Criação de Realidade Consensual, por Fernando Nogueira da Costa

Todos necessitam de Educação Financeira para “não ser conduzido, mas sim conduzir” o processo de acumulação de reservas financeiras para o maior bem-estar social.

Criação de Realidade Consensual

por Fernando Nogueira da Costa

Non Ducor Duco é uma expressão em latim com significado de “não sou conduzido, conduzo”. O lema está presente no brasão da cidade de São Paulo.

Por alguma razão misteriosa da mente humana, essa ideia me ocorre quando leio as denúncias da “financeirização”, recorrentemente realizadas por meus companheiros esquerdistas. Penso: é necessária a Educação Financeira para entender – e usar em seu próprio proveito – esse fenômeno típico de uma fase do ciclo de endividamento, quando a taxa de acumulação de riqueza financeira se descola da taxa de crescimento da renda.

Sob o ponto de vista do holismo metodológico, ao contrário do habitual individualismo metodológico (“ver o mundo como girasse em torno do próprio umbigo”), ponderam-se os fenômenos a partir do todo (“holos”), distinto da mera soma de partes pressupostas iguais. O todo se configura de modo diferente das atuações individuais.

Os indivíduos têm de tentar se aproximar da verdade (“o todo” segundo Hegel), embora saibam ela ser fugidia. “Ciência não é certeza, é apenas uma busca contínua de testar hipóteses através da medição” (Sílvio Meira. República do Amanhã, 20/03/2021).

As configurações sistêmicas são velozes e fogem (ou correm) com rapidez. No sentido figurado, significa o mundo real ser algo transitório ou efêmero. Se é fugaz, dura pouco e por isso escapa à mente desatenta – e sem capacidade de processamento racional devagar. Pensar rápido implica em tomar decisões com instintos e/ou emoções. E errar.

As “verdades”, em consequência, são aproximações provisórias.
Dada a existência de diferentes níveis de realidade, 
esta passa a ser concebida como um processo dinâmico, emergente de contínuas interações. Tudo isso
leva à relativização da “verdade científica”.

Há a Realidade Objetiva: aquilo “concreto e dado, independente da crença”. Situam-se como tais os fenômenos naturais e físicos. Enquadram-se nela todos os objetos sólidos. Nesse nível de realidade, os ativos existentes ou construídos, como os imóveis, são vistos como formas de manutenção de riqueza.

No entanto, sua (des)valorização depende de atribuições subjetivas de valor por participantes de seus mercados secundários. Isto configura a Realidade Consensual. É aquilo “combinado ser real”,
mas sem ser validado por testes de laboratório. É moldável, pois
sua confirmação vem do coletivo. É o caso, por exemplo, do
dinheiro dependente da confiança e/ou da riqueza. Esta sofre, cotidianamente, MtM (Mark to Market ou Marcação a Mercado), ou seja, seus valores de mercado podem estar acima ou abaixo do valor patrimonial ou histórico, contabilizado pelo possuidor.

Enfim, Realidade Pessoal é aquilo tomado como “real para nós mesmos”, como um valor pessoal, porém, não é validado nem pelo coletivo (consensual), nem pelo objetivo. Efeito Dotação, em Economia Comportamental, é o viés heurístico de dar mais valor ao possuído em lugar do não possuído, embora ambos objetos sejam iguais em si.

Evidentemente, a Economia como Ciência, focalizada no estudo os processos de produção, distribuição, acumulação e consumo de bens materiais, depende de paradigmas pressupostos ou premissas interpretativas. Por isso, a Ciência Econômica fica no âmbito da Realidade Consensual.

“Economia” em sentido vulgar, dado pelos leigos, é a contenção ou moderação nos gastos. É chamada pelos economistas de poupança. As Finanças constituem uma Ciência ou o ofício (“Arte”), dependente de habilidade em tomar decisões práticas de quem trabalha com os recursos financeiros próprios e/ou de terceiros, seja do setor público (caso das Finanças Públicas), seja do setor privado (casos das Finanças Corporativas e das Finanças Pessoais).

Curiosamente, as Finanças foi (e é) colocada em uma Realidade Paralela (e condenada de maneira preconceituosa) por muitos economistas. Livros didáticos colocam o Sistema Financeiro em capítulo descritivo à parte como “Setor Financeiro”. Pior, ele não é valorizado tal como é qualquer setor, porque é confrontado com Setor Real ou Produtivo, Setor Público e o Setor Externo. Este último, paradoxalmente, é “apenas” o resto do mundo!

É um erro metodológico tratar o mercado de ativos e o nível dos preços, tanto a inflação corrente, como a inflação de ativos, de maneira isolada do restante das atividades econômicas “reais” (sic). Estas supostamente construiriam a Realidade Objetiva: objetos sólidos. No entanto, o multiplicador monetário só tem existência via sistema bancário. Um banqueiro isolado não cria moeda. Uma crise financeira contamina os valores de mercado de todos os ativos, inclusive os produtivos.

