Crime e castigo no governo Bolsonaro, por Wilson Luiz Müller

Em pouco mais de uma semana, terá sido alcançada a duplicação da meta da matança dos 30 mil perseguida há anos por Bolsonaro.

Crime e castigo no governo Bolsonaro  

por Wilson Luiz Müller

Por que alguém que, ao deparar-se com um morto, teria a ideia de esconder o cadáver para que a morte não se tornasse pública?

Os militares que comandam o Ministério da Saúde, ao pretenderem esconder da sociedade os mortos pela Covid-19, estão dando a entender que tem responsabilidade pela mortandade absurda de dezenas de milhares de cidadãos brasileiros. Não assumissem para si a culpa, não haveria por que ter a preocupação de não informar corretamente o número de mortos.

Há um aspecto psicossocial nesse comportamento das autoridades do governo Bolsonaro. Na medida em que determinados agentes praticam crimes, ou tem a intenção de praticá-los, vão deixando pistas para que os mesmos sejam descobertos em seguida.

A lógica desse comportamento anacrônico é desenvolvida com genialidade pelo escritor russo Fiodor Dostoiévski no romance Crime e Castigo. Após cometer um crime, por sentimento de culpa e pelo desejo inconsciente de ser punido, o protagonista do livro vai semeando pistas para ser descoberto.

Há também no comportamento esquizofrênico desses agentes a intenção política, no sentido mais rebaixado, de galvanizar o apoio de uma minoria inexpressiva de fascistoides idiotizados pela máquina de mentiras bolsonazista, conforme revelado pela Operação comandada pelo STF contra o chamado gabinete do ódio.

O que os militares nomeados no Ministério da Saúde tem feito para minimizar as mortes e o sofrimento decorrentes da pandemia ainda não se sabe. O que permite a conclusão preliminar, também válida em relação aos outros 3.000 militares ocupantes de cargos comissionados nos ministérios, de que são movidos pela possibilidade de engordar seus contracheques (por isso o apelido de Centrão Fardado) e pela vontade de dar uma mãozinha ao Bolsonaro no esforço de governar o Brasil como se fosse uma colônia dos Estados Unidos de Donald Trump.

Ao pretender esconder a realidade das mortes pela Covid-19, os militares do Ministério da Saúde revelam estar cientes da sua omissão em relação ao que lhes era exigido ou de terem praticado atos contrários aos recomendados para o enfrentamento da crise sanitária provocada pela pandemia.

Há um agravante se os erros, por ação ou omissão, tiverem sido motivados por interesses meramente político/ideológicos. Nesse caso estaria configurado o  descumprimento puro e simples dos deveres a que estão submetidos todos os agentes públicos, sejam eles concursados para o cargo, sejam eles ocupantes de cargos de livre nomeação, uma vez que ao agente público somente é permitido fazer o que expressamente a lei determina.

Relaciono abaixo questionamentos sobre atos ou omissões de agentes públicos que, isoladamente, talvez não revelem dolo ou a intenção da prática de crimes. Porém, considerados em seu conjunto, todos num mesmo sentido, e sendo já mensurável o resultado produzido, e tendo ainda em vista a tentativa de ocultar esse resultado como se decorrente da prática de crimes, pode-se concluir pela existência de indícios suficientes a justificar uma investigação dos fatos para apuração das responsabilidades:

  1. quais os critérios técnicos que foram usados para a nomeação de militares em cargos-chave no Ministério da Saúde?
  1. a nomeação de pessoas sem qualificação técnica exigida para esses cargos contribuiu de alguma forma para que o número de mortes pela pandemia fosse superior ao que seria esperado caso o Ministério da Saúde adotasse as medidas científicas recomendadas pelos órgãos internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde- OMS?
  1. quem foram as pessoas responsáveis por essas nomeações de militares sem a devida competência técnica para assumir os cargos?
  1. Quais foram as motivações para essas nomeações que não levaram em conta as competências técnicas necessárias?
  1. A assinatura do protocolo da hidroxicloroquina, pelo Ministro da Saúde, general Pazuello, contribuiu de alguma forma para induzir a procedimentos médicos não recomendados pela ciência?
  1. O ministro da saúde, pelo fato de não ter formação acadêmica na área médica, tem competência para assinar o referido protocolo?
  1. Os militares nomeados em cargos de confiança no Ministério da Saúde cumpriram, em relação à pandemia, as recomendações técnicas e a legislação pertinente ou agiram em desacordo com essas diretrizes?
  1. Essas situações ocorridas no Ministério da Saúde, em plena pandemia, contribuíram para que o número de mortes fosse superior ao esperado/necessário caso fossem adotados os protocolos recomendados pela OMS?

Em pouco mais de uma semana, terá sido alcançada a duplicação da meta da matança dos 30 mil perseguida há anos por Bolsonaro. Projeções estatísticas de respeitados cientistas agora falam que no Brasil os mortos pela Covid podem chegar a centenas de milhares.

Não dá para continuar aceitando que isso seja uma fatalidade. Há elementos demais mostrando que as pessoas não estão morrendo porque precisam morrer, mas que elas estão sendo mortas, de morte matada, por ações e omissões deliberadas. O fato de o Brasil atingir esses números absurdos não é obra do acaso. É obra de agentes públicos que precisam responder por seus atos.

Ainda há tempo para interromper a matança. É preciso que tenhamos a coragem de imitar Ulisses Guimarães quando ele disse, expressando o sentimento de milhões de brasileiros: “temos nojo da ditadura”.

Agora é hora de dizer:

Temos nojo de agentes públicos (militares) que não cuidam da vida das pessoas e que, por ação ou omissão, conduzem dezenas de milhares de brasileiros à morte.

É preciso varrê-los para fora. É preciso levá-los aos tribunais para que respondam pelas mortes dos inocentes que poderiam ter sido salvos.

Wilson Luiz Müller – Integrante do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

 

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