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Congressos em Portugal – I, por Walnice Nogueira Galvão

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Congressos em Portugal – I

por Walnice Nogueira Galvão

Se receber convite para um congresso em Portugal, não vacile. A maravilha dos congressos em Portugal é que o jantar de confraternização se realiza num palácio ou num castelo, que o país os tem em abundância. Se em Lisboa, pode ser no Palácio da Ajuda, onde os congressistas têm acesso à Sala do Trono, com trono e tudo.

A antiga residência real, que ficava na Ribeira, lá em baixo, foi-se, no terremoto de 1755 que destruiu meia Lisboa. O rei e a corte, então, aboletaram-se num acampamento no alto da Ajuda: consta que o rei guardou o trauma e nunca mais quis alvenaria acima da cabeça. Viveu numa tenda, a Real Barraca, mobiliada com as mais luxuosas alfaias, até morrer. Em 1794 tudo pega fogo. Começa então a construção de novo palácio, neoclássico, em “pedra e cal” – edificações alvinitentes como a neve que lá estão até hoje, para nosso deleite.

E se o convite for para Coimbra, então, pode ser numa joia barroca, o Palácio de São Marcos, que pertence à Universidade de Coimbra. Situado a 20 km da cidade, foi erguido no séc. XV como mosteiro dos frades jerônimos; mais tarde seria residência dos duques de Bragança. É monumento nacional. Cercado por um parque, tem uma capela gótica interna, incorporada à construção. À vista pelos janelões escancarados, os jardins com chafarizes.

É em suas paredes que está pendurado o único Nambam que já vi fora de museu. Nambam é o nome que se dá às pinturas quinhentistas em que os japoneses registraram os primeiros europeus chegando ao país. São bem interessantes: a notar,  o esforço que fazem para reproduzir olhos não puxados como os seus (“olhos redondos”, como dizem). Os quadros são belíssimos e revelam uma porfia de fidelidade ao real, que transparece na minúcia das indumentárias, na cor da pele e nas proporções dos membros do corpo, contrastando forasteiros e nativos.

Impõe-se não perder a ocasião de visitar uma das mais belas bibliotecas do mundo, a Biblioteca Joanina, que também pertence à Universidade, inteiramente construída em estilo manuelino. Variante do gótico que predominou em Portugal, distingue-se por suas alusões aos descobrimentos manifestas na decoração com cordas e instrumentos navais, como astrolábios e esferas armilares. A coincidência das navegações e descobrimentos com o reino de D. Manuel não só lhe valeu a alcunha de O Venturoso como frutificou num estilo arquitetônico e escultural inconfundível.

Mas se o convite for para o Porto, então, pode-se contar com uma ceia de cerimônia no Museu de Arte Contemporânea  de Serralves, belíssima obra pós-moderna e assimétrica do grande arquiteto Siza Vieira.

É sabida a proeminência que a cidade do Porto orgulhosamente ocupa em Portugal, inclusive por ser bem mais antiga que a capital e originar o nome do país. Aos olhos dos portuenses, Lisboa é uma arrivista, nascida ontem. Nesse quadro, pode-se entender como o lisboeta Fernando Pessoa foi parar no Porto, no filme autobiográfico de Manoel de Oliveira Porto de minha infância. Na licença poética deste que foi o maior dos diretores de cinema de Portugal, e um dos maiores do mundo, Pessoa aparece com seu chapéu e sua gabardine, palmilhando as ruas da cidade. É bem verdade que ele escreveu um célebre poema sobre a “dobrada à moda do Porto”. E reivindicar a presença, mesmo que fantasmática, de um poeta muito amado, compreende-se e perdoa-se.

Mas voltando ao museu de Siza Vieira: edificado em pedra clara cor de mel, é de uma beleza ímpar, com imensas paredes nuas e aberturas envidraçadas que enquadram perspectivas estratégicas armadas nos jardins. Foi construído na Quinta de Serralves, em meio a um  parque que se estende por 18 hectares, contendo até uma floresta, além de recursos próprios, que incluem rebanho para exploração comercial de leite e queijo, bem como pomar e horta para venda de frutas e legumes. A antiga casa da Quinta, luxuosa, puro Art Deco dos anos 30, continua em uso e é bem conservada. O novo espaço se destina a revitalizar as artes contemporâneas.

E uma de suas muitas vantagens é situar-se dentro do perímetro urbano da cidade do Porto.

Walnice Nogueira Galvão – Professora Emérita da FFLCH-USP
 
 

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