Economia a pandemia: o Brasil está à deriva, por Henrique Fontana

Além de boicotar o isolamento social, Bolsonaro não adota providências necessárias para proteger a economia.

Economia a pandemia: o Brasil está à deriva

por Henrique Fontana

Diante da queda prevista no PIB brasileiro de 4,7%, o Governo aponta como vilão o isolamento social. O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a declarar que, antes da pandemia de coronavírus, o Brasil mostrava sinais de recuperação, quando, na verdade, nossa economia vinha estagnada com crescimento de apenas 1,1%  em 2019, resultante do absoluto fracasso do modelo vigente. Portanto, a pandemia agravou uma situação que já era muito ruim da economia brasileira.

Em vez de combater o vírus, Bolsonaro abriu guerra contra o isolamento social, única forma de deter a expansão acelerada da pandemia, ao conclamar os empresários a pressionarem o Supremo Tribunal Federal e os governos estaduais e municipais para relaxarem a quarentena.
Para desmascarar a insensatez dos falsos argumentos do Governo basta fazermos um raciocínio simples. Se dois meses atrás o governo tivesse adotado os protocolos sugeridos pela Organização Mundial de Saúde, como fizeram outros países – alguns, tardiamente – o Brasil estaria em outro patamar. Milhares de vidas teriam sido salvas e a retomada da economia estaria mais próxima. É só olhar para o que acontece no mundo.
O empobrecimento planetário decorrente da pandemia é uma realidade da qual não há como se afastar. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 9 das 11 principais economias do mundo sofrerão retração significativa. Nos países que souberam enfrentar os efeitos do coronavírus com sabedoria, através do isolamento social – em casos mais graves, do confinamento – e de ações concretas como testagem em massa e estruturas médicas adequadas, já é possível enxergar sinais de recuperação, combinando a defesa da saúde pública com a retomada econômica.
No Brasil, ao contrário, por causa do boicote liderado por aquele que, pelo cargo que ocupa, deveria ser o mais preocupado com o País e a saúde do seu povo, estamos diante do colapso. Os casos de contaminações e vítimas fatais cresce vertiginosamente e apontam para a triste e dramática realidade de que o Brasil terá a segunda maior mortalidade por Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos.
Em vez de apresentar ao País um plano com base em dados científicos que pudesse reduzir o impacto da pandemia e apontar um caminho para a retomada econômica, Bolsonaro prefere desfilar sua fanfarronice irresponsavelmente, debochando do povo brasileiro, em atos cada vez mais minguados de seus apoiadores contra as instituições democráticas, e por meio de declarações apoiadas em fake news e informações deturpadas, ao mesmo tempo em que beira o charlatanismo ao indicar medicação sem qualquer respaldo científico, cujo uso indiscriminado tem produzido mais mortes. Há poucos dias, o Ministério da Saúde publicou uma orientação propondo uso da cloroquina. Não assinada por ninguém, ou seja, ninguém será responsabilizado pelos graves efeitos que ela poderá gerar.
O que o governo deveria estar fazendo, ao invés de boicotar o isolamento social, é acelerar um conjunto de medidas para proteger a economia brasileira, ampliar linhas de financiamento, adotar mecanismos  de proteção dos empregos e salários, como estão fazendo os países que enfrentam corretamente os efeitos da pandemia, prorrogar a renda mínima para proteger o tecido social brasileiro, lançar um programa robusto de investimentos públicos em programas com forte capacidade de geração de empregos, como habitação popular, saneamento e infraestrutura, entre outras coisas.
Além de boicotar o isolamento social, Bolsonaro não adota providências necessárias para proteger a economia. Em seu delírio ególatra e autocentrado, Bolsonaro enxerga o isolamento não como um imperativo necessário para combater a pandemia, mas como um complô armado pelas instituições com apoio da mídia com o objetivo, no fim das contas, de solapar o seu Governo. Ao minimizar os efeitos devastadores da Covid-19 e desdenhar as milhares de mortes que crescem a cada dia no país com o seu sinistro bordão “e daí?”, Bolsonaro demonstra que se afasta cada vez mais da responsabilidade que o cargo exige e torna cada vez mais necessário o seu afastamento, pelo bem do Brasil.

