Dona Canô e o Natal das mães brasileiras, por Luis Nassif

Publicado, originalmente, em 25 de dezembro de 2012

De certo modo, dona Canô se tornou uma mãe símbolo do Brasil. Não para todos, menos ainda para os mais jovens, mas para os da minha geração. E morreu no Natal, inspirando a celebração da mãe brasileira, na figura de dona Canô.​

Foi ela que trouxe as músicas brasileiras do fundo dos séculos e as borrifou em seus filhos, desde o berço, gotas preciosas fazendo florescer uma das mais belas famílias musicais do país, Caetano, Bethania, a família estendida, Gil, Gal, Tom Zé e seus inúmeros descendentes musicais.

Dona Canô pegou o bastão das músicas antigas, entregou aos filhos, eles assimilaram, trabalharam os sons e acrescentaram ao repertório imemorial as dezenas de joias musicais que nossa geração recebeu e também entregamos aos nossos filhos, na companhia das cantigas que recebemos de nossas mães.

Dona Canô representava tudo isso. Varou o século 20 e entrou no século 21, nesses tempos da Internet e do desvario, para explicar que por trás das mudanças de paradigmas, da globalização, pior, dos provincianos da globalização, que julgam de bom tom espinafrar qualquer senso de brasilidade, há o fio condutor. E um fio condutor tão forte que a impeliu a puxar as orelhas do filho, setentão rebelde, sempre que necessário.

Foi a partir das cantigas recebidas por dona Canô que Caetano produziu um som brasileiro universal, levou a baianidade aos quatro cantos, encantou intelectuais e músicos dos mais variados países. Um ex-amigo me contava, anos atrás, a paixão que o grande Albert Hirschmann tinha pelas músicas e pela voz de Caetano.

Por trás do artista, a mãe, paradigma das mesmas mães que moldaram nossa geração, que nos fizeram acreditar no Brasil, que plantaram em nossas emoções as cantigas de roda, as pequenas práticas do interior.

Semana passada, ganhei de tia Zélia uma das fotografias preciosas da família. Eu, com poucos meses, na qualidade de primeiro filho da nova geração, no colo da nossa matriarca maior, vó Mariquinha, minha bisavó. Minha lembrança mais antiga era ficar no seu quarto, na pequena São Sebastião da Grama, ouvindo suas cantigas. E, nem sei bem porque, com as pernas na parede, de ponta cabeça no colchão, cantarolando “Adios muchacho”, provavelmente ensinado por tia Rosita ou tia Marta.

Atrás da vó Mariquinha, vó Martha, que me embalava no sono cantando velhas valsas do maestro Azevedo (“dorme, dorme, filhinho / meu anjnho inocente…”). Ao lado da vó Martha, tia Mariana, que ensinou para mamãe o clássico “Linda Flor” (“Cabocla linda flor do ipê / eu quero casar com vancê”). Depois, tia Deca e a beleza clássica de dona Tereza, linda, linda.

Ontem o Natal foi na casa da Fátima. Reunidos, todos os irmãos, boa parte dos sobrinhos.

A confraternização com os ausentes se deu através da música. Cantamos “Marambaia”, “Chuá Chuá”, as canções de Bob Nelson, a “Flauta de Bambu”, de Jararaca e Ratinho, que dona Tereza adorava, e que provavelmente dona Canô cantava para seus filhos. E “Papai Adão” e as marchinhas que seu Oscar escondeu de nós, mas que recuperamos muito tempo depois, através de seus amigos.

Incluímos na cantoria o “Ciúmes”, a mais bela composição de Caetano; o frevo de Gilberto Gil, que marcou meus 18 anos. E cantamos Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Chico e Milton.

Não falamos dos velhos, nem relembramos as festas de família dos tempos de Poços. No meu canto, estranhei um pouco o passar dos anos. Agora, éramos nós a geração mais velha, mais velhos do que nossos pais já eram na época. E os sobrinhos, ainda crianças para nós, bem mais velhos do que os jovens que éramos nos festejos poços caldenses.

Dona Canô morreu no Natal, a mais bela festa da família brasileira, independentemente de credos e raças. E permitiu a todos nós esse momento mágico de saber que ela, a mãe símbolo da nossa geração, em breve estará com as demais mães brasileiras entoando as cantigas que primeiro fizeram brotar nossas emoções e nossa crença no país.

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