Da forma que anda a esquerda, ela não ganha em nada com a disputa entre Moro e Bolsonaro, mas a direita sim, por Marcelo V. Miranda Barros

Enquanto a esquerda comemora a rasteira de Moro em Bolsonaro ou dizendo coisas como “eu avisei” aos bolsonaristas, a vitória não é nem de longe da esquerda, mas a ascensão de uma nova e poderosa figura para a direita.

Da forma que anda a esquerda, ela não ganha em nada com a disputa entre Moro e Bolsonaro, mas a direita sim

por Marcelo Vinicius Miranda Barros

A esquerda, da forma como está, não ganha em nada com a disputada entre Sérgio Moro e Jair Bolsonaro, pois o que está diante de nossos olhos é a direita se erguendo. É a evidente tentativa de tirar o PSDB da classe de partido político nanico, que foi o efeito do golpe contra a então presidenta Dilma Rousseff, do PT. Foi um tiro no pé da própria direita. Desde o golpe, o PSDB perdeu força. A crítica da Rede Globo ao atual presidente da República foi sempre com esse intuito: tirar Bolsonaro (extrema direita) e tirar a esquerda para ficarem como sempre ficaram desde Fernando Henrique, que é o DEM, antigo PFL, e o PSDB no poder. Enfim, a retomada dos tucanos.

A jogada era Moro, depois da lava-jato, virar em ministro no governo do PSDB, mas na última eleição presidencial este se tornou em um partido nanico, ao mesmo tempo em que o antipetismo estava em voga – ainda está, dando, então, vazão para extrema direita. Assim, Bolsonaro cresceu.

Enquanto a esquerda comemora a rasteira de Moro em Bolsonaro ou dizendo coisas como “eu avisei” aos bolsonaristas, a vitória não é nem de longe da esquerda, mas a ascensão de uma nova e poderosa figura para a direita. No final é a direita se organizando novamente. E não só tem Moro, tem ainda Doria, Maia e Mandetta, por exemplo. Nessa, a esquerda fica em silêncio desde a posse do Bolsonaro. Já a direita foi capaz de articular e crescer nas falhas do próprio Bolsonaro. A direita, no geral, não tem grandes teóricos como a esquerda apresenta ter, mas são práticos e sabem aproveitar o descuido alheio.

Portanto, ficam as questões: qual o benefício para nós, como esquerda, se o presidente Bolsonaro cair? Não vamos inflamar os pulmões e dizer depois: “pelo menos tiramos Bolsonaro!”. Isso seria um tiro no nosso próprio pé também. Não fazemos nosso dever de casa há tempo, assim, se Moro derrubar Bolsonaro, o mérito é dele. Somente dele. Não tiramos vantagem nenhuma nisso, se ficarmos só soltando notas de repúdio ou “zombando” dos bolsonaristas. Está mais que evidente que essa ofensiva que estamos vendo contra Bolsonaro nada mais é do que as prévias para escolher os candidatos da direita para a próxima eleição presidencial.

A direita tem prática, aproveita o descuido alheio. A esquerda tem que parar de teorizar o mundo o tempo todo. Tem que aproveitar o descuido da direita também. Por exemplo, um fio condutor é se valer do elogio de Moro ao PT e que repercutiu até em rede nacional de televisão, como a Globo. Ou seja, fazer o que a direita fez com Bolsonaro, se valer da fragilidade. Usar as próprias palavras de Moro contra Mouro, e isso é possível para esquerda, porém usá-las mais que algo prático – isso a direita já faz –, é preciso usá-las como uma práxis mesmo. Vimos Moro deixar brecha ao se aproveitar da brecha de Bolsonaro.

Parece bobagem, mas não é. A direita na figura de um Moro elogiar a esquerda, é um prato cheio para a própria esquerda. Lembremos que Moro se valeu das falas de Bolsonaro a respeito da Polícia Federal, deve se valer das falas de Moro também. Moro não fez nada de extraordinário, ele pegou Bolsonaro na contradição. É na contradição que algo se move. Moro também se contradiz. Na verdade, o próprio sistema atual se contradiz.

Lembremos que a condição da parcialidade presente pelas circunstâncias históricas de uma sociedade, como a nossa, leva-nos para um dos pólos opostos que movem a contraditoriedade inerente ao sistema em que vivemos. Vivemos, de fato, uma polarização partidária como, de um lado, o “lulismo” e, de outro lado, o “bolsonarismo”, do mesmo modo a polaridade geral do povo, que ora preza para uma visão mais progressista, ora preza para uma visão mais conservadora. No entanto, é graças a essa polarização, em meio a ela, que é possível levar esse conflito a sua superação em que a esquerda possa retomar com mais força. Só que nesse conflito, a esquerda não parece fazer o seu dever de casa. Há, evidentemente, notas de repúdio, partidos de esquerda e direita atacam Bolsonaro após demissão de Moro. E o que isso basta para a esquerda? Como dito no início deste texto, o mérito é de Moro e o crescimento previsto é da direita. Em que momento a esquerda está se valendo, como práxis, desse conflito?

