírus”.

Bolsonaro, por exemplo, que se tornou mestre na arte da dissuasão, ou da ambiguidade discursiva, durante a crise do vírus forçou seus opositores a detratar as práticas da medicina tradicional, valorizando as condenáveis práticas da grande indústria farmacêutica. Desta forma, pela dissuasão, convidou a velha esquerda a mudar seus discursos e a abandonar as utopias que a caracterizaram, entre elas a valorização de saberes ancestrais. Aliás, fazer os inimigos falarem é uma arte nesses tempos.

O pensamento de Cummings e Bannon carrega algo da novilíngua, idioma fictício criado pelo governo hiperautoritário no livro “1984”, de George Orwell. Na obra, o conceito novilíngua não significa a criação de novas palavras, mas a “condensação” e “remoção” delas ou de alguns de seus sentidos com o objetivo de restringir o pensamento.

Para este texto, no entanto, a novilíngua tem um sentido mais abrangente do orwelliano. Aqui o termo significa produzir duplicidade, ambiguidade e a capacidade de acionar a dicotomia como elemento fundamental do pensamento. Nesse sentido, a dicotomia cumpre o papel de produzir discordância ou concordância automaticamente, eliminando qualquer espaço para a crítica, no sentido de desvendar a dinâmica ideológica.

Nunca é demais recordar que pensamento crítico não é ser do contra. Isso é pensamento linear e dicotômico. Pensamento crítico é ser complexo. Pensamento complexo é pensar com as diferenças, não com as semelhanças. Pensar com as semelhanças é pensamento único, portanto, estandardizado, ou seja, fascismo.

Tanto Cummings quanto Bannon são conservadores, mas é preciso se despir dos preconceitos habituais para investigar o termo com a complexidade que se exige. Numa breve definição, o conservadorismo é uma ideologia política que defende a manutenção de instituições tradicionais, tais como família e religião, assim como busca preservar costumes, tradições e convenções.

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Por essa definição, algumas questões já se pronunciam. As instituições, por sua natureza, são estruturas que amarram todas as pessoas em torno de um projeto de futuro. Mesmo quando o lema é “mudança”, essas supostas transformações não incluem a base das instituições que de modo inato optamos por conservar, a família, a propriedade privada, o Estado.

Destarte, notamos uma ambiguidade fundamental: queremos mudar, mas para conservar o que temos. Ora, não se trata de negar a classe, ele existe, mas a propalada luta de classes, essa sim, há décadas foi substituída pelo consumismo; o fetiche da mercadoria prevaleceu sobre as possibilidades políticas.

Não é mais possível, então, se valer das costumeiras interpretações da esquerda, em grande medida, baseada no binarismo mental para interpretar a forma conservadora de se posicionar no mundo atual, infinitamente mais complexa.

O político estadunidense Russell Kirk, assim traduziu a luta da conservação (“direita”) contra a mudança (“esquerda”):  “O conservador pensa na política como um meio de preservar a ordem, a justiça e a liberdade. O ideólogo, pelo contrário, pensa na política como um instrumento revolucionário para transformar a sociedade e até mesmo transformar a natureza humana. Na sua marcha em direção à Utopia, o ideólogo é impiedoso.”

É fundamental não confundir política conservadora com pensamento conservador. O pensamento conservador é uma excrescência do fascismo e da manutenção do poder, seja à direita ou à esquerda, no centro ou nos extremos. Aliás, o fascismo em nosso tempo é bastante proverbial, uma vez que já não é exclusividade de certa ideologia, pelo contrário, está espraiado sem distinção. Uma das características do fascismo, oxalá a mais sutil, é a certeza de que há uma posição correta (a de quem a professa) e uma errada (a do adversário de quem professou).

Cabe enfatizar ainda que os valores eurocêntricos disseminaram pelo mundo uma predileção pela ordem que se enraizou na cultura, tanto que mesmo os projetos revolucionários, incluindo o anarquismo, contemplam a educação como forma de se viabilizarem. E educação, sem eufemismos, é ordem, sob quaisquer pontos de vista, ainda que tal projeto se arrogue revolucionário.

A percepção de que integrantes de certo partido político seja mais ou menos sensível ao sofrimento geral da população nada tem a ver com seu ideário, assim como políticos que esfregam na cara das elites seu incondicional apoio aos trabalhadores, não se eximem de promover políticas que agudizam as desigualdades. Ou alguém acredita que o neoliberalismo retrocedeu no Brasil desde sua implementação nos anos 1990?

Os discursos são bólidos de satisfação, moldados ao sabor do momento, e não necessitam de nenhum alinhamento com as práticas sociais que impulsionam. Portanto, os valores que são importantes para definir o caráter eminentemente conservador das pessoas são, basicamente, civilização, ordem social, moralidade, dentre outros que se afastam do caos, da imprevisibilidade, do respeito às diferenças e do não apego às desigualdades como forma de manter os privilégios que, no final das contas, a todos definem.

Já lemos nas redes sociais que a maior das ilusões políticas é acreditar que se pode humanizar um sistema cuja essência é mercantilizar as necessidades humanas. Numa sociedade cuja ordem é a desigualdade, a hierarquia dos privilégios é infinita. É uma sociedade de emuladores, sem distinções.

Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)

Luis Gustavo Reis é professor e editor

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