Da China para os EUA: Covid-19 e o impacto nas cadeias de fornecimento e na reeleição de Trump, por Alexandre Cesar Cunha Leite

A interdependência presente nas relações econômicas entre EUA e China tende a dificultar a plataforma nacionalista do republicano.

Crédito da imagem: Frederic J. Brown/AFP/Getty Images

do OPEU – Observatório Político dos Estados Unidos

Da China para os EUA: Covid-19 e o impacto nas cadeias de fornecimento e na reeleição de Trump

por Alexandre Cesar Cunha Leite

A pandemia da COVID-19 tem acentuado seu impacto nas relações comerciais entre China e EUA. Uma vez que a China é ofertante global de insumos produtivos e a indústria norte-americana está entre os principais compradores, é coerente supor que uma queda na atividade produtiva chinesa afete a economia norte-americana. Essa situação tende a transpor o efeito econômico, influenciando também o rumo político dos EUA para a eleição que se aproxima.

Para além dos efeitos que as quarentenas (uso o plural pois estas são móveis e têm prazos de adequação aos casos – como vem ocorrendo recentemente em Beijing) têm nos trabalhadores e, consequentemente, nas atividades das fábricas, a doença afeta diretamente a saúde dos trabalhadores e sua participação na produção. Soma-se a este primeiro elemento o recrudescimento do protecionismo como marca da política comercial norte-americana. Natural esperar um efeito decrescente na produção global, como as previsões têm registrado.

Mesmo com o gradual retorno da atividade econômica em curso na China, a previsão otimista é de uma taxa de crescimento reduzido da economia, bem abaixo dos 6,0% planejados. Ao mesmo tempo, a previsão para o restante do mundo é de queda nas taxas de crescimento, incluindo os EUA, conforme a tabela abaixo.

Considerando-se a existência de uma forte relação comercial entre China e EUA, especialmente no que diz respeito ao fornecimento de insumos na cadeia produtiva, a questão que emerge é: a economia norte-americana estaria duplamente sujeita a uma queda significativa em seu desempenho?

Explico: os dados relativos ao desempenho da economia norte-americana, que estavam apresentando melhora até 2019, indicam que o desempenho doméstico para 2020 não repetiria o desempenho dos últimos dois anos (aproximadamente 3,0% em 2018, e 2,3%, em 2019).

Logo, o primeiro efeito seria decorrente do próprio desempenho doméstico da economia norte-americana. É justo supor que os Estados Unidos, assim como os demais países, terão sua economia impactada pelas consequências da pandemia, entre outros fatores, pelo efeito no mercado de trabalho (com o corte de vagas, ou redução salarial, por exemplo) e na saúde dos trabalhadores. Até 6 de julho de 2020, os EUA eram o país com maior número (130 mil) de óbitos pela COVID-19, com mais de 2,8 milhões de pessoas infectadas.

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O segundo elemento que constituiria o duplo efeito é a dependência da oferta de insumos produtivos derivados da China. Uso como exemplo os dados de importação de maquinaria originária da China por parte dos EUA. Em março de 2019, os EUA haviam importado o montante de US$ 7,69 bilhões em mercadorias da China, tomando-se exclusivamente o setor de maquinaria. No mesmo mês de 2020, para o mesmo setor, o montante registrado foi de US$ 4,41 bilhões. Assim, pode-se especular que a economia norte-americana sofre uma queda inicialmente de origem endógena que está sendo acentuada pela dependência de fornecedores externos, no caso, a China.

Os informes técnicos relativos ao fluxo de comércio norte-americano indicam que, no primeiro quarto de 2020, as importações de insumos de origem chinesa sofreram uma queda significativa na comparação com os meses anteriores, como se vê no gráfico.

Quando se acumulam os efeitos da COVID-19 no desempenho das economias, a política tarifária norte-americana (principalmente voltada para produtos chineses) e a preocupação do Estado chinês em manter a oferta interna (estratégia do PCCh desde Deng Xiaoping), pode-se cogitar um efeito relevante na economia norte-americana.

Entre outros motivos, destaco: a substituição de fornecimento tende a encarecer o processo de produção, elevando o preço das mercadorias no mercado interno norte-americano. Em um momento de queda no desempenho econômico e de redução de renda interna, essa pode ser uma situação que complicaria a sustentação do argumento econômico de Donald Trump na corrida eleitoral para se manter na Casa Branca.

Pode piorar, porém: em um ambiente de queda da renda disponível, de incerteza quanto ao comportamento do mercado de trabalho e de descontentamento quanto à política segregacionista de Donald Trump, uma elevação no preço dos insumos decorrente da troca de fornecedor (para um outro país asiático, ou um fornecedor europeu, visto que estes insumos são intensivos em tecnologia) pode gerar uma elevação de preços internos não esperada e pouco adequada ao momento eleitoral (e de baixa popularidade de Donald Trump).

