Desenhando a Casa de Noca, por Cristiane Alves

 
Desenhando a Casa de Noca
 
por Cristiane Alves
 
O pai tem por costume exigir a ordem na família, parece justo. Mas, se para alcançar a tal ordem ele violenta os filhos, espanca a mãe pra que não “sair da linha”, ordena que o chamem de senhor, dilapide a herança da família e usufrua dos bens sozinho, ele é um bom pai?
 
Tenho comigo que a ordem é importante, sobretudo numa sociedade. O caos é inspirador, o inferno é o caos alheio.  Então vale tudo pela ordem social?

 
Se o pai, pela ordem, reúne a família e designa papéis, se a mãe assume protagonismo e fica responsável por julgar, o patriarca executa as leis e os filhos legislam, junto com outros parentes atuantes no cotidiano familiar (só para experimento didático), e então o avô afeito a resolver tudo pela força decide que essa não é a melhor maneira de viver.
 
O avô mete o pé na porta no meio da madrugada e passa a morar na casa onde pai, mãe e filhos não podem mais opinar. Tudo em ordem, ninguém sai à noite, escola só para os meninos, meninas devem casar aos 14 anos, a mãe não trabalha mais fora e deve passar e lavar dentro das normas estabelecidas, o pai não manda mais. Agora todos chamam o avô de pai. Tá decretado! Bom pra você?
 
Suponhamos que os filhos se tornem rebeldes, peguem as economias dos pais, gastem com festinhas, repartam a renda familiar entre si, exijam recompensa dos comerciantes locais para que fidelizem suas compras e não repassem nada para a manutenção da casa, saúde e educação da família? A culpa seria de quem? Seria dos pais por acaso?
 
Então a mãe, sensata, ponderada, justa, decide que a vizinhança toda está olhando e que agora tem apoio da opinião pública. Toma as rédeas da situação, coloca três dos seis filhos pra fora de casa, embora os seis tenham cometido ilícitos, decide que ficam os filhos que mais gosta, a de cabelo anelado, o de olhos mais brilhante.
 
A mãe manda interditar o pai, que está sendo periciado, mesmo antes do fim da perícia. Os vizinhos aplaudem, o pai não era simpático, nunca deu festa na piscina, nunca quis frequentar o clube society. Sem o pai quem manda é o tio bonitão, esse sim tem a cara do bairro. Decretada a interdição! Perícia não é importante nesse caso, laudo médico não precisa ser entendido em sentido literal. Importante mesmo é o tio.
O tio não sabe nada da casa. Nunca pagou um financiamento, nunca trabalhou, é viciado em jogo, descobriu que os quadros valiosos que o pai achou no porão, que vieram com a casa, devem ser dados de presente para os amigos americanos que podem hospedá-lo quando for à Vegas. O tio é demais, fala inglês. 
E o pior é que o avô já disse que se o tio bonito não for o chefe ele derruba a casa.
 
Entendeu? Agora desenvolva!
 

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