Devastação no mercado de trabalho deverá frustrar fantasias do superministro, por Lauro Veiga Filho

As “estatísticas experimentais” do IBGE sugerem ainda que as maiores perdas ocorreram entre trabalhadores formais, ou seja, com carteira assinada ou registrados como donos de empresa

Devastação no mercado de trabalho deverá frustrar fantasias do superministro

por Lauro Veiga Filho

Enquanto o “superministro” dos mercados e seus assessores continuam a fomentar a fantasia de uma retomada rápida e vigorosa (em “V”, como dizem os economistas), os números divulgados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um cenário de devastação. O fechamento definitivo de milhares de empresas ao longo da crise sanitária e a deterioração ainda em marcha em todo o mercado de trabalho reforçam o caráter fantasioso dessas projeções e, mais ainda, sugerem que a recuperação será ainda mais penosa. Por isso mesmo, a recente melhora no ânimo empresarial, apontada por sondagens recentes, parece ter sido motivada muito mais pela perspectiva trazida pela reabertura de lojas, indústrias, bares e restaurantes em várias regiões do País nas últimas semanas, sem a menor relação com dados concretos até aqui.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) semanal do IBGE, chamada de PNAD Covid-19, embora tome como base “estatísticas experimentais”, confirma a piora no final de junho. O total de pessoas ocupadas atingiu o nível mais baixo desde o início desse levantamento, na primeira semana de maio, caindo para 82,547 milhões na semana entre os dias 21 e 27 de junho. Uma semana antes, a pesquisa registrava 83,959 milhões de pessoas com algum tipo de ocupação em todo o País. Nesse intervalo, as empresas fecharam 1,412 milhão de vagas, significando um recuo de 1,7% frente à semana imediatamente anterior.

Desde que o IBGE passou a acompanhar o mercado semanalmente, ainda nos primeiros sete dias de maio, a ocupação havia alcançado seu ponto mais elevado por volta da terceira semana daquele mês, somando 84,777 milhões de trabalhadores. Desde lá, portanto, foram liquidados 2,230 milhões de ocupações formais e informais, levando o número de pessoas ocupadas a encolher 2,6%.

A tendência veio acompanhada de avanço no total de desempregados, que saiu de 10,037 milhões entre os dias 17 e 23 de maio para 11,753 milhões na semana entre 14 e 20 de junho, subindo ainda para 12,428 milhões entre 21 e 27 do mês passado. Comparado com a semana imediatamente anterior, o número de desempregados cresceu 4,2% (495,0 mil a mais) e, em relação ao dado do começo de maio, o salto foi de 23,8%, com a entrada no desemprego de mais 2,391 milhões de trabalhadores. A taxa de desemprego, que havia alcançado 10,6% entre 17 e 23 de maio, atingiu 12,3% entre 14 e 20 de junho, subindo para 13,1% na medição mais recente.

Afastamento definitivo

As “estatísticas experimentais” do IBGE sugerem ainda que as maiores perdas ocorreram entre trabalhadores formais, ou seja, com carteira assinada ou registrados como donos de empresa no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Aparentemente, os cortes atingiram principalmente aqueles trabalhadores que haviam sido afastados de suas ocupações por conta da pandemia. O total de pessoas na informalidade, realizando trabalhos sem qualquer forma de proteção social e trabalhista, vem se mantendo relativamente estável em todo o período, chegando a 28,641 milhões na semana entre 21 e 27 de junho, o que corresponde a 34,5% do total de ocupados. O restante das ocupações, supostamente tomadas por trabalhadores formais, passou a cair na edição mais recente da PNAD Covid-19.

O número de empregos formais foi estimado a partir da diferença entre ocupações totais e o total de informais apontado pelo IBGE. Nessa conta, as pessoas com carteira assinada e registro no CNPJ, com acesso à Previdência e a outros benefícios, havia recuado de 56,280 milhões em maio (17 a 23) para 54,227 milhões na segunda semana de junho (7 a 13), mas chegaram a avançar ligeiramente para 55,510 milhões na semana entre 14 e 20 de junho, para despencar até 54,086 milhões apenas uma semana depois, num corte de 1,424 milhão de vagas (queda de 2,60%). Na comparação com a semana de 17 a 23 de maio, foram fechados 2,194 milhões de empregos formais (ou ocupações formais), representando um retrocesso de 3,90%.

Entre aqueles ocupados e não afastados do emprego durante a pandemia, o número caiu 0,90% entre as semanas de 14 a 20 de junho e de 21 a 27 do mesmo mês, saindo de 69,864 milhões para 69,237 milhões (627,0 mil a menos), mas registrou alta de 5,1% em relação a maio (sempre na semana de 17 a 23), quando eram 65,857 milhões.

O total de pessoas ocupadas e afastadas do emprego caiu mais fortemente na comparação semanal, saindo de 11,148 milhões (14 a 20 de junho) para 10,323 milhões na semana seguinte, baixando 7,4% (825,0 mil a menos). Esse contingente encolheu em um terço desde maio (17 a 23), quando somava 15,609 milhões de pessoas – ou seja, o corte atingiu 5,286 milhões de trabalhadores, num tombo de 33,9%. Uma das conclusões possíveis indica que esse pessoal passou a engrossar a fila de desempregados (já que o total de ocupados não afastados cresceu em relação a maio).

Difícil retorno

Essa conclusão faz sentido quando se observa, ainda de acordo com o IBGE, que 716,37 mil empresas foram fechadas definitivamente ao longo da crise, representando 17,6% diante das 4,071 milhões de empresas registradas antes da crise. Dentre as empresas que encerraram as operações em definitivo, em torno de 715,13 mil (ou 99,8% do total) tinham até 49 empregados, quer dizer, eram micro e pequenas empresas. Muito obviamente, essas empresas não estarão mais no mercado para recontratar os trabalhadores que perderam o emprego quando as perspectivas na economia melhorarem. Será preciso reconstruir esses negócios, o que não é uma tarefa trivial e exigirá tempo.

Não bastasse, os números do desemprego seguem mascarados pelo enorme contingente de pessoas fora do mercado por falta de opções ou por conta da pandemia, mas que gostariam de trabalhar. Esse número alcançou 26,939 milhões na semana de 21 e 27 de junho, crescendo 2,2% frente à semana anterior (mais 577,0 mil) e 3,3% em relação à semana de 17 a 23 de maio. Incluindo os desempregados nessa conta, o total sobe para 39,367 milhões de pessoas, indicando uma “taxa de desemprego” de 32,3%. Na comparação com a semana anterior, houve um avanço de 3,3% (1,252 milhão a mais). Se tomada a semana de 17 a 23 de maio, a alta foi de 9,0% (com 3,260 milhões a mais).

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