Da revolta ao ódio, por Fernando Horta

O ódio social que alimenta o fascismo vai surgir pela percepção da ruptura dos locais sócio-econômicos que historicamente sempre existiram entre os "pobres" e "ricos", entre brancos e negros, entre homens e mulheres, entre héteros e homossexuais e etc. 

Da revolta ao ódio, por Fernando Horta

Muita gente tem mencionado que no Brasil de hoje vemos “revoltados”, “recalcados”, “indignados” e etc. numa percepção generalizada de que existiu no nosso passado recente uma forma de “burla”, “roubo” ou “mal feito” que deu causa à transformação que estamos experimentando no Brasil.

Não são poucos os indícios a fortalecer esta tese. De um lado os movimentos de rua se davam estes nomes, como “Revoltados On-line” e etc., do outro lado a direita se aproveitou deste sentimento tatuando a ideia (ainda que vaga) de “corrupção” no passado recente do Brasil. Sérgio Moro foi o consolidador deste processo, usando politicamente seus antigos poderes de juiz para cristalizar a noção de que as últimas décadas de governo no Brasil foram marcadas pela “corrupção”. E com esta marca, Bolsonaro se elegeu.

É preciso pensarmos a respeito. Uma parte da esquerda brasileira (especialmente a de partidos que rivalizam com o Partido dos Trabalhadores) sustenta discurso que, se não idêntico, é muito parecido. Para esta explicação, os “maus feitos” dos governos petistas deram causa a Bolsonaro, Moro, e à grande aflição que vivemos hoje. A narrativa engloba desde o “mensalão” e alinha outros “ãos” no sentido de passar a mesma ideia.

Parte da esquerda petista também comprou esta narrativa. Deixaram Zé Dirceu de lado, o próprio Lula deu discurso reclamando que ele teria sido deixado de lado porque haveria um núcleo de pessoas (em 2016, 2017 e 2018), no próprio PT, que estava defendendo o afastamento da figura do ex-presidente. Vários partidos pequenos da esquerda têm batido na mesma tecla, com argumentos da “crise econômica”, do “estelionato eleitoral” e do “choque neoliberal”. Argumentos rasos que se encaixam circunstancialmente numa narrativa de criminalização do PT. A diferença aqui é apenas de potência. Enquanto a extrema-esquerda criminaliza todo o partido, a direita liberal criminaliza as “práticas políticas” durante o tempo de governo, e a esquerda nanica criminaliza a “política de conciliação” e depois o “estelionato eleitoral de Dilma”.

Os ataques vêm de diversas frentes, e todos eles guardam como ponto comum a criminalização dos últimos anos de governo. No senso comum, coisas como “você acha que ele não roubou?” são ouvidos a todo momento. Algumas vezes até como justificativa para a crise econômica atual: “roubaram tanto que agora estamos pagando o preço”.

A verdade é que todos os esforços do PT não foram suficientes para atacar esta narrativa. E como parece que o partido não se defende, ela vai sendo plasmada e adquirindo ares de “verdade”.

Meu argumento é que a “revolta” que dá o combustível para os movimentos de 2013, para o golpe de 2016 e para o fascismo bolsonarista em 2018 é a mesma. É exatamente o mesmo sentimento que perpassa o Brasil nestes anos e que acaba gerando uma noção de verossimilhança entre as acusações e narrativas que fazem contra o PT, Lula e os últimos anos de governo. Assim, meu argumento é de que a revolta existe.

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Mas existiria a causa para esta revolta?

O PT diz que não, que ela é fruto de “manipulação da mídia”, num golpe “jurídico-parlamentar” cujo objetivo seria destruir internacionalmente o país que o Brasil estava se tornando. Outra parte do PT diz que “o partido deu causa” a este sentimento, se envolvendo em “práticas condenáveis”, “se afastando das bases” ou, até, dito mais recentemente, “estando obsoleto” em sua linguagem ou práticas políticas.