De fato, não dá para ignorar alguma fragmentação da direita. No Twitter, por exemplo, debate sobre saída de Moro é dominado por oposição a Bolsonaro e divide a direita. Tal constatação é um levantamento da Diretoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV). Segundo pesquisa divulgada pelo FGV DAPP, que produz análises de políticas públicas, a saída de Moro gerou repúdio em 70% dos perfis engajados no debate e dividiu as bases da direita nas redes. É aqui que a esquerda deveria se valer. A situação em que vivemos é a confissão de que a sociedade se embaraçou numa irremediável contradição com ela própria e está dividida de forma “irreconciliável”.

A esquerda deve perceber que uma emancipação política se limita no fato de o Estado – que está a serviço da burguesia – ser apto em se libertar de uma limitação, como o bolsonarismo, sem que o povo verdadeiramente fique livre dela; o fato é que o Estado – enquanto ferramenta burguesa – é capaz de ser um Estado livre, mas sem que o povo seja também livre. Damos supostamente fim ao bolsonarismo, ressurgindo das cinzas o que, eventualmente, chamamos de “tucanos”, o PSDB. Então, essa suposta fragmentação da direita é resultado do processo de reorganização das forças, não de um real enfraquecimento. Depois do impeachment de Dilma, como golpe, nada de significativo surgiu da esquerda. Portanto, como deixar de apenas reagir, submetendo-se ao ritmo imposto pela direita, e passar a se mover com consistência, estratégia e propósito? O enigma é que é muito difícil saber o que a esquerda é hoje em dia. O que a esquerda propõe que seja claramente diferente da direita?

A meu ver, se há alguma fragmentação, contradição e divisão da direita, ela acontece num processo evidente – vide o ataque de Moro ao Bolsonaro e seus efeitos – de reorganização, enquanto a esquerda não se reorganiza concretamente, pois se a esquerda quiser se mover, é preciso enfrentar as contradições internas a ela, incluindo o intuito do PT de volta ao poder.

A questão não é desviar das contradições que hoje, obviamente, estão presentes tanto na direita quanto na esquerda –, mas, como atualmente parece fazer a direita, é imperioso caminhar com as contradições e enfrentar as complexidades, isso se a esquerda quiser se mover de fato e não apenas reagir, como nas notas críticas ao Bolsonaro publicadas no Twitter por figuras como Haddad, Ciro Gomes, Manuela D’Ávila, dentre outros, usando expressões como “gente, era um romance! Achei que era sobre a PF do Brasil”. As críticas, em redes sociais, evidentemente são bem-vindas, elas servem até de lenha para a fogueira da crise do governo de Bolsonaro, mas lembremos que a fogueira que estamos alimentando é da direita, figurada, no momento, por Moro. O “eu avisei” cai bem nessas horas, porém não basta, caso contrário, isso só reforça a direita que tenta se erguer para as eleições de 2022.

Em suma, não me parece que a demonização da esquerda seja somente resultado de uma manipulação da extrema direita. Pode ser que em parte, sim. Só que não há nada que se sustente sozinho, mesmo a mentira precisa de uma verdade implícita. O filósofo e antropólogo Lévi-Strauss em seu trabalho “O Feiticeiro e sua Magia” – publicado sob o titulo de “Le Sorcier et sa magie”, no “Les Temps Modernes”, 4 º ano, n º 41, 1949, pp. 3-24 –, afirma que a “meia-verdade conta uma mentira inteira”, isto é, adaptando isso a nossa conjuntura atual, a ideologia conservadora não é uma mentira no seu conteúdo, mas sim em sua forma, que oferece meias-verdades, ou parte dos fatos, encobrindo o restante, dando uma impressão de verdade (LÉVI-STRAUSS, 1975).

Portanto, a tal manipulação da extrema direita carrega algo de concreto, embora nem sempre evidente, no que tange a reação da população contra a esquerda. E a meia verdade é: o que é a esquerda, hoje? Se você não consegue ver a distinção entre os projetos da direita e da esquerda, e a sua vida não vai nada bem, o culpado é quem estava no governo, no caso o PT. Se você não consegue ver diferença, a esquerda representa tudo o que você odeia. É assim que tem funcionado. Como disse a escritora Eliane Brum, a esquerda — ou o comunismo ou o marxismo — virou esse nome para tudo o que não presta, já que não dá para saber o que ela é e o que propõe de fato[1]. Então, a esquerda existe? O que ela tem feito? A esquerda deve colocar na prática a tão dita “práxis”, isso se a esquerda quiser se mover de fato e não apenas reagir. No mais, não é o suficiente postar indignações em redes sociais, como o Twitter, ou falar contra Bolsonaro, tratando-se como uma oposição cômoda que apenas reage com notas ou dizendo o óbvio; é preciso, nessa brecha da direita, um papel de maior relevância. Se não apontarmos saídas de forma clara e objetiva – sem cair no engodo da direita que, por sinal, sabe ser bem claro ao povo –, vamos ver Moro, ou qualquer outro nessa linha, se elegendo como o próximo presidente do Brasil.

Marcelo Vinicius Miranda Barros é graduado em Psicologia pela UEFS, especialista em Psicologia, mestrando em Filosofia pela UFBA e membro da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF

Referências

LÉVI-STRAUSS, C. O Feiticeiro e sua Magia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, p. 193-213, 1975.

[1] Jornal El País. A esquerda que não sabe quem é. Publicado em 19 de dezembro de 2018.

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