Crise epistemológica, política e universidade, por Eliseu Raphael Venturi

Se há muito é consabida a correlação poder e verdade, não se distancia muito de tal equação o conhecimento na relação desta verdade e as profundas implicações éticas desta dinâmica.

Detalhe de Alexandre-François Desportes, Caça ao Lobo, 1725[i].

Crise epistemológica, política e universidade

por Eliseu Raphael Venturi

Poucas dúvidas restam hoje de que, por uma parte considerável e extensa dos problemas sobrepostos que se agravam e assolam o território nacional – e internacionais – perpassa-se um fio de crise epistemológica como uma das principais causas de transtornos, irracionalidades e incúrias nas ordens do político, do jurídico, do social, das instituições e das micropolíticas.

E não se trata de uma supremacia das conhecidas racionalidades: trata-se apenas de um apego mínimo a regras básicas dos jogos tais quais historicamente formados, custeados e postos em curso, atualmente.

Os efeitos desta sorrateira crise epistemológica são não apenas destrutivos de certas consolidações sociais como corroem a relação entre os poderes, a atuação das instituições, a interação de meios de comunicação, opinião pública, sociedade civil, e as possibilidades de convivência e manejo de conflitos. Consomem-se, assim, as possibilidades destas organizações alcançarem níveis de eficiência e efetividade, sem, contudo, haver mínimo substitutivo em vista.

O jogo é, o tempo todo, posto ele mesmo em xeque como cartada decisiva, em certos movimentos que não precisariam, o tempo todo, passar pela coação da morte e do suicídio, em uma retroalimentação paranoica que apenas acelera o processo de degradação, de perda do sentido social do futuro e das justificações do presente. Sobrepõem-se, portanto, dois vazios, insuflados pelo medo, ansiedade e apreensões permanentes – estes, por sua vez, agravados por contextos como o da atual pandemia.

Explica-se: em consideráveis discussões ditas polêmicas, preocupantes, censuráveis e deploráveis que a vida pública atual suporta a duras penas e dores, há uma distorção de conhecimento de base, que pode ser tanto de um conhecimento de ordem deôntico-normativa – relação dos agentes com as obrigações dos seus estatutos, o que vai desde o conhecimento material das normas até a conformação das condutas conforme preceitos – quanto do conhecimento dos cenários de intervenção, o que representa o estado da arte dos objetos mesmos do debate específico.

Frisa-se: uma crise epistemológica não se confunde com alegações batidas de uma crise de valores ou uma crise de verdades, tampouco a discordâncias científicas sobre métodos, por exemplo; ela diz respeito, de modo mais próximo, a uma postura nua e crua do sujeito diante das possibilidades de conhecimento e de ação, disponíveis em seu tempo de vida e existência, e que o impelem em diferentes intensidades segundo repertórios, constructos, conteúdos e continentes.

De um modo simplificado, o agente de uma situação deveria se perguntar, primeiro, segundo os papeis e funções que exerce e as posições que ocupa, a quais regimes está obrigado, em que medida estas obrigações o limitam, em que medida estas obrigações são legítimas e cogentes e como definem sua cognição. Por outro lado, deveria se preocupar em compreender como está, como se apresenta, a discussão do tema sobre o qual sua ação e intervenção são demandados em decorrência desta posição que ocupa em um sistema institucional – isto envolveria uma ponderação constante, que costuma se chamar de razoabilidade.

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Com isso, não se pretende afirmar, ou acusar, o sujeito de ignorância – desconhecimento puro e simples das alegadas dimensões – ou de alguma falha moral ou de caráter, qual seja, a de falsear um conhecimento adquirido em prol da defesa acirrada de um interesse, uma crença, uma convicção, uma ideologia. O que se precisa ressaltar é que há um entendimento, por vezes individual, por vezes coletivo, sobre o papel da informação, da linguagem e dos usos das palavras e dos discursos em torno ao político, ao decisório, à definição de agendas e prioridades.

Isto toca de leve o problema da tolerância, na medida em que ultrapassa, para baixo, os limites do tolerável, agravando a possibilidade da diferença e instalando-se no terreno do implosivo, um implosivo que não se faz segundo um espírito renovador, revolucionário, anárquico ou formas semelhantes de renovação do status quo, mas, antes, se baseia em uma estratégia de forças em um jogo que, como dito, vai contra a viabilidade do jogo, do que se impõe, assim, seu questionamento intenso e radical, posto que sobre si paira o peso da desconfiança.

