Economia brasileira em sete pecados capitais: avareza, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

O medo de perder é muito maior que a vontade de ganhar, contrariando o “espírito animal” com que Keynes descrevia o ímpeto dos empresários na ânsia de auferir lucros.

Economia brasileira em sete pecados capitais: avareza

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Há dez anos, administrei duas fazendas contíguas, cujo proprietário estava em coma. Precisávamos irrigar o café e reformar os pastos. A necessidade de investir azedou o relacionamento a ponto de, morto o proprietário, o trabalho não seguir adiante. Eram propriedades privilegiadas, com tudo de bom: água abundante, solo drenado e levemente ondulado, à beira do asfalto. Hoje, ambas são canaviais arrendados por menos de um quinto de sua capacidade, mantendo-se os investimentos em curso. Para os herdeiros, a terra não era um negócio, porém, um estorvo, um gerador de gastos. Num mundo menos financeirizado, ouvimos frases como “Quem compra terra não erra”, mostrando que o entesouramento é o grande inimigo da produção. É que o investidor compra a terra e não investe nela, na expectativa da sua valorização, o que lhe dá o epíteto de “gigolô de boi”, pois tira tudo e não dá nada.

Não é só no campo que se encontram exemplos da avareza do capitalista brasileiro. Somente no estado de São Paulo, existem mais de 1,5 milhões de imóveis desocupados, aguardando que alguma construtora se interesse. Nâo se trata de fenômeno recente. Foi abordado no discurso de João Goulard na Central do Brasil, em 13 de março de 1964. De lá para cá, a avareza mudou de nome, passando a financeirização.

Existe sim uma lógica nesse comportamento aparentemente anticapitalista. É que, para investir é preciso correr riscos e o avaro odeia riscos. Se ele investir capital próprio, compromete sua liquidez; se dá a terra em garantia e usa capital de terceiros, mantém sua liquidez e põe a terra em risco, então, prefere não fazer nada e continuar aguardando uma pretensa valorização, enquanto vive de juros.

O grande avanço da Economia como ciência, nos últimos quarenta anos, foi considerar o risco como restritor de investimento. O medo de perder é muito maior que a vontade de ganhar, contrariando o “espírito animal” com que Keynes descrevia o ímpeto dos empresários na ânsia de auferir lucros. Isso explica por que os agentes econômicos continuam financiando o Estado, mesmo que a juros negativos, ou seja, o Tesouro é um colchão que ninguém pode levar embora. É o que se chama de risco-zero.

Desde os anos 1970, em todo o mundo, mais evidentemente no Brasil, as empresas mais lucrativas estão deixando de investir para apostar na liquidez, mesmo que a taxa de juros seja menor do que a expectativa de lucros de seu negócio principal. Trata-se de um fenômeno largamente estudado, contando com modelos econométricos sofisticados como o de Martins, Mattos e Miranda (2020), que analisaram balanços de 257 empresas listadas na Bovespa entre 2010 e 2016. O trabalho constatou que, mais do que não investir, os acionistas estão exaurindo as empresas dirigindo recursos para o mercado financeiro, apostando no crescimento da dívida pública como remunerador potencial, até inesgotável. Daí ser imprescindível, caso queiramos voltar a crescer, transformar o Banco Central de indutor da atividade econômica via taxa de juros, tornando-o uma agência de seguro de crédito, controlando o nível de atividade pela mitigação do risco, em vez de penalizar a sociedade pela imposição de juros que só beneficiam uns poucos privilegiados.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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2 comentários

  1. Luiz Alberto

    Parabéns pelas qualidades de seu texto, pequeno, simples e direto ao essencial.

    Seu texto ressalta uma emoção de extrema importância em economia e investimento, o MEDO de investir, de correr risco, principalmente quando existem as tetas gordas e seguras da dívida pública e seus juros para remunerar os investidores.

    Cabe destacar a seguinte frase:

    “O grande avanço da Economia como ciência, nos últimos quarenta anos, foi considerar o risco como restritor de investimento. O MEDO de perder é muito maior que a vontade de ganhar, contrariando o “espírito animal” com que Keynes descrevia o ímpeto dos empresários na ânsia de auferir lucros.”

    Já foi afirmado acerca da natureza humana: “O medo de perder é 2,5 vezes mais forte que a vontade de ganhar.”

    Se possível, favor enviar novos artigos para o jornal GGN.

    Atenciosamente.

  2. Eu tenho uma solução mais drástica: capital financeiro ocioso, imposto sobre riqueza excessiva nele. Uma empresa ou pessoa que disponha de muito mais dinheiro do que suas necessidades de giro e investimento de curto prazo requeiram, deve ter que fazer uma escolha: ou procura NOVOS investimentos onde por seu dinheiro extra, ou paga 50% de imposto sobre o excedente (a preços constantes) todo ano. Como ninguém vai encontrar um papel que renda 50% reais ao anos, vai haver uma imensa procura por novos investimentos. E aí o Governo entra com o outro lado da moeda: cria empresas para usar esse capital, ou aproveita outras já existentes, investe pesado em infraestrutura, energia, telecom/internet, habitação, saneamento, ferrovias, hidrovias, portos, navios mercantes, trens, e, se sobrar dinheiro, em pequenas indústrias de transformação que atendam a demanda regional e micro regional, principalmente no interior, gerando emprego industrial de boa renda, criando polos econômicos no interior, principalmente do nordeste, norte de Minas e sul de Goiás, deslocando o poder econômico do Sudeste / Sul para essas regiões.
    Ah!, e claro, PROIBIR os bancos e empresas financeiras que existem hoje de atuar nesse mercado. Nem sequer sócios minoritários podem ser, seja nos novos investimentos, seja nos inevitáveis fundos administradores desses recursos. E a dívida pública, para não estrangular o Estado com falta de financiamento, será compulsoriamente substituída por títulos muito mais longos e com taxas tipo IPCA+1% a.a., até que a relação dívida/PIB caia a menos de 25%.
    É drástico, é sonho, mas isso ainda é de graça…

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