Democracia da hipocrisia, por Francisco Celso Calmon

O movimento nos EUA, que já dura um mês, extrapolou as suas fronteiras, e está tendo reflexos em outros países, como uma onda antirracista e contra o barbarismo policial

Democracia da hipocrisia

por Francisco Celso Calmon

A população negra dos EUA não chega a 15% e promoveu um movimento contra a brutalidade racista da polícia, atraindo outras etnias, com tenacidade continuada e apoiamento crescente, cujos resultados, além dos simbólicos, como o do policial de joelhos pedindo desculpas, alguns estados já estão colocando limites na atuação das policiais.

Conquistas objetivas e também a de organização e consciência, numa sociedade cuja cultura de violência e beligerância lhe é própria.

Avanços, malgrado a postura de um presidente nazifascista, que vem tentando criminalizar o movimento e pregando a supremacia branca e enaltecendo o passado escravagista.

Em lugar de pedir perdão pelo período escravocrata e segregacionista, defende símbolos e líderes daquela época, bem semelhante à sua caricatura, Bolsonaro, que defende a ditadura e seus símbolos e torturadores como Brilhante Ustra.

O movimento nos EUA, que já dura um mês, extrapolou as suas fronteiras, e está tendo reflexos em outros países, como uma onda antirracista e contra o barbarismo policial, que se espalha em diversas partes do mundo.

No Brasil os negros são 55% da população e são também a maioria dos trabalhadores.

Os negros como as mulheres, que são 52,5 % da população, são duplamente atingidos pelo sistema, como trabalhadores, como etnia e como gênero.

Como podemos admitir democracia com racismo, com a fome, com a misoginia, com o etnocídio das nações indígenas e dos quilombolas, com os preconceitos e perseguições às minorias, como as LBGTs e ciganos?

Sempre haverá racismo, fome, desemprego, preconceitos, discriminações, enquanto houver capitalismo, seja na forma liberal, seja na forma fascista. É da sua essência ser predatório à natureza e aos seres humanos.

Enquanto a democracia vigente for a democracia burguesa, estará latente a contradição entre os que detêm o capital e os que nada detêm, a não ser as suas forças de trabalho para vender e viver sob exploração e opressão dos capitalistas.

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A democracia, consoante à Constituição Cidadã, especialmente aos seus artigos primeiro, terceiro, quinto e sexto, tem prazo de validade: ou não é cumprida ou é derrubada. Para ser sustentável, o sistema econômico vigente demanda reformas estruturais.

A nuvem ideológica dominante, que encobria a verdadeira natureza do capitalismo, foi afastada pela pandemia, que mostrou que o sistema não está a serviço da vida, não a protege e nem a dignifica. Pelo contrário: até diante da tragédia é a busca do lucro que move a engrenagem da economia.

Negros e mulheres constituem a maioria da classe trabalhadora e a maioria da nação brasileira.

O futuro só será diferente do passado de 388 anos (oficiais) de escravidão, dos 93 de autoritarismos e ditaduras e de 39 de democracia burguesa, se houver a consciência de classe para a necessária revolução social e a construção de um sistema que cumpra e garanta na prática os mandamentos constitucionais citados.

A classe trabalhadora, constituída de mulheres e homens, negros e brancos,  constitui a maioria da sociedade brasileira.

A vanguarda da luta pela revolução social e democrática caberá às mulheres e aos negros da classe trabalhadora.

O movimento recente nos EUA deu um exemplo: traçar objetivo e perseguir até alcançá-lo.

Elencar objetivos de curto, de médio e de longo prazo, traçar estratégias e táticas viáveis e conquistar a necessária unidade na prática da luta são as tarefas imediatas de todas e todos discriminados.

Apontar uma saída estrutural, nomear um sistema alternativo, resgatar conceitos e bandeiras abandonadas pelo revisionismo histórico da conciliação de classes e do peleguismo crônico, bem como, desmitificar ilusões, como a existência de uma burguesia nacional e das Forças Armadas nacionalistas, é tarefa de todos os revolucionários.

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A revolução brasileira será anticapitalista, anti-imperialista, patriótica, socialista e radicalmente democrática e popular.

A hipocrisia deve ser enterrada sob a mortalha do ingênuo republicanismo que marcou as últimas décadas.

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; ex-coordenador nacional da RBMVJ; autor dos livros  Sequestro Moral e o PT  tenham com isso? e Combates pela Democracia (2012), autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

 

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3 comentários

  1. Democracia da hipocrisia: Um título que eu não posso deixar passar batido, pois define muito do que vivemos hoje e como o Bozo pretende aprofundar esta dose de hipocrisia para se estabelecer no poder.
    É simples: Bozo já notou (e quem o mantém também) que argumentos lógicos pouco tem importância, mesmo em situações trágicas e críticas, como mortes numa pandemia e desmonte do estado em plena recessão. Esqueça razão, lógica e fatos. É um mundo de versões e distorções que sustenta no emocional, num funcionamento tipo torcida de futebol. Aliás, este é um excelente exemplo para analogia, vejam que pessoas se matam por causa de times (que lógica há por trás disto??) e é este tipo de sentimento que é usado como arma de manipulação.
    Eu vejo pessoas com nível universitário ainda hoje torcendo por Bozo. Estavam tristinhas quando Bozo apanhava sob uma chuva de fatos incontestáveis o arrasava, mas agora ficam felizes em bradar “aceita que ele é nosso presidente”, ao constatarem que sua aceitação não cai e parece até aumentar. Esta é a esfinge que está nos devorando, ou é compreendida para ser combatida ou a ditadura dos “ignorantes orgulhos” prevalecerá, travestida como uma democracia de fachada.
    Sim, porque Bozo discursa elogiando a democracia, enquanto age no aparelhamento e milicialização do estado. A hipocrisia vence porque a hipótese de ser humilde e reconhecer o erro não passa pela cabeça dos minions – nunca vão aceitar ser de um time perdedor. E são coesos nisto, num orgulho cego que levará o Brasil para o abismo. E se não houver a mesma COESÃO do outro lado, de quem enxerga o mal que isso representa, todos perderemos. Será rápida a milicialização e o aparelhamento, mas sinto dizer que gerações poderão passar para reverter este mal. É que nem botar fogo numa floresta para depois aguardar que ela se recupere.
    Enfim, tudo aponta que eles estão ganhando de 7 x 2 e que a única arma capaz de derrotar os “idiotas convictos” é uma união que parece que o PT, PDT, MDB não estão dispostos a empreender.

  2. O articulista apresenta uma abordagem e enfrentamento mais amplo, global, das pseudo-democracias utilizadas como instrumento de dominação da elite em desfavor dos discriminados, ainda que estes sejam maiorias (mulheres, negros, desassistidos) e nao apenas minorias, que, por si, já mereceriam o abrigo contramajoritário da solidariedade que deveria marcar a civilização moderna. São ótimos esboços para uma Teoria Geral da Revolução Social e Democrática contemporânea. Bom exemplo é o que a comentarista Chris traz à casuística: esse desgoverno inominável Bozoniano. Cujo combate, ao que penso, aqui e alhures, se aplica o receituário indicado pelo autor.

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