E em cada olhar dissolver habilmente o mundo real, por Maíra Vasconcelos

Sentir essa necessidade em revirar a realidade é ver com profundidade qualquer coisa já então banalizada

Foto: Reprodução/Maringá - overmundo.com.br

E em cada olhar dissolver habilmente o mundo real

por Maíra Vasconcelos

 

Hoje, ao ler os jornais, senti aquele sobressalto delicioso por mentir, mentir ainda mais. Criar a fantasia perfeita para a miséria dos dias. Como a miséria de hoje. Ouvi dizer que o conceito de riqueza foi extraviado.

Então, talvez seja mesmo insólito transformar o real em irreal. E para isso, é necessário ter a fantasia insistentemente pregada em cada um dos olhos. E em cada olhar dissolver habilmente o mundo real.

Hoje, ao ler os jornais, anunciaram a morte de dois milhões de animais. Acredito na necessidade em fazer dessa realidade uma possibilidade de redenção pela beleza. Alguém consegue conviver com a morte de dois milhões de animais sem paralelamente desejar uma ficção? Ir ao quarto, à sala, e ler um conto, por exemplo.

Todos poderiam amar a fantasia, mesmo sem saber muito bem como encaixá-la no dia a dia. Como contar a morte de dezenas de rios, uma centena de cavalos, bois, vacas, árvores e pássaros, sem as mãos da literatura?

Não se pode viver espantado uma vida inteira. Meus espantos são lavados em cada palavra que saberá de mim mais do que eu mesma. Porque na palavra se cava, se talha aquilo que parecia visto, mas nunca esteve exposto, realmente.

Conhecer o mundo, a própria cidade e até a rua aonde se vive, dependerá sempre de quão perto disso se chega para transformá-lo em algo mais harmonioso. Desejar a beleza é inerente ao instinto de vida.

Sentir essa necessidade em revirar a realidade é ver com profundidade qualquer coisa já então banalizada. Como um único verso pode tornar incrível o que supostamente era ordinário. Assim como o mundo é ordinário. A transformação à ficção apenas é possível após o conhecimento do real estalado na face do olho. E, de novo, o olhar. Esses olhos que viram pássaros mortos saírem voando em debandada. Algo assim tão banal e fantástico ao mesmo tempo.

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