Crise impõe “arrocho” de R$ 45,9 bilhões às famílias, por Lauro Veiga Filho

Além da perda de renda, os trabalhadores passaram a enfrentar taxas de desocupação equivalentes aos níveis registrados em meados de 2017, na saída da recessão de 2015/16.

Crise impõe “arrocho” de R$ 45,9 bilhões às famílias

por Lauro Veiga Filho

A massa real de rendimentos do trabalho, calculada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), encolheu quase 5,6% entre o trimestre setembro a novembro do ano passado e os três meses terminados em maio deste ano, em números atualizados com base na inflação. A valores de maio deste ano, a soma de todos os salários recebidos pelos trabalhadores formais e informais caiu de R$ 218,84 bilhões para R$ 206,62 bilhões, a mais baixa desde o primeiro trimestre de 2018. A redução, nessa conta, foi de R$ 12,22 bilhões.

Mas os dados não refletem todas as perdas sofridas desde o começo da crise. Como reforça o IBGE, a massa real inclui apenas os rendimentos provenientes do trabalho, “não incluindo, portanto, rendimentos de outras fontes, tais como aposentadoria, aluguel, Bolsa Família, Benefícios de Prestação Continuada (BPC), os auxílios desemprego e emergencial”, entre outros benefícios. Uma aproximação pode ser percebida a partir dos dados elaborados pelo Banco Central (BC). Embora mais completas, essas estatísticas são divulgadas com atraso maior e o número mais recente refere-se ao mês de abril.

De qualquer forma, as estatísticas do BC fornecem uma visão mais próxima de como a crise vem afetando os orçamentos familiares, afetados duplamente pelas medidas de afastamento e pelo desemprego crescente. Os números publicados pela autoridade monetária são nominais, mas, numa estimativa construída com a ajuda de indicadores de inflação do IBGE, foi possível atualizados até abril deste ano. No trimestre encerrado naquele mês, a massa salarial ampliada disponível alcançou R$ 274,82 bilhões, o que significou uma retração de 14,3% em termos reais frente ao último trimestre do ano passado. Considerando um valor corrigido de R$ 320,67 bilhões para a massa disponível em dezembro, as famílias deixaram de receber aproximadamente R$ 45,86 bilhões.

O cálculo do BC soma os rendimentos do trabalho recebidos pelas famílias mais benefícios previdenciários e de programas de proteção social do governo, descontados os pagamentos na fonte para o Imposto de Renda e as contribuições recolhidas à Previdência. Em tese, considerando sua concepção e objetivo, o conceito de massa salarial ampliada disponível deveria incluir o auxílio emergencial anunciado pelo governo para que as famílias mais vulneráveis pudessem enfrentar os efeitos da crise sanitária, já que os primeiros pagamentos começaram a sair na segunda semana de abril. Mas o BC não chegou a confirmar a inclusão desses pagamentos em sua série estatística. De uma forma ou de outra, a redução observada foi muito mais intensa do que aquele registrada pelos rendimentos do trabalho, apurados pelo IBGE na PNADC, e mostram um cenário dramático para as famílias, especialmente para aquelas de renda baixa e em situação de pobreza, obrigadas a sair às ruas na luta pela sobrevivência e sujeitas a riscos maiores de contaminação e morte pelo novo coronavírus.

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Empregos em queda

De volta à PNADC tradicional, além da perda de renda, os trabalhadores passaram a enfrentar taxas de desocupação equivalentes aos níveis registrados em meados de 2017, na saída da recessão de 2015/16. Entre os trimestres finalizados em fevereiro e maio deste ano, o desemprego elevou-se de 11,6% para 12,9%, diante de 12,3% nos três meses finalizados em maio de 2019. Os números do desemprego, como já mencionado, deixaram de refletir as tendências reais no mercado de trabalho desde a pandemia e a adoção de medidas de distanciamento social.

Os números trimestrais da PNADC mostram, por exemplo, que o número de pessoas desempregadas chegou a experimentar leve recuo entre março e maio (sempre considerando o trimestre móvel encerrado em cada um daqueles meses). Eram 12,850 milhões de desocupados no primeiro trimestre deste ano, número reduzido para 12,710 milhões no trimestre março a maio (140,0 mil a menos, num recuo de 1,1%).

Mas a chamada força de trabalho potencial, que inclui todos os trabalhadores que deixaram de procurar trabalho por falta de opções (ou por conta das medidas de afastamento), mas que desejariam trabalhar, experimentou um salto de 43,0% no período, o que ajudou a mascarar o desemprego real. Esse contingente de trabalhadores avançou de 8,303 milhões para 11,874 milhões, ou seja, 3,571 milhões a mais. Como se percebe, esse número já se aproxima do total de desempregados. Na soma do número de desempregados com o total de pessoas na força de trabalho potencial, são 24,584 milhões de trabalhadores afastados do mercado, o que significa 93,4% a mais do que o número oficial de desemprego.

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Não causa estranheza, portanto, que a subutilização da força de trabalho tenha alcançado níveis recordes em maio, somando 30,731 milhões de pessoas, com a taxa de subutilização atingindo 27,5%. O nível de ocupação, medido a partir da relação entre o total de pessoas com alguma ocupação e o número de pessoas em idade para trabalhar, chegou pela primeira vez na história da PNAD a 49,5%. Isso significa que pouco mais de 50 a cada 100 pessoas com mais de 14 anos não conseguem um trabalho.

Foram fechados 8,616 milhões de empregos entre o final do ano passado e maio deste ano, pois o total de ocupados saiu de 94,552 milhões para 85,936 milhões, em queda de 9,11%. Praticamente 86,5% dessa redução veio de ocupações informais (sem carteira, ocupados sem CNPJ, subocupados por insuficiência de horas trabalhadas e trabalhadores não remunerados). Na soma geral dessas categorias, o número baixou de 48,025 milhões para 40,572 milhões de dezembro para maio (7,453 milhões menos, numa queda de 15,5%).

 

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