E o que mais as periferias devem fazer para serem ouvidas?, por Ion de Andrade

Massacres semelhantes a esses nunca saíram dos nossos noticiários. A sua persistência no tempo é a marca indelével de uma responsabilidade nacional, em tudo igual àquela que Castro Alves denunciou em Navio Negreiro há 151 anos.

E o que mais as periferias devem fazer para serem ouvidas?

por Ion de Andrade

O Navio Negreiro

“Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…”

Os atestados de óbito dos jovens mortos em Paraisópolis já começaram a ser conhecidos. Asfixia, traumatismo raquimedular… suas roupas não atestam pisoteamento.

O governo federal se prepara para acabar com o já frágil e pouco aplicado excludente de ilicitude, o que permitirá maior liberalidade no tratamento das mortes produzidas pela polícia.

O governo Dória já começou a desacreditar a “versão” da comunidade de Paraisópolis.

Venho repetidamente sinalizando aqui nessa coluna que a questão das periferias é, de longe, o maior problema social brasileiro e que elas só estão assim pelo abandono crônico e sistemático a que são submetidas e que esse é a mecanismo pelo qual o Estado brasileiro, sucedâneo da Casa Grande, reproduz a sociedade brasileira como ela é. Como disse uma ativista negra, a única presença do Estado nas periferias é o cano do fuzil.

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Como tenho dito, esse abandono é de difícil percepção porque o ente responsável por ele, o Estado que oprime por sua deliberada ausência, não está, é claro, presente para ser responsabilizado pelo enorme conjunto de obrigações civilizatórias que deixou de cumprir naquelas terras deixadas ao Deus dará, fato que tende a responsabilizar o excluído por sua exclusão e o miserável por sua miséria.

É óbvio que não se pode assimilar a esquerda e a direita no que tange à responsabilidade pela miséria obscena que agride diariamente o nosso povo, mas é indiscutível que o desalento vivido pelas periferias e zonas rurais no Brasil responsabiliza o conjunto das forças políticas que governam ou governaram esse Estado Casa Grande ou esse verdadeiro Navio Negreiro, pois o seu propósito subjacente, a moenda de corpos e almas, nunca foi quebrado. Quem o conduziu tomou parte, uns sabendo e outros sem saber.

A situação da Chácara Santa Luzia no DF (clique aqui) é a prova definitiva dessa responsabilidade nacional. Entretanto, seria justo considerar que a complexidade do fenômeno de um Estado que oprime por sua ausência, não tenha permitido que fosse compreendido a tempo pelo campo progressista para uma ação de enfrentamento mais robusta. É realista e justo considerar isso e a crítica a faço com o profundo desejo de que esse campo progressista se levante e vá cumprir com a sua missão histórica.

 Portanto, embora a comparação entre a esquerda e a direita seja impossível, essa dramática realidade nacional, não isenta o campo progressista sobretudo da responsabilidade de persistir no erro de repetidamente não pautar a centralidade das periferias e zonas rurais para as políticas públicas, a começar por aquelas de âmbito municipal, que são as que nos interessam nessa quadra.

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Mas…. novamente se avizinham as eleições municipais sem que essa agenda dê ares de que será priorizada. Dela, mais uma vez não se ouve falar.

A contemporaneidade, a dignidade, os equipamentos coletivos cruciais para a inclusão social e as políticas públicas convergentes com esse propósito nas Periferias e Zonas Rurais ficarão, ao que tudo indica, mais uma vez para as calendas gregas. E o Estado Casa Grande poderá a seu bel-prazer continuar como sempre fez, aparecendo nessas Senzalas, como cano de fuzil, nos seus safaris de jovens impúberes e crianças.

O ocorrido em Paraisópolis responsabiliza diretamente a cultura da Extrema Direita que está sendo implantada no Brasil, e a situação, obviamente, está de mal a pior. Porém massacres semelhantes a esses nunca saíram dos nossos noticiários. A sua persistência no tempo é a marca indelével de uma responsabilidade nacional, em tudo igual àquela que Castro Alves denunciou em Navio Negreiro há 151 anos.

Atualizando o Navio Negreiro, diria que se nessas eleições de 2020, o campo progressista, novamente não pautar a centralidade das Periferias e Zonas Rurais no que toca às políticas públicas de que necessita em todos os aspectos para sua dignidade e emancipação e que começam no município, a parte saudável da nação deve considerar seriamente clamar aos céus para que nos poupe de tanta vergonha e cinismo e acabe de uma vez com o Brasil, pois é um cadáver insepulto e putrefato.

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