Crianças negras e sociedade doente de normose mortífera: basta!, por Alexandre Filordi e Ellen Gonzaga L. Souza

Não há racismo sem necropolítica, ou seja, uma política que transforma algumas vidas em “vidas matáveis”, na expressão de Butler.

(The Mother. Käthe Kolwittz [1921-1921] Tate Museum)

Crianças negras e sociedade doente de normose mortífera: basta!

por Alexandre Filordi e Ellen Gonzaga L. Souza

No Dia da Consciência Negra, uma das questões que se nos impõem é da seguinte monta: qual o limite social para o volume de suportabilidade e de aceitação de tantas vidas infantis dragadas pelo sorvedouro da necropolítica?

Quem descobriu o Brasil
foi o negro
que viu a crueldade
bem de frente.
(Caetano Veloso em Milagres dos povos)

Não há racismo sem necropolítica, ou seja, uma política que transforma algumas vidas em “vidas matáveis”, na expressão de Butler. Mas o sintoma brutal da necropolítica também tangencia o apagamento da memória, a supressão e a distorção das narrativas que dão contornos aos acontecimentos que continuam a violar o direito à vida, sufocando as causas violentas de histórias cujos arquivos ainda cheiram a sangue. Fazer esquecer, reordenar os encadeamentos dos fatos pelo interesse de ocultação e ignorar a produção sistemática da morte são gradientes próprios da necropolítica.

A morte bárbara e torturante de João Beto em uma loja do Carrefour; a execução de Marielle Franco; os sufocamentos letais de Eric Garner e George Floyd; o descaso tanatocrático de Miguel Otávio e de tantas crianças negras comprovam a vitalidade da necropolítica. E serão os arrebatamentos de tais vidas esquecidos brevemente, como se insistem em soterrar sob o escombro do navio negreiro da história, a tortura, as violações, os escrachos, o confisco da energia vital dos africanos escravizados?

Não seria exagero afirmar que a contemporaneidade vem se sustentando na medida que organiza suas forças econômico-políticas implicando-as diretamente na gestão complacente da morte. A política de trajetividade demandada em tal conjuntura, leia-se, a imposição dos circuitos existenciais como trajetórias cristalizadas, lateja na pobreza, nas guerras que forçam migrações, nos corpos negros aviltados pela herança perversa da colonização, na exploração contumaz do trabalho inseguro e sem garantia legal, no improviso da moradia e da caçada pelo alimento depositado em latões de lixo, na liquidação étnica dos povos originários, nos circuitos neocolonizadores de dominação psíquica, afetiva e corporal, como assevera Silvia Federici.

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Seria desnecessário sublinhar a fragilidade das crianças negras no contexto necropolítico. Entretanto, como o esquecimento parece ser uma bactéria a infeccionar nossos tempos, necrosando as sensibilidades humanas que deveriam revigorar os tecidos e os nexos sociais, não podemos deixar de enunciar, no Dia da Consciência Negra, que as crianças têm sido objetivo perverso da necropolítica. Mais ainda as crianças negras.

Ainda não aparelhadas socialmente com condições racionais, psíquicas, físicas, emocionais e materiais para cuidarem de si mesmas, numa espécie de consequência mortífera, as crianças são tocadas diretamente pelos agentes necrológicos que pairam sobre a sociedade atual. Poderíamos designar tal conjuntura de complexo de Miguel Otávio.

Em uma terça-feira, de 2 de junho de 2020, Miguel Otávio foi morto, aos 5 anos de idade, ao sofrer uma queda lancinante do 9º andar do edifício “Torres Gêmeas”, no Recife. Naquele dia, sua mãe, Mirtes Renata Souza, viu-se compelida pelo imperativo do trabalho, doméstica que era na casa de seus patrões. Sem ter onde e com quem deixar o filho, Mirtes Renata Souza o levou consigo para o trabalho. Ao sair para a ronda de passeio com o animal de estimação de seus empregadores, seu filho, sob os cuidados provisórios da patroa, é autorizado a entrar sozinho no elevador. Dirigindo-se a ermo até o 9º andar e explorando, ainda sozinho, o ambiente, despenca e morre. Não esquecer isso é afrontar a necropolítica; esquecê-lo é vitalizar a necropolítica.