Na verdade, a Ciência Econômica padece do erro metodológico de construção de uma Teoria Econômica Pura com abstração do sistema financeiro. Há três funções-chaves do sistema bancário, do qual todos somos partes imprescindíveis, para “dar liga” a todas as atividades econômico-financeiras.

Seu Subsistema de Pagamentos
dá acesso popular ao sistema de pagamentos eletrônicos para oferecer segurança e facilidade prática a todos os “bancarizados”, isto é, nós todos. Mas ele é contrapartida do Subsistema de Gestão de Dinheiro: propiciar investimentos financeiros para
proteger o poder aquisitivo das reservas e seus rendimentos financeiros substituírem a
renda do trabalho
durante a aposentadoria.

Em um Sistema Complexo-Financeiro, como é o Sistema Capitalista, as ordens de transferências monetário-financeiras estabelecem interconexões de seus componentes interativos. Por fim, seu Subsistema de Crédito, ao
financiar a expansão de capacidade produtiva, produção (capital de giro), consumo, habitação, compra de ativos baratos para vender caro (especulação), etc., multiplica a renda e aumenta a oferta de empregos. Em outras palavras, o sistema financeiro (e sua correlata “financeirização”) não é improdutivo se propiciar alavancagem financeira dos negócios capitalistas.

Esse processo sistêmico, originado a partir do crédito, propicia o lucro operacional ser superior aos juros (e demais despesas financeiras) para ser mais rentável a aposta na tendência firme de alta dos preços dos ativos fabricados, bens e serviços. Aumenta a economia de escala. Trabalhar com recursos de terceiros é o segredo do negócio capitalista.

O reducionismo é impossível para todos os níveis (ou escalas) da realidade. Cada nível é regido por lei, lógicas e conceitos diferentes. Mas, em uma visão sistêmica ou holística, não há a separação entre as decisões econômico-financeiras microeconômicas e as resultantes macroeconômicas de suas interações. Economistas de boa formação reconhecem suas limitações: os cenários futuros são incertos por serem emergentes dos confrontos de avaliações dos tomadores de decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas umas das outras.

Holismo Metodológico se contrapõe à abordagem reducionista “de baixo para cima” (bottom-up), típica do Individualismo Metodológico. Ele percebe a importância sistêmica, por exemplo, do processo de fusões e aquisições de empresas.

Ele se inicia com uso de dinheiro de outras pessoas em benefício próprio: conseguir associados, manter gestão e participação acionária com divisão de lucros / prejuízos. Continua com a abertura de capital: IPO (Oferta Pública Inicial) de ações de parte minoritária com cotação atribuída por mercado de ações. Finaliza ao se tomar dinheiro emprestado para fusões ou aquisições: elevação do valor de mercado e enriquecimento pessoal dos sócios-fundadores.

Os holistas também enxergam a necessidade de endividamento público, por exemplo, para a assistência social ou os gastos públicos produtivos substitutos dos ausentes investimentos privados. Em contexto de Armadilha de Poupança (com corte de gastos de consumo), durante uma Grande Depressão, seja deflacionária (no centro), seja inflacionária (na periferia), mesmo juro zero não estimula empreendedores a tomar empréstimos. Neste caso, só gasto do governo com investimentos produtivos e/ou Renda Básica da Cidadania (RBC), para quem tem a maior propensão a consumir, permite escapar dessa armadilha da inação – contra a Nação.

Títulos de Dívida Pública é o principal lastro da riqueza financeira desde o século XV, no início do Renascimento – e do Capitalismo. O endividamento público foi colocado em lugar de arrecadação fiscal. Para evitar confisco, os cidadãos ricos optaram por emprestar para o governo dominado e receber juros. Afinal, eles controlam o governo.

Houve compensação dos cidadãos ricos com juros e liquidez. Tais títulos públicos podem ser vendidos, em um mercado secundário, caso o rentista necessite de dinheiro de imediato. Mais adiante, houve a substituição da moeda conversível em ouro. Os Estados nacionais passam a vender títulos não conversíveis, para não esvaziar reservas de ouro. Os títulos de dívida pública oferecem risco soberano com pagamento em moeda nacional. Sua renda fixa é um porto-seguro em relação à renda variável das ações.

Os trabalhadores do Varejo de Alta Renda e os investidores institucionais, seja fundos de ações, crédito privado (debêntures) ou renda fixa (prefixada ou pós-fixada), seja fundos de pensão, com capital de origem trabalhista, não podem perder tempo com a denúncia da “financeirização”. Todos necessitam de Educação Financeira para “não ser conduzido, mas sim conduzir” o processo de acumulação de reservas financeiras para o maior bem-estar social.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Bancos e Banquetas: Evolução do Sistema Bancário com Inovações Tecnológicas e Financeiras” (2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome