De volta às catacumbas, graças a Deus! A Igreja Católica na Amazônia, por Antonio Hélio Junqueira

Ocorrido no âmbito das ações e atividades do chamado Sínodo da Amazônia (que se realiza em Roma, de 6 a 27 de outubro corrente), o “Pacto das Catacumbas” foi assinado por pelo menos 200 participantes, incluindo 80 bispos, cerca de 40 padres sinodais e leigos católicos e não católicos.

Foto Guilherme Cavalli / Cimi

De volta às catacumbas, graças a Deus! A Igreja Católica na Amazônia

por Antonio Hélio Junqueira[1]

Ocorrido no âmbito das ações e atividades do chamado Sínodo da Amazônia (que se realiza em Roma, de 6 a 27 de outubro corrente), o “Pacto das Catacumbas” foi assinado por pelo menos 200 participantes, incluindo 80 bispos, cerca de 40 padres sinodais e leigos católicos e não católicos.

Reconhecido internacionalmente como uma das lideranças éticas e espirituais mais influentes da sociedade contemporânea, o papa Francisco segue reconduzindo o seu rebanho universal na busca do seu reencontro com as bases estruturantes de uma sociedade mais justa, equânime e pacífica, baseada no que ele próprio denominou de uma “ecologia integral”. Suas posições éticas, filosóficas e políticas sobre a questão ambiental, em seus inextricáveis vínculos com os maus caminhos e descaminhos assumidos pelo capitalismo e pelo consumo na sociedade atual, têm sido explicitadas, desde que assumiu o posto papal, em uma série de documentos, entre os quais adquiriu notáveis respeito, repercussão e relevância internacionais sua encíclica “Laudato si’ – sobre o cuidado da casa comum” [2], anunciada em 18 de junho de 2015.

Distribuída internacionalmente, em oito línguas, pela Libreria Editrice Vaticana, essa carta papal foi prontamente apelidada na mídia brasileira como a “encíclica verde” e recebida com aplausos por ser considerado o documento mais contundente entre todos aqueles nos quais a Igreja Católica já abordou questões cruciais para a defesa e promoção do meio ambiente e da natureza[3].

Em continuidade, a Igreja Católica hoje revigora seu “Pacto das Catacumbas”, em novo acordo que que recebeu a denominação renovada de “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum”.

O histórico “Pacto das Catacumbas” – firmado em 1965 e celebrado no maior e mais antigo cemitério subterrâneo de Roma, as Catacumbas de Domitila – representa o momento em que a Igreja Católica assumiu a chamada opção pelos pobres. Sua renovação, em 20 de outubro de 2019, reafirma a determinação e o compromisso da Igreja Católica com a defesa, proteção e promoção dos excluídos, perseguidos e ameaçados dessa Terra de Deus.

Nesse momento de crescimento e de recrudescimento das ultradireitas fascistas, em boa parte do nosso infeliz e maltratado globo, a reafirmação da “opção preferencial pelos pobres” não é fenômeno de menor importância. Pelo contrário, trata-se da visão mais lúcida e coerente para o encontro do caminho para o enfrentamento dos desastres iminentes que já se concretizam no aquecimento global, na devastação amazônica, na tragédia desenhada pelas infindáveis e miseráveis diásporas imigratórias e na ampliação mundial da pobreza e da fome.

Ocorrido no âmbito das ações e atividades do chamado Sínodo da Amazônia (que se realiza em Roma, de 6 a 27 de outubro corrente), o “Pacto das Catacumbas” foi assinado por pelo menos 200 participantes, incluindo 80 bispos, cerca de 40 padres sinodais e leigos católicos e não católicos.

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O documento amplia, continua e aprofunda outras manifestações papais, que denunciam a ganância e as maldades decorrentes da corrupção, do roubo, conflitos, guerras e mentiras, cuja inclusão é mais do que oportuna e bem-vinda nessa era de “pós-verdade” e fake news deturpadoras da ordem mundial. O texto do pacto foi estruturado em 15 tópicos, ao longo dos quais os seus signatários apontam para o desastre do aquecimento global e a catástrofe iminente da exaustão dos recursos naturais, para a necessidade da defesa dos territórios, culturas e identidades regionais (sobretudo as indígenas, cuja sobrevivência tornou-se, de fato, uma intolerável incógnita) e para a incontornável necessidade de colocar limites ao consumismo contemporâneo, entre outros temas também inadiáveis.

Nesse contexto, a intransigente defesa da Floresta Amazônica, de sua sociobiodiversidade e da integridade da vida de seus habitantes tradicionais sobressai-se e dá o tom principal, haja vista que o pacto se consubstancia no âmbito do chamado Sínodo da Amazônia, que agrega 250 lideranças católicas na discussão do tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Participam, entre eles, 185 bispos (sendo 58 brasileiros) e 35 mulheres, além de cientistas e agentes ligados à Organização das Nações Unidas (ONU). Não se pode deixar de destacar, ainda, que o relator geral do Sínodo é o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam). Além do Brasil, participam representantes dos oito demais países componentes do bioma Amazônia: Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.

Ao reconhecer importantes limitações à sua missão evangelizadora nas áreas tropicais isoladas da vasta Amazônia e propor enfrenta-las autorizando, entre outras medidas, o ordenamento sacerdotal de homens idosos e casados, o aumento da presença diaconal feminina e a incorporação de valores e prática indígenas nas celebrações rituais católicas, as atitudes e proposições papais vêm sendo acusadas de assumir proporções abusadas, esquerdizantes e, até mesmo, heréticas. Indo ainda mais além, o discurso papal de Francisco na abertura do Sínodo da Amazônia denuncia e faz o mea-culpa da colonização ideológica promovida pela Igreja na conversão dos povos indígenas, reconhecendo o risco dessas práticas na destruição das identidades nativas.  Nesse sentido, propõe à Igreja, também no âmbito do presente Sínodo, assumir o respeito à história, culturas, estilos de vida, valores e sabedoria dos povos amazônicos tradicionais, conferindo-lhes o protagonismo sócio-histórico a que sempre tiveram o mais legítimo direito.

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Evidentemente que, nesses tempos negacionistas, autoritários e manipuladores do ódio coletivo em que vivemos, as proposituras papais vêm sofrendo toda ordem de recusas, não reconhecimentos e de tentativas de boicote dos setores mais conservadores tanto de dentro quanto de fora da própria Igreja Católica.

Nesse sentido, uma das manifestações mais ferozes e intransigentes foi feita pelo Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (IPCO) – cujo nome é o do fundador da ultraconservadora organização “Tradição, Família e Propriedade”, a famigerada TFP – em um abaixo-assinado que trazia o excerto que denuncia a suposta meta do Sínodo da Amazônia de militar em prol da “utopia comuno-tribalista pela qual uma minoria de antropólogos neomarxistas pretende manter nossos irmãos indígenas no subdesenvolvimento, confinando-os num gueto étnico-cultural, verdadeiros ‘zoológicos humanos’”.

Não é preciso ir muito longe para perceber o prato cheio para os profissionais da Análise do Discurso que aí se oferece, em um texto que reúne os oportunismos linguísticos de chamar indígenas de “nossos irmãos”, enquanto se lhes subtraem a identidade, a dignidade, terras, florestas e meios de subsistência e se cometem os atos falhos de associar, em uma mesma frase, as palavras-conceito utopia, marxismo, tribalismo e antropologia à construção de guetos étnicos. Valha-nos Deus!

Frente às perspectivas delineadas nesse artigo, a partir do discurso papal, torna-se legítimo considerar, afinal, a emergência de um novo espaço revigorador da prática social capaz de superar o pessimismo e resgatar o sonho utópico da construção de um mundo regenerado e bom.

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De fato, pode-se constatar aí o alinhamento discursivo do Papa Francisco ao que o professor e comunicólogo tunisiano Lucien Sfez (1996)[4] interpretou, na sociedade contemporânea, como a visão utópica da “Grande Saúde”. Para Sfez, trata-se da última ideologia da pós-modernidade e a utopia por excelência do século XXI, que, em seu bojo, consolida o que denominou de uma “eco-bio-religião” integradora, em toda a sua magnitude simbólica, do projeto de regeneração e de purificação da saúde integral tanto do Homem, quanto do Planeta.

O hábil, oportuno e certeiro uso dos recursos comunicativos por Francisco condiz com o papel não apenas evangelizador, mas também, informativo, comunicador e educador da Igreja nesses tempos tão imensamente sombrios. Como no dizer do eminente comunicólogo Jesús Martín-Barbero[5], pensar a comunicação na educação, implica um “mínimo de utopia sem a qual a crítica é mera queixa, muito mais impregnada de nostalgia que de futuro”.

[1] Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

[2] O nome da encíclica foi inspirado na invocação de São Francisco “Louvado sejas, meu Senhor”, que no “Cântico das Criaturas” recorda que a Terra, a casa comum, “se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços”.

[3] Para saber mais, ver JUNQUEIRA, Antonio Hélio. A Igreja entra no clima: comunicação, educação e consumo em “Sobre o cuidado da casa comum” – encíclica papal de Francisco. Comunicação, Mídia e Consumo, v. 15, n.44. set./dez. 2018.

[4] SFEZ, L. A saúde perfeita: crítica de uma nova utopia. São Paulo: Loyola, 1996.

[5] MARTÍN-BARBERO, Jesús. A comunicação na educação. São Paulo: Contexto: 2014.

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