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Há fornecedores asiáticos (como Índia, Vietnã, Bangladesh e Indonésia) que poderiam substituir a China, mas prevalecem incertezas quanto ao atendimento às demandas norte-americanas, a prazos de entrega e ao tempo destinado à adequação dos novos insumos à atividade produtiva. As possibilidades de substituição de fornecedores vindos da Europa são mais caras, logo, tendem a elevar o preço da mercadoria final.

A adequação ocorre também do lado norte-americano. Grandes conglomerados e empresas de grande porte trabalham com a possibilidade de substituição de fornecedores. Já pequenas e médias pequenas empresas tendem a ter maior relação de dependência com um fornecedor comumente associado ao preço da mercadoria, pois suas margens de ganho são inferiores. Assim, em um primeiro momento, o impacto da queda na oferta de insumos produtivos vindos da China tende a afetar o conjunto da atividade produtiva norte-americana.

Diante da diferença de capacidade decorrente do tamanho das empresas e das margens de negociação da gestão de estoques, também associada ao tamanho das firmas, a tendência é, no entanto, que os empresários de menor porte sejam mais atingidos. A tendência é que grandes empresas e grupos empresariais, devido a sua estrutura organizacional, tenham maior reserva de estoque, assim como opções de fornecimento de insumos produtivos – sejam estes bens básicos, ou insumos intensivos em capital (especialmente, intensivos em tecnologia). Já pequenos empresários locais, ou regionais, fazem sua gestão de contratos, em tal cenário, com um número reduzido de fornecedores, o que tende a gerar uma relação de dependência.

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Frente a uma situação de crise que atinge diretamente a produção e o fornecimento de insumos produtivos, tudo leva a crer que o impacto será sentido de forma mais dura por estes empresários de pequeno e médio porte. Uma vez que estes empresários não possuem um suporte financeiro capaz de segurar uma redução na produção e no consumo, situações como estas, impostas pela redução da atividade e pela dificuldade de acesso aos insumos produtivos, tendem a trazer prejuízos que podem levar à quebra. Ao fim, pode-se esperar que um efeito de concentração ocorra na atividade produtiva norte-americana direcionado aos grandes conglomerados e às empresas de grande porte. Assim, cai por terra o discurso nacionalista de Donald Trump, abraçado pelos pequenos empresários nacionais.

A interdependência presente nas relações econômicas entre EUA e China tende a dificultar a plataforma nacionalista do republicano. Na atual conjuntura, dada a atual condição de distribuição produtiva global e, tão relevante quanto, a situação econômica – produtiva especialmente – norte-americana, a plataforma nacionalista de Trump parece descabida e distante da realidade produtiva global. O caso da relação comercial presente na cadeia de fornecimento de insumos produtivos, especialmente de maquinário e insumos de base tecnológica, mostra que os EUA não possuem, no atual momento, condições de decretar uma autonomia produtiva.

O discurso nacionalista utilizado frequentemente pelo empresário republicano não encontra eco na realidade econômica global, especialmente quando se refere à esfera produtiva e à atual cadeia produtiva e de fornecimento de insumos vigente. E, como dito, o caso das cadeias de fornecimento aqui apresentado é a ilustração de apenas uma das situações de dependência norte-americana diante da relação econômica e comercial existente com a China.

Alexandre Cesar Cunha Leite é pesquisador do INCT-INEU e professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

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1 comentário

  1. Nassif: se o problema dos gringos donos do Quintal onde moramos for (só) esse, tá resolvida a questão. Sem essa de “mercados alternativos” pra produção (com trabalho “escravo”). Vietnã, India etc, nada disso. Os caras têm a AmericaLatina (do México pra baixo) onde montam e desmontam governos como se fosse brincadeirinha de criança. Se alguma das chamadas (impropriamente) “Nações” tenta sair da linha a “America-para-os-americanos” entra em ação. Contam com as Elites, exploradores dos locais, e de seus serviços de inteligência para desestabilizar quem mijar fora do penico. E se a coisa engrossar, põe seus sabujos fardados pra povalha lembrar quem é o Sucerano. O exemplo mais próximo tá aqui, em Pindorama. Do Judiciário, do Legislativo e, sobretudo, do Executivo a quase totalidade ou tá na mão ou tá no bolso. Muitas vezes, em ambos. O servilhismo das baionetas (e de seus AsasDuras) é de dar vergonha a qualquer que se pretenda Povo. Mesmo na Pandemia, prá ajudar o Patrão, o chefe do Executivo compra hidrocloraquina deles, isso quando seus laboratórios não enchem o serviço público do “veneno”, tentando economizar dinheiro com os óbitos dos aposentados e a diminuição (significativa) dos que reclamam de moradia, segurança, educação, transporte e (olha a piada) proteção. Por isso acho que os Ômes nem devem se preocupar com a questão da produção interrompida na China. Vem pra cá, que a classe massacrante (agora sob os auspícios “avivados”) garante (como gel-ungido) produção tranquila, com o gado já amansado e sem risco algum a ameaçar aquela economia. Vem…

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