As oposições (sejam de esquerda ou de direita) acusam o partido de dar causa à “crise neoliberal” seja pelos “roubos” (argumento da direita) ou pelo “ajuste neoliberal de Levy” (argumento da esquerda).

E aqui eu quero centrar um pouco de cuidado na análise.

Me parece que estamos lidando com a revolta da classe média. Da classe média e da “pequena burguesia”, nos termos de Clara Zetkin, na exata mesma forma que se viu na Itália e na Alemanha no entre-guerras. Daí o moralismo difuso, a gritaria contra os “costumes” que usa como alvos a comunidade LGBT, as mulheres e o sexo em geral. A presença evidente de seitas e religiões com discurso moralista. O engajamento do “exército” lutando contra o “inimigo interno”, os “subversivos” e, ao mesmo tempo, entregando toda a economia para os estrangeiros. O discurso de que “somos inferiores” e o “estrangeiros são melhores”. A entrada de indivíduos no cenário eleitoral que fazem questão de se dizerem “não-políticos”, como demarcando uma distância entre si e o que “a sujeira” da política, e por aí vai …

Todo este caldo é EXATAMENTE o que se viu no entre-guerras. Sem tirar uma vírgula. Lá tinha a tecnologia nova do rádio a ligar as pessoas e difundir discursos de ódio. Agora temos as redes sociais. Lá tinhamos saído da guerra mundial e o mundo estava numa crise econômica imensa que se tornaria apocalíptica em 1929. Aqui tivemos 2008. Diante da crise, a pequena burguesia se torna especialmente agressiva, usando a política para afastar concorrentes sociais ao acesso de bens econômicos. “Concorrentes sociais ao acesso de bens econômicos” é a explicação acadêmica para o argumento das “boquinhas” que a direita diz ter terminado com o governo de Bolsonaro.

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E aqui entra efetivamente o argumento. A revolta efetivamente existe. Ela é de classe média, é pequeno burguesa, urbana, branca, machista e heterossexual contra tudo o que poderia fazer esta ordem das coisas mudar. Daí se autodenominar “conservadora”. As explicações toscas do filho do presidente para explicar o conservadorismo tentam mirar nisto aí. Um conjunto difuso de valores, mas historicamente muito antigos que foram atacados quase todos ao mesmo tempo. Esta é a revolta.

Ocorre que, assim como no entre-guerras, a revolta e a defesa dos “costumes conservadores” não ganharia a adesão que ganhou se ela não viesse atrelada à revolta contra a mudança da situação econômica individual. A revolta do costumes (que foi materializada pelos “pastores neopentecostais”, militares e pela extrema direita) só atingiu o poder de mudança que vimos porque tem também um lastro material.

O argumento de alguns partidos nanicos afirma isto, mas o faz com causas erradas. Dizem que foi o “ajuste neoliberal” de Dilma que criou esta revolta e isto é totalmente errado.

A verdade é que hoje (assim como no entre-guerras) tivemos um fato cataclísmico na economia. Em 2008, mais de um quinto do PIB mundial simplesmente evaporou. A crise foi maior em perdas econômicas do que a de 1929. O epicentro de tudo o que estamos vivendo, e ainda vamos viver, está lá. As políticas de Lula foram pensadas como um “escudo” contra a onda de 2008. Pensava-se que se conseguíssemos sobreviver à onda de choque, então poderíamos sobreviver de fato à crise em si. O que Lula não contava é com o envenenamento a longo prazo da economia brasileira e mundial. As políticas de Lula adiaram o impacto da crise no Brasil. A balança de comércio nos governos Dilma mostra bem isto. O mundo entrava, entre 2010 e 2014, em um momento de retração. Nossos principais parceiros comerciais (União Europeia, EUA e China) reduziam suas compras, seus investimentos e suas expectativas. E esta puxada de freio empurra a classe média e a pequena burguesia para o limiar da pobreza.

Daí surgem os revoltados.