Henrique Fontana é deputado federal (PT-RS)

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  Coronavírus: Mais de mil funcionários da JBS e BRF no MS estão contagiados

4 comentários

  1. —-“O Brasil está tão desastrosamente governado que já estava em crise, mas com Bolsonaro está se transformando numa crise ainda mais profunda porque o governo federal é, como nos EUA, incoerente e dá pouca ajuda para deter a epidemia além do que fazem os governadores estaduais.”—-

    Crise da pandemia no Brasil está mais profunda por causa de Bolsonaro, diz Jeffrey Sachs
    Gerardo Lissardy Da BBC News Mundo em Nova York
    BBC Brasil—–22 de maio de 20220BBC – Qual a sua maior preocupação neste momento em termos econômicos?

    Jeffrey Sachs – Agora, economia é saúde pública. Se se controla esta pandemia, se restaura a vida cotidiana e econômica.
    Se a pandemia não for controlada e seguimos propagando o vírus ao redor do mundo, isso afetará muito os países pobres e os países de rendas médias, os impactos econômicos durarão anos e serão muito graves.

    Se esses impactos econômicos muito graves conduzem a uma crise financeira, o que é uma possibilidade real porque muitos países correm o risco de não poder pagar suas dívidas internacionais ou enfrentam uma desestabilização financeira muito importante em suas economias, isso multiplicará os efeitos.

    Se temos uma crise financeira, uma crise de saúde pública e uma crise geopolítica, teremos outra era de Grande Depressão.

    Muitas coisas podem ficar ruins neste momento.–
    —Há uma maneira de fazer com que as coisas melhores, mas não estamos seguindo essa trajetória porque a qualidade da liderança em muitos países, começando pelos EUA, é tão ruim que estamos tendo resultados muito ruins quando poderíamos estar muito melhores.

    E, lamentavelmente, a perspectiva é de resultados ainda piores no futuro. Temos uma liderança terrível nos EUA, uma liderança miserável no Brasil, uma liderança ruim para esta crise no México. Muitas economias emergentes estão começando a se ver muito afetadas, e tudo isso poderia levar a um desastre crescente.

    No curto prazo, há muita dor econômica junto com as mortes e os confinamentos.

    Mas estamos bem no momento em que ou fazemos uma boa saúde pública ou enfrentaremos transtornos econômicos que durarão anos. E temo que estejamos indo mais na direção do último.—

    —BBC – A América Latina avançou na redução da pobreza nos primeiros anos deste século, mas a tendência se reverteu com o fim do boom das matérias primas, e agora a região enfrenta esta crise. Há um risco de que desapareça a nova classe média que surgiu na América Latina?

    Sachs – A única notícia positiva para grande parte da América Latina é que ela tem regiões produtoras de alimentos. Portanto, deveria haver comida em muitos países e na região.

    Mas pense em quantos países estão muito afetados neste momento.

    O Brasil está tão desastrosamente governado que já estava em crise, mas com Bolsonaro está se transformando numa crise ainda mais profunda porque o governo federal é, como nos EUA, incoerente e dá pouca ajuda para deter a epidemia além do que fazem os governadores estaduais.

    Sabemos que o Equador e o Peru enfrentam um forte impacto da epidemia.

    É provável que no México aconteça o mesmo porque AMLO (como é conhecido o presidente Andrés Manuel López Obrador) tem estado basicamente em negação, como Trump e Bolsonaro. —-

    https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52744233

  2. a queda no PIB será MUITO MAIOR do que essa exposta. será de 2 dígitos. entre 10,1% a até mais de 15%. como é provável a ruptura, nem no ano que vem o PIB será positivo.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome