Diante do inaceitável a resposta tem de ser inequívoca, por Arnaldo Cardoso

Declarações falsas, sem embasamento e preconceituosas como no recente caso do uso pejorativo da expressão “paraíbas” tem se somado diariamente aos absurdos ditos displicentemente pelo presidente

Diante do inaceitável a resposta tem de ser inequívoca

por Arnaldo Cardoso

A inusitada sugestão “Apenas criando um aparelho de mordaça” lançada pelo ministro do STF Marco Aurélio de Mello ao responder uma pergunta sobre como conter as inaceitáveis e cada vez mais frequentes falas do presidente da República foi ilustrativa do absurdo e gravidade da situação em que estamos vivendo e, ao indagar “Aonde vamos parar?” vocalizou o que uma grande parcela da sociedade brasileira vem se perguntando diariamente e com crescente indignação e sentimento de urgência.

E foram muitas as vozes indignadas que desde segunda-feira se ergueram em reação à medonha fala do presidente da República sobre o assassinato em 1974 de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB Felipe Santa Cruz. Entre muitos escritos que merecem menção cito aqui o de uma admirada professora que também sofreu os arbítrios e violências da ditadura, avaliando que, os recorrentes elogios à ditadura e defesa da tortura, marcas do atual ocupante do principal posto do Poder Executivo do país, sugerem que ele – que já confessou não ter nascido para ser Presidente – “gostaria, mesmo era de ter nascido umas décadas atrás e ter sido contratado para trabalhar num dos porões da ditadura onde ele pudesse se especializar em choques elétricos, espancamentos, arrancar unhas, empalar e estuprar pessoas […]”

Os significados mais comuns para o substantivo psicopata são “comportamento antissocial”, “falta de arrependimento ou remorso”, “incapacidade de criar laços afetivos, empatia e amor ao próximo”, mas para além do reconhecimento de eventual  “distúrbio mental” e “desequilíbrio patológico” do presidente o que parece mais urgente, eficiente e didático é a caracterização de crimes e consequente responsabilização.  

Vários advogados se manifestaram na sequência da fala do presidente enquadrando-a na lei nº 1079, artigo 9º, que diz que é “crime de responsabilidade contra a probidade na administração proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.

Declarações falsas, sem embasamento e preconceituosas como no recente caso do uso pejorativo da expressão “paraíbas” tem se somado diariamente aos absurdos ditos displicentemente pelo presidente que, ao mesmo tempo em que expressam sua ignorância e mediocridade intelectual dão mostras de seu crônico desprezo pela dignidade humana e incapacidade de compreensão do significado da Presidência da República enquanto instituição.

Mesmo sofrendo ignominiosa agressão, o presidente da OAB que perdeu seu pai aos dois anos de idade, educadamente se manifestou e classificou o autor da fala como cruel. Isso é muito pouco. A interpelação junto ao STF é o primeiro passo e representa um alento aos que igualmente se sentiram ofendidos com a atroz fala do presidente da República. 

Se falas como essas continuarem a se repetir e passarem a ser normalizadas sem correspondente reação de repúdio da sociedade e responsabilização de seus autores a sociedade dará mostras de sofrer de mal grave ao qual poderá sucumbir.

Não basta resistência a hora é de reação.

Arnaldo Cardoso, cientista político e professor universitário.

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