Se a percepção da revolta se dá pela noção “do pobre que melhorou de vida” (argumento de Lula) ou se pela “proletarização” e empobrecimento da classe média e da pequena burguesia (argumento que faço aqui) não é importante para o sentimento da revolta. O fato é que sem uma matriz cultural que preze a uma sociedade igualitária (como o Brasil nunca teve), pouco importa se o de baixo sobe ou o de cima desce. O ódio social que alimenta o fascismo vai surgir pela percepção da ruptura dos locais sócio-econômicos que historicamente sempre existiram entre os “pobres” e “ricos”, entre brancos e negros, entre homens e mulheres, entre héteros e homossexuais e etc.

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As ondas do choque econômico de 2008, ainda que amainadas pelas políticas de Lula, não deixaram de existir, e a greve de investimentos kaleckiana da elite brasileira (entre 2013-2015), provocadas pela aventura do PSDB de questionar as eleições, formaram uma tempestade perfeita que encontrou em Cunha, Moro e Bolsonaro os três personagens que faltavam.

Para finalizar, há mais de três anos economistas sérios no mundo todo vêm chamando à atenção para uma nova crise, de proporções semelhantes à de 2008. Hoje fala-se em menos de um ano até este cenário catastrófico. Se o argumento estiver certo, se as crises materiais e a disputa pelo acesso a bens econômicos gera a polarização política (assumindo a desculpa que assumir em cada período histórico) então estamos diante da possibilidade real de que não haja eleições em 2022. Bolsonaro teria as condições perfeitas para aumentar o autoritarismo de seu regime (já em níveis altíssimos hoje) e “pelo bem do país, da ordem e da família brasileira” criar uma ditadura ainda mais violenta do que vemos hoje.

E foi exatamente assim que um cabo desimportante e preso por tentar um golpe frustrado na Alemanha em 1923, tornou-se o monstro nazista que teve que ser vencido em uma guerra mundial. Foi captando o sentimento de frustração política e empobrecimento econômico e transformando em ódio ao diferente e à política.

Se é verdade que a esquerda precisa deixar de acreditar-se reserva moral dos povos, é preciso que ela mostre à direita que esta não tem o monopólio político da violência. Ou vamos às ruas enfrentar bolsonaro enquanto as condições materiais ainda não o favorecem ou vamos experimentar uma fragorosa derrota política e aniquilação física quando da próxima crise mundial.

Se “ninguém soltar a mão de ninguém”, não haverá quem esteja com as mãos livres para socar os fascistas.

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1 comentário

  1. “A verdade é que todos os esforços do PT não foram suficientes para atacar esta narrativa. E como parece que o partido não se defende, ela vai sendo plasmada e adquirindo ares de “verdade”.”

    Este é o principal ponto. Não adianta nada ficar fazendo convocação para “as ruas”… Vão os mesmos de sempre; fica até mais fácil matar todo mundo de uma vez.

    O PT, PT, PT teve uma perda líquida de sete milhões de votos da eleição presidencial de 2010 até a de 2018. Para recuperar estes votos (assumindo que haverá eleições em 2022) é preciso aprender a se comunicar, transmitir o que fez no governo, dar resposta aa boçalidade e aa mentira, desmanchar essa imagem de ladrão… isso tudo é pra anteontem! Mas, a esquerda partidaria acha que com textao e tuitada a coisa vai…

    Do ponto de vista analítico, o debate sobre as questões estruturais é importante, mas não pode se descolar da disputa no nível da superestrutura ideológica. O discurso da direita (e da esquerda que a direita gosta) vieram de lá de trás; o antipetismo, além de atravessar toda a Transição e a Nova República, se INTENSIFICOU no momento em que o emprego e o salário estavam la em cima. É bom não esquecer disto: 2014 terminou com emprego recorde, salario em alta e inflação dentro do “combinado”. A popularidade da Dilma tomou um tombo de uma hora pra outra a partir das manifestações de 2013. A lava jato é de 2014, não nos esqueçamos disso também. O PT, PT, PT ainda conseguiu a reeleição. A partir daí que a lava jato se intensificou, e o resto é história…

    Tempo de plantar, tempo de colher…

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