Duas vezes ópera, por Walnice Nogueira Galvão

O poder da ópera como manifestação artística no cenário político e social

La Monnaie

Duas vezes ópera

por Walnice Nogueira Galvão*

A certa altura da ópera Nabucco, de Verdi, a ária coral “Va, pensiero” (Vai, pensamento) é cantada por hebreus cativos na Babilônia de Nabucodonozor. Expressando a nostalgia da pátria, própria de exilados que a revisitam em imaginação, a ária está entre as mais célebres e populares de toda a história da ópera.

O episódio bíblico do exílio na Babilônia foi glosado em prosa, verso, música e mesmo pintura, tornando-se uma alegoria dos anseios de liberdade e emancipação. Inspirou muitos poetas e não escapou a Camões, que lhe dedicou belas décimas de redondilha maior: “Sobolos rios que vão/ Por Babilônia me achei/ Onde sentado chorei/ As lembranças de Sião…”.

Acontece que essa ária ressoou especialmente na Itália, à época dominada por invasores estrangeiros, na longa jornada de lutas pela independência em que se distinguiu Garibaldi. Conta-se que, em seguida à estreia de Nabucco em 1842, surgiram grafites por todo o país, que rezavam: “Viva Verdi”. O que, decifrado enquanto sigla, resultava em: “Viva Vittorio Emmanuele Re d`Italia”,  reivindicação de um rei compatriota e não mais estrangeiro.

No século do Romantismo, a coincidência histórica entre o apogeu da ópera italiana e o processo do Risorgimento, como foi chamada a tardia unificação da Itália enquanto nação, resulta em composições libertárias, que se manifestam contra a tirania e o jugo do opressor, não importando os anacronismos. E isso mesmo em meio a cenários e personagens exóticos como o Egito da Antiguidade (Aída, de Verdi); a dominação de Roma sobre os povos bárbaros (Norma, de Bellini); os senhores feudais da Idade Média ou posteriores (Il Rigoletto, também de Verdi; Guilherme Tell, de Rossini; Fidelio, única ópera de Beethoven); ou uma princesa sanguissedenta (Turandot, de Puccini). Tiranos e ditadores, reis, duques, déspotas abundam nas óperas, que denunciam sua prepotência, confrontada pelos heroicos protagonistas,  paladinos da liberdade.

Leia também:  Abandono de povos indígenas na pandemia deixa dúvida se governo age por “omissão ou estratégia”

Em 2011, o presidente Berlusconi cortou as verbas do Ministério da Cultura. Numa récita de Nabucco no Teatro dell´Opera di Roma, na presença do presidente, ao final da apresentação da ária coral “Va, pensiero” o público prorrompeu em pedidos de bis. Antes de atender, o maestro Riccardo Muti voltou-se para a plateia e, após protestar contra o recente corte dos subsídios para a cultura, convidou o público a cantar o bis junto com o coro, dizendo que naquele momento a Itália o fazia lembrar do verso “O mia patria, si bella e perduta!”.

Entoando conjuntamente, público e coro foram às lágrimas. E a tudo Berlusconi assistindo… Sabe-se que o maestro foi convocado a uma audiência com o presidente, a que se seguiu uma restauração das verbas sonegadas. Um a zero para o poder da arte.

Outro exemplo impressionante, e raríssimo, de poder da arte, no caso a ópera, é relacionado à conquista da independência pela Bélgica. Passou-se no teatro La Monnaie em Bruxelas, que  então integrava o Reino Unido dos Países Baixos. Nesse período, atores famosos como Talma e cantoras como a Malibran – mencionada entre outros pelo fã de ópera Machado de Assis – apresentaram-se na casa. O corpo de baile era comandado pelo bailarino e coreógrafo Jean-Antoine Petipa, pai do grande Marius Petipa  que viria a ser o fundador do balé moderno. Este último dirigiu por trinta anos o Balé de São Petersburgo, formando estrelas da categoria de Nijinsky, Ana Pavlova e Mikhail Fokine. Suas numerosas coreografias são até hoje reencenadas.

Leia também:  Arte, resistência política, gênero: confira o Cai Na Roda com Laerte Coutinho

O teatro La Monnaie viria a desempenhar um proeminente papel na formação do Reino da Bélgica. Após ter sido banida dos palcos pelo rei Guilherme II, a ópera de Daniel Auber La Muette de Portici foi reabilitada. Encenando uma revolta dos napolitanos contra o jugo espanhol, quase dois séculos antes, a obra é nacionalista e exalta a pátria, pregando a derrubada do imperialismo estrangeiro.

Na performance desta ópera na noite de 25 de agosto de 1830 em Bruxelas, uma revolta eclodiu, o público inflamado extravasou do teatro e ocupou as ruas, conclamando os cidadãos àquela que se tornaria a Revolução Belga e que resultaria na independência da Bélgica. Esse sim é um caso único e extraordinário.

*Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora