Dois sintomas da doença fundamentalista que está matando o Brasil, por Sr. Semana

É espantoso constatar que muitos que ficaram horrorizados com a reunião do presidente com o seu ministério em abril de 2020 comemoraram o horror protagonizado em abril de 2016 pela Câmara dos Deputados.

Dois sintomas da doença fundamentalista que está matando o Brasil

por Sr. Semana

O “show de horrores”, como foi qualificado pelo jornal inglês The Guardian, exibido no vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, me fez lembrar outro show semelhante ocorrido quatro anos antes no Congresso Nacional, quando foi aprovado o pedido de abertura do processo de impeachment da então presidenta eleita Dilma Rousseff. Comparação da fala do presidente da república na reunião com as de alguns dos deputados que votaram pelo impeachment mostra que a mesma doença que retirou Dilma colocou Bolsonaro no poder.

Na reunião o presidente cobrou um engajamento maior dos seus ministros na defesa das “bandeiras” que são “minhas”, disse o presidente, e do “povo”, pois “estamos com o povo”, “temos o povo a nosso lado”. Imediatamente antes de elencar as bandeiras, o presidente cita o nome da ministra Damares. São elas: “família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre comércio”.

Declarações de voto de deputados pelo impeachment da presidenta Dilma ressaltaram as três primeiras bandeiras citadas (fonte: “As pérolas do domingo de votação na Câmara”, compilação de Zé Enrico Teixeira, www.epoca.globo.com, publicado em 18/04/2016, acessado em 25/05/2020). Alguns exemplos:

Delegado Éder Mauro (PSD-PA): “Eu, junto com meus filhos e minha esposa que formamos a família no Brasil, que tanto esses bandidos querem destruir com propostas de que crianças troquem de sexo e aprendam sexo nas escolas com seis anos de idade, meu voto é sim!”

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Ronaldo Fonseca (PROS-DF): “Pela paz de Jerusalém, eu voto sim”.

Fernando Jordão (PMDB-RJ): “Pelo Brasil, por todas as cidades do Rio de Janeiro … eu voto sim pelo impeachment da Dilma!”

E claro, o maior horror exibido na Câmara em 17/04/2016, uma síntese macabra de todas as bandeiras elencadas na reunião de 22/04/2020:

Jair Bolsonaro (PSC-RJ): “Nesse dia de glória para o povo brasileiro … Pela família e pela inocência das crianças em salas de aula que o PT nunca teve. Contra o comunismo, pela nossa liberdade. Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff … por um Brasil acima de tudo, por Deus acima de tudo, meu voto é sim!”

É espantoso constatar que muitos que ficaram horrorizados com a reunião do presidente com o seu ministério em abril de 2020 comemoraram o horror protagonizado em abril de 2016 pela Câmara dos Deputados. O show é o mesmo. Sintomas graves da mesma doença nas mais altas esferas de dois dos três poderes da república. Originada no fundamentalismo religioso-moral e neoliberal norte-americano, a doença está matando o Brasil a olhos vistos.

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