Desconexos, por Lúcio Verçoza

Desconexos. Caminhos desconexos. Na antessala, a chama de um cigarro. Por sobre ti, um quarto. Quem é você?

Festival da Record (1967). Foto: Reprodução

Desconexos

Lúcio Verçoza

 

Para Sheley

Desconexos. Caminhos desconexos. Na antessala, a chama de um cigarro. Por sobre ti, um quarto. Quem é você? Quem é você que faz o quarto se deitar sobre ti? Não sei. Tua mão me parece uma cordilheira. Como escalá-la? Hesito, para me sintonizar com a montanha se exige certa ousadia. O festival da Record de 1967. Lembro de tudo, como se estivesse lá. Como o amigo que conhecia mais a Martinica do que se morasse nela. Quando finalmente foi, já conhecia tudo. E mesmo assim ficou encantado. Uma vida sonhando com a Martinica. E finalmente o dia. A noite que saltitou em poesia. Todas as noites guardam algo. Às vezes não guardam nada. Mas as lembranças guardam, até quando são esquecidas. Caminhante, caminheiro. Teus olhos são um sendeiro. Tua pele a Martinica. Tua boca o que palpita. Já esqueço a montanha. Já não têm mais desconexos. As vaias de 1967 viram aplausos. O sol entra nas bancas de revista, mesmo a banca sem jornais. Volto para você. Você dorme tranquila. Você é muito mais bonita do que Brigitte Bardot. Tudo em você me chama. Sinto até vontade de dançar. Só de te olhar. Esqueço do vento ruim que sopra. Esqueço o que assola. Não existe mais cordilheira entre nós. Nós somos a cordilheira. O gelo, na pele fina que nos cobre, se derrete. O barco de Fermina Daza e Florentino Ariza navega sobre nossas veias abertas. Segue o fluxo dos batimentos. No fundo da sala, uma vitrola toca o LP da Chiquita Bacana. Olho pela janela e a lua, calada, mais parece um catassol. Nossa cama não tem dossel, o teto dela é o céu. O medo se converte em beijo. E as nuvens, em compreensão. Olho para as estrelas, nós somos a cordilheira.

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