O complexo de Miguel Otávio poderia ser definido como a capacidade racional ou não, consciente ou inconsciente, do adultocentrismo banalizar os riscos aos quais as crianças negras estão submetidas, ao ponto de morrem de modo gratuito, estúpido, violento, irresponsável e negligente. Tal complexo também diz respeito às desigualdades sociais herdadas de um sistema colonial, que testa, o tempo todo, a vida passiva de morrer. No caso, e quase que majoritariamente, mães, pais e responsáveis negros; habitantes da periferia; servidores compelido à mão de obra barata, instável, precária, arriscada e sujeita aos caprichos de seus “senhores” veem suas filhas e seus filhos ceifados por balas perdidas, violências policiais discricionárias, racismos reificados e eletivos, descasos dos poderes públicos e supressão de oportunidades sociais equânimes.

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Acresceríamos ainda o seguinte detalhe: o complexo de Miguel Otávio, numa ideia, concerne à morte facilmente evitada, mas que, todavia, se efetiva no jogo da “normose” necropolítica. Se “a violência não mostrada é um apagamento por oclusão”, como disse Butler em Vida precária, a violência que banaliza e esquece a morte de milhares de crianças, sobretudo as negras, por visibilidade costumeira e habitual, não passa de uma tentativa de apagar e de borrar, no certeiro diagnóstico de Aimé Césaire, o funcionamento decadente e ferido de uma civilização mortífera.

Sendo assim, o complexo de Miguel Otávio é a normose da necropolítica voltada para as crianças. Pierre Weil define a normose como tudo que, dotado de consenso social, não é percebido como perigoso. A normose dessensibiliza, pela força do consenso comum e do hábito, o assombro diante da violência. Acabamos presos em uma normalidade doentia, pois a característica geral da normose é seu duplo caráter automático e inconsciente. Em termos precisos, “a normose pode ser considerada como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria de pessoas de uma determinada sociedade, que levam a sofrimentos, doenças e mortes”, diz Weil em Normose, a patologia da normalidade.

No Dia da Consciência Negra, uma das questões que se nos impõe é da seguinte monta: qual o limite social para o volume de suportabilidade e de aceitação de tantas vidas infantis dragadas pelo sorvedouro da necropolítica? Sem nos contrapormos à sua normose, tememos ver na violência da política da morte a normalidade extremada do que passou a fazer parte do sistema social apenas como efeito colateral de um racismo igualmente normótico. O perigo é patente: “toda normose é uma forma de alienação. Facilita a instalação de regimes totalitários ou sistemas de dominação”, completa Weil.

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Precisaríamos de dizer algo mais sobre as mortes das vidas negras, inclusive das crianças? Vomitar essa normose é fundamental para nos curarmos dos vícios necropolíticos que transformam o insuportável e o inumano em torpor viciante e repetitivo. Basta!

Alexandre Filordi (DED/UFLA); Ellen Gonzaga L. Souza (UNIFESP)

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1 comentário

  1. Não, não precisariam dizer mais nada, não fossem estes “ circuitos neocolonizadores de dominação psíquica, afetiva e corporal” que vocês tão bem descrevem tão eficientes.
    Problematizar o limite social de suportabilidade e de aceitação da perda de tantas vidas negras é uma conduta que precisa ser reiterada todos os dias, até que possamos quebrar o ciclo vicioso da negação. Sentir vergonha, culpa, arrependendimento e vontade de reconhecer e “reparar” os crimes. Certamente muitas gerações ainda serão sacrificadas. Talvez tenhamos mesmo que criar uma linguagem diferente e vomitar, mas vomitar muito para conseguirmos demonstrar a intensidade da violência, sem filtro, sem verniz.

    Só neste ano de 2020 foram inúmeras as mortes facilmente evitadas e abordagens policiais degradantes e humilhantes, quando não resultaram em morte física. Esse constructo, complexo de Miguel Otávio, é uma boa chave de análise para entender a força residual das relações de colonização. Nas palavras de Grada Kilomba, o Brasil representa uma história de sucesso colonial, com hierarquias que não foram alteradas ao longo do tempo. As posições de poder nunca foram compartilhadas. A própria linguagem mantém as amarras das perspectivas dos grupos dominantes. Não temos um léxico próprio para tratar as tensões étnicas como tensões étnicas. Há um corte, uma separação que nos coloca fora da humanidade, o que torna permissível sermos sujeitados a qualquer grau de violência física ou simbólica. Obrigada pela pelas reflexões…

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