Deste modo, pode-se afirmar que violências, truculências, grosserias, negacionismos, discursos de ódio, preconceito, exclusão, extinção, desinformações e informações inverídicas, inverossímeis e falsas, ilegalidades, inconstitucionalidades, inconvencionalidades, bem como práticas antidemocráticas em franca aceleração, todos restam suas motivações – por mais que sejam de caráter político explícito – em distorções do conhecimento, intencionais ou não, conscientes ou inconscientes, mas na maioria dos casos recuperáveis, em sua estruturação como mensagem e como organização de pressupostos, a partir de falhas epistêmicas.

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Estas falhas são uma desconexão ou desligamento dos estatutos de conduta – regras do jogo – tumultuadas no embaçamento dos estados de arte, o que desliza por dispositivos fantasiosamente retóricos e absurdamente inestéticos em diversas falácias sem ironia. Os campos do meio ambiente, da educação, dos direitos humanos, parecem inacreditavelmente estarrecidos com estas dissociações, o que na arena pública se apresenta como uma violação das possibilidades de enfrentamento técnico e jurídico de situações apresentadas.

Instala-se um espaço delicado em que, ao mesmo tempo que não se pode ceder ao jogo perverso do dogmatismo, não se pode renegar pura e simplesmente os cenários de historicidade, o sentido da temporalidade e as obrigações da hermenêutica e da argumentação, a partir dos quais se podem pensar em jogos toleráveis e possíveis de racionalidade pública. Não se trata de sobrelevar a ética da comunicação, ou de ignorar seus riscos, mas sim de recuperar um sentido mínimo de seriedade, de profissionalismo e de formação e atuação democrática, sobre a qual se projeta intensamente um sentido crítico que, do mesmo modo, não é meramente destrutivo, mas, antes, analítico, pontual e propositivo, no espírito pragmático condizente com os modelos constitucionais administrativos vigentes. O sentido… o valioso sentido!

Se há muito é consabida a correlação poder e verdade, não se distancia muito de tal equação o conhecimento na relação desta verdade e as profundas implicações éticas desta dinâmica. A Universidade – não à toa tem sido objeto de tantos ataques – é um espaço, apenas um deles, mas muito forte, não apenas privilegiado como vocacionado para a construção deste complexo encadeamento de conhecimento, compreensão, crítica, argumentação, substratos linguísticos que, além de sua dimensão performática e política “por si”, formam a base de uma atuação política propriamente dita, institucional, reitera-se, séria, profissional, sintonizada e comprometida com tradições de conhecimento, linhagens de entendimento e de crítica, viabilidades de desconstrução e potenciais propositivo-construtivos.

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A formação ética, cívica, laica, prospectiva, propositiva, não é apenas um dever como objeto de ataques múltiplos, incapazes de admitir diversidades, pluralismos, multiplicidades e singularidades senão sob o signo da eliminação universal. O exercício de formação e extensão são indispensáveis para o agir consciente (das obrigações do estatuto da ação e do estado da arte) sintonizado com as demandas sociais, permitindo-se a crítica racional e analítica sem se redundar em violências lunáticas, permitindo-se o exercício da autocrítica e da crítica institucional sem se recair na ofensa, no ataque, na insanidade ou em ilicitude, crime. Epistemologias são políticas, mas independem, com bom espaço, de partidos, e é esta desvinculação do conhecimento que necessita ser assegurada, porque é o que permite abrir a arena de negociações.

Quando discursos advindos de diferentes espaços e com diferentes pretensões de significação possuem uma considerável identidade de termos e alegações, há algo a se preocupar: é preciso avançar a uma homogeneidade das palavras e um repensar – ou pensar – dos rumos e ações. A crise epistemológica se deflagra com conservadores boca-suja, militares indisciplinados, cristãos ímpios, atuações ideológicas contra ideologias, liberais devotos do privado servidores públicos, antiestadistas regentes de Estados, detratores do público em público, políticos apolíticos apocalípticos. É um fato que a contradição constitui o humano, mas a técnica é justamente o esforço de manejar certas incompatibilidades. Pelo jeito, na fauna epistemológica há muito conhecimento a ser revisto e muita palavra a ser preservada, se ainda pretendermos que não todos os dicionários do mundo devam ser revogados – bibliotecas incendiadas, ou Universidades encerradas.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia pela UFPR.

[i] Disponível em: <https://mba.rennes.fr/fr/le-musee/les-incontournables-du-musee/fiche/francois-desportes-la-chasse-au-loup-36>. Acesso em: 24 maio 